Cor-de-rosa


– Flávio, você vê o mundo cor-de-rosa! – exclamou meu amigo Beto, quando falávamos sobre a maneira que entendíamos as pessoas, a sociedade e tudo mais.

– Ué, Beto? Por que? É para ser cinza?

– As pessoas não são do jeito que você acredita.

– Eu acho que as pessoas, as coisas, o mundo, o universo e tudo mais são da maneira que a gente acredita ser. Então, pode ser cinza ou pode ser cor-de-rosa e a gente vai viver assim, reagindo e agindo da maneira que acreditamos. Não tem como você mudar isso de mim, Beto!

Esse diálogo, dentre muitos outras situações, se estabelecia entre eu e o meu amigo Beto entre 2007 e 2009, ápice de nossa amizade. Naquele período, nos víamos de quarta a domingo e estabelecíamos um contato intenso. Foi a minha fase de entrar a fundo nos prazeres e entretenimentos da vida gay, coisas que ficavam distantes de mim por eu colocar um namoro, naquele tempo, em um outro lugar.

Tal Beto, não é o amigo do MVG nem meu ex, é bom esclarecer. Foi alguém fundamental que conheci por volta de 2002, quando ele tinha 19 anos e eu 23. Eu acabava de me iniciar na vida gay e foi na antiga SoGo que minha amiga resolveu puxar conversa com ele, por ser lindo e simpático. Falaram horas.

Eu realmente percebia que aquele adolescente era lindo e simpático. Mas, curiosamente, a mim não tinha sex appeal e talvez seja por isso que estabelecíamos, assim, uma amizade íntegra, sem segundas intenções, pelo menos no começo. Nosso envolvimento afetivo ficou, a maior parte dos anos, subentendido. Até 2008.

Quando eu estava namorando, o Beto se distanciava. Quando eu estava solteiro, era uma das companhias certas para a vida norturna e gay em São Paulo. No começo ele era esse “vampiro”: só topava sair se fosse a noite! Vampiro e sempre gongava meus namorados (rs).

A amizade que tinha com o Beto era interessante, de dois arianos mas que – ao mesmo tempo – eram de comportamentos antagônicos. Eu era sempre vocacionado ao namoro, com períodos curtos de vida de curtição. Ele, vocacionado a solteirice e a liberdade que esse estilo confere, me apresentando alguns poucos relacionamentos (extremamente) passageiros e, segundo ele, intensos!

Como água e óleo nos permitíamos construir uma intimidade, agindo e enxergando as pessoas de maneiras tão diferentes. Toda vez que eu saia de um namoro e estava preparado para me aventurar em alguma festa, meu amigo sabia exatamente qual ou quais deveríamos ir. Tinha muitos contatos e, em alguma medida, flertava com todos (rs).

Mas em 2007 eu resolvi me afundar naquele estilo de vida de “devassidão”. Algo para além de mim me puxava para ser o “Beto” que existia por dentro e ele seria meu melhor companheiro. Foi entrando em seu estilo de vida que ele se permitiu entrar um pouco mais no meu, a ponto do diálogo se inverter: “Flávio, você não cansa, não?!”. Esse questionamento vir do Beto?! Ah, eu realmente meti o pé na jaca naquele período! (rs).

——————————

O meu dia de Natal foi incrível, não fosse a notícia insana, por volta das 16h do dia 25/12/2015, sexta-feira: o Beto havia falecido. Gelei e, enquanto o Rafa tomava um banho, eu lia atônito as mensagens de sua família na timeline, sobre a hora e local do velório e do enterro. Chocante, impossível e improvável. Minutos depois, Ela (amiga em comum entre eu e o Beto) me ligava para dar a notícia que eu acabava de saber. Falamos rapidamente pois eu não conseguia assuntar. Em mais alguns minutos, meus amigos os quais eu não falava há anos, mas sabiam da minha proximidade com o Beto, povoavam meu Whatsapp e Messenger do Facebook para saber, de mim, como aquele fato era possível. Uma pressão pavorosa de me questionarem o que havia acontecido. Não bastasse, amigos do Beto que nem chegavam a ser meus amigos, faziam o mesmo. Minha vontade, naquela hora, era mandar TODOS se foderem. Mas fui fino, frio e copiei e colei a mensagem dezenas de vezes: “há dois anos não temos mais contato. Estou sabendo agora também e estou tão confuso como você”.

Há dois anos não falávamos mesmo. Beto havia brigado com Ela e comigo. Lembro bem de sua última frase ao me “expulsar” do restaurante:

– A gente vai se cruzar por aí ainda – pronunciava aquelas palavras com um tom de ameaça, como se eu realmente pudesse me sentir ameaçado por ele (rs).

Os motivos e “por quês” de uma amizade tão longa e tão intensa ter chegado nesse capítulo, pode ser interessante num próximo post. Fica aqui a minha mensagem registrada a ele, sobre o que ele representou para mim:

“O ‘Bete’ não curtiria nada uma homenagem em sua timeline (rs). Ia achar brega, piegas e desnecessário (rs). Uma exposição! Mas, dessa vez, ele não vai chamar minha atenção com suas críticas agudas (rs).

E pensar que eu o conheci por aí e ele tinha 19 anos… eu estava com 23 e foi uma amiga que puxou a conversa com ele. Isso foi por volta de 2002 e de lá até uns dois anos atrás, nos víamos com bastante frequência. Por volta de 2007, tivemos o ápice de intensidade: viagens para praia, ano novo em Buenos Aires, viagem para Minas Gerais, baladas, restaurantes, muito papo cabeça, cinema, teatro, aventuras e desventuras e formávamos uma dupla inseparável. Era de quarta a domingo, praticamente nessa frequência. Fraternidade sincera.

Costumava a dizer que o Bete tinha um baú de segredos, aquele que ele reservava para os amigos íntimos e mostrava a conta gotas, depois que adquirisse muita confiança. Na intimidade, era uma pessoa simples, que adorava a natureza e curtia bons momentos em silêncio. Mas é claro que, como um bom ariano (e eu também) vira e mexe nos pegávamos em debates sem fim, sobre a vida, as pessoas, o universo e tudo mais. As vezes era muito chato (rs), principalmente quando eu precisava compartilhar minha atenção com outros amigos (rs). Ciumentinho que só, mas se tivesse a atenção exclusiva, era incrível. Brigamos e nos amamos muitas vezes, nessa sequência (rs).

Esse meu amigo era capaz de fazer-nos sentir exclusivos (quando queria)! :P

Que a gente volte a se ver em outras vidas pois, apesar da intensidade e de tantas emoções, taí uma amizade que vale a pena repetir algumas vezes. Apesar da distância nos últimos anos, foi tudo valioso. Bom saber que, nesse momento, vem à tona as melhores e felizes lembranças! Agradecido pelo seu legado dentro da gente e refletido nas amizades que ficaram.

Até breve!”

Beto, que você apronte muito aí, nesse lugar qualquer que se forma da maneira que a gente entende. E que me aguarde, por mais que tenha que esperar, para que eu dê umas pitadas cor-de-rosa!

Embora ele tenha partido aos 34 anos, TUDO valeu muito a pena.

4 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Poxa.. Meus pêsames…

    Perdi um amigo faz muito, muito, muito tempo.

    Eu com 17 ou 18 ele dois anos ou três anos mais velho.

    Foi a única pessoa que sacou que eu era gay enrustido rs.

    Lindo de cabelos claros e olhos azuis, sedutor , brincalhão e Leal. CARA DO HENRY CASTELLI, ACHO QUE É ASSIM QUE ESCREVE, basta ver o ator eu vejo meu amigo, isso até os amigos em comum e a irmã dele falam isso até hoje.

    Hoje percebo que ele deu várias oportunidades para rolar algo, só que eu ficava confuso era o maior pegador de gurias do clube.

    Ele foi contaminado pelo HIV e faleceu dois anos depois, nunca deixei de frequentar casa dele, deitava na mesma cama e sofá para assistir sessão da tarde ou jogar vídeo games.

    Sempre foi gentil e carinhoso, a forma que ele tratava família era lindo.

    Me lembro com se você hoje quando ele falou que eu tinha muito para descobrir sobre mim e o mundo.

    Quando dei meu primeiro beijo gay, décadas depois , em minha mente eu imaginava ele olhando e dizendo…. Demorou em rapaz!

    Nossa chorei escrevendo isso…. Voltei anos no passodo eu lembrei de bons momentos ao lado do meu amigo Anderson…. Carinhosamente chamando por mim de Andy.

    Saudades…

    Fica com Deus Flávio.

  2. Lucas disse:

    Flávio, lindo o texto. Poste mais sobre o Beto, sobre a tal briga no restaurante… Fiquei curioso pra saber mais sobre a amizade de vcs.
    Meus pêsames.

  3. Frederico disse:

    Sou muito chorão! E óbvio que derramei lágrimas imaginando as aventuras de vocês, das conversas, da vida. Fui nostálgico por você! Diga o que houve com Beto pra ter falecido tão novo!

  4. Antonio disse:

    Flavio posta mais sobre o Beto e a amizade de vocês. Que escolhas de vida levaram a sua morte? Senti muito quando vc postou.
    Abraço.

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