Entrelinhas

– Flávio, como você me deixa esperando meia hora aqui, Flávio?! – esbravejava meu amigo na fila para entrar na matinê de domingo do antigo Sonique.

– Beto, eu falei pra você que estava na casa do Fab, aqui perto. Assim que você mandou a mensagem, dizendo que tinha chegado, eu vim. Vim a pé, por isso demorou um pouco.

– Ah, Flávio… meia hora?! Você fumou maconha com ele, né? Como você me deixa esperando esse tempo?!

O Beto era assim, algumas vezes e de súbito, quando sentia que a minha atenção era dividida com outros amigos. O Fab, de fato, tornava-se íntimo a mim, naquele período de 2007 e 2008. Era alguém que eu tinha conhecido pela primeira vez há alguns anos atrás, pelo aproximação do próprio Beto.

Das dezenas ou mais de uma centena de vezes que saíamos, o Beto normalmente chegava atrasado. Quem me conhece, sabe que numa grande maioria das vezes sou pontual com compromissos marcados e confesso que estava já bastante acostumado com os atrasos de 30 minutos, 40, quando não de uma hora do meu companheiro das baladas. Eu, me conformando com suas demoras, aproveitava para dar um tour sozinho nos lugares marcados. As vezes, tirava um sarro dele.

Aquele escândalo na fila do Sonique – lembro com graça e nitidez até hoje – foi bom e ruim. Ruim pelo próprio sentido do escândalo, na fila de entrada enquanto diversos gays eram plateia da situação. Algo desnecessário. O Beto não fez questão de controlar o tom de voz e a aspereza. Mas foi bom porque aquela beldade, o cara que chegava na pista e parecia que um holofote acendia sobre ele, estava chamando a minha atenção em “praça pública” como se fosse meu namorado ou alguém bastante íntimo.

A medida que ele despejava toda sua insatisfação por ter me esperado, foi se acalmando. Eu pacientemente conclui:

– Pronto. Está mais tranquilo? Já estou aqui. Vamos entrar e nos divertir?

Naquele período, eu e o Beto estávamos bastante apegados, embora eu – por dentro – tratasse aquela relação com um equilíbrio, dividindo a atenção e meu tempo com ele e com mais uns sete amigos que eram companhias comuns em minhas investidas. Tais amigos eram bem diferentes, de vibes diversas, o que afirmava minha característica agregadora.

Mas era evidente para os conhecidos que eu e Beto éramos uma “dupla inseparável”. Quantos amigos e conhecidos não nos abordaram questionando se éramos namorados? Foram meses, reveillon, final de semana, feriados e dias da semana que nos encontrávamos para fazer de tudo que fosse cultural ou de entretenimento: restaurantes, bares, baladas, viagem para o litoral norte, para Minas Gerais, Buenos Aires, cinema, teatro, exposições e shows. O Beto havia perdido seu carro (foi guinchado e ele nunca foi retirar – rs) e, normalmente, eu ia até Santana para pegá-lo, no apartamento em que morava com a mãe e as irmãs. Quando eu não estava disposto, ele vinha de táxi para o ponto de encontro. Quando nos encontrávamos às sextas, parava meu carro em frente ao apartamento de seu pai, na Peixoto Gomide, travessa com a Frei Caneca, para uma carona.

O Beto, não sei se com um propósito consciente, deixava caras apaixonados, salpicados por aí. Vira e mexe apareciam a mim para sugerir o deslumbre que tinham pelo meu amigo. Um ou outro, mais louco, jurava de pé junto que era o Beto que reservava uma paixão por ele. Eu achava impressionante, doido e recorrente. Quando ele faleceu, na sexta passada, claro que um rapaz que eu nunca tinha visto na vida, me chamou pelo Messenger do Face para assuntar e revelar, como de praxe, a paixão que tinha por ele (rs).

Eu estava acostumado com isso e tal situação não me deixava para baixo, por ele ser altamente paquerado. Creio que, nesse sentido, eu nunca construí uma competitividade com Beto e, mais do que isso, apesar de muita gente achá-lo lindo, charmoso, entre outros adjetivos, eu não nutria essas percepções por ele. Em outras palavras, nunca fui encantado pelo meu amigo, nunca ficamos e, talvez por isso, conseguimos construir uma amizade distinta e confidente. Quando o conheci, em 2002, eu tinha 23 anos, ele 19 e eu já vivia meu primeiro namoro.

Mas dois fatos ficaram marcados em minha memória e talvez hoje sugira o que havia nas entrelinhas de nossa amizade em 2007. Estávamos “colados” a maior parte do tempo e era evidente que situações semelhantes ao meu “atraso”, de certas cobranças e controles, eram recorrentes. Estávamos descendo a Rua Augusta durante a tarde de um final de semana, quando diante de alguma reclamação por parte dele, eu sugeri:

– Você percebeu que a gente é praticamente namorados, só não tem o sexo?

– Sim (rs).

– Você não está cansado da relação?

– Ah, um pouco (rs).

– Então, o que você acha da gente dar um tempo?

– Acho bom (rs).

– Então, vamos dar um tempo.

– NÃO! (rs).

Depois de mais de um ano me permitindo viver a “vida louca, vida breve”, conheci um rapaz que se tornaria meu namorado. Coincidentemente o nome também era Beto (rs). O relacionamento já estava tomando forma, quando meu amigo entrou em contato e fez um convite para jantar. Claro que topei na hora e, naquele noite, ele estava tranquilo e parecia não criar nenhum caso. O Beto tentou entrar numa conversa sobre meu namoro e eu, com jeito, cortei o assunto pois sabia que a tendência era ele querer gongar minha história, lançar julgamentos sobre a pessoa e etc. Confesso que eu estava um pouco armado naquela noite pois, tudo que eu menos queria, era que ele viesse com conceitos e julgamentos sobre o fato e a pessoa com a qual eu estava iniciando um namoro.

Na volta, dei carona ao Beto até uma estação na Paulista. Quando estávamos bem próximos do ponto, ele lançou assim:

– É… acho que terminamos, né?

Não consegui responde-lo diante de uma questão que, a mim, não era nem “sim”, nem “não”. Nem “sim” pois não havíamos, de fato, tido um namoro para haver um término. Nem “não” porque, a mim, manteríamos normalmente a amizade; claro que menos frequente já que eu estava engatando uma nova história.

Nos reencontramos uma última vez há uns dois anos atrás. O meu propósito era simplesmente rever um amigo querido, colocar os papos em dia e matar as saudades. Ele, depois de um atraso de uma hora e meia (seu recorde), chegou agressivo, com dez pedras e uma vontade consciente de “acabar com tudo”. Fez que fez, até me expulsar do restaurante (rs). Alegava que aquela pessoa era ele realmente, que nunca tinha sido tão sincero. Mas é claro que não. O fato, a mim, é que desde aquele tempo a ideia de “não alimentar o gênio ruim” do outro estava se configurando. Apesar de chocado, mantive a linha e sai do restaurante quando qualquer sentido se esvaiu.

Com o Beto, posso sugerir que haviam entrelinhas. Mas eu jamais assumiria o papel de um de seus “amigos” que afirmava que ele reservava uma “paixão oculta” e, por outro lado, apesar de tudo, ele não me despertava desejo. O que eu pude oferecer para esse amigo foi uma amizade íntegra, sem segundas intenções.

Agora que ele se foi, poderia pipocar culpas ou remorsos por algo que fiz ou deixei de fazer. Alguma coisa assim bateu nas primeiras horas, quando soube de seu falecimento. Vou sentir falta da possibilidade de nos aventurarmos por aí, como fizemos entre 2007 e 2009, com a intensidade típica de dois arianos que, embora de histórias de vida antagônicas, tinham uma cumplicidade. Havia sim uma química entre nós, e assumo que da minha parte tinha muita pureza, de um sentimento fraterno por uma pessoa muito, muito querida.

O Beto enquanto era uma “divindade idealizada” para muitos, lindo, gentleman, charmoso e etc., comigo, talvez, ele pudesse ser humano. Inteiro. Eu era imune ao seu “feitiço”.

1 comentário Adicione o seu

  1. isaiaspdf disse:

    É muito bom ter um amigo assim,sempre que preciso esteja lá pronto para ajudar de alguma forma;parabéns a você e a ele.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.