A chegada dos quase 40


O relato de um gay que atingiu quase 40 anos e não virou purpurina

Como bem disse um amigo ontem, que ultrapassou essa idade: “com 40 anos você sabe o que você quer, sabe o que não quer e sabe o que tanto faz”. Apesar de estar com 38, quase 39 anos, tais palavras fizeram bastante sentido para minhas sensações atuais, dos meus 37 anos para cá. Além de outros atributos, nada como ter amigos mais velhos para receber alguns toques de sabedoria. Completei a afirmação assim:

– Mas também a gente faz terapia há anos e serve exatamente para isso, né, Tablito?

– Ah, mas é claro!

Quantos não são os gays enrustidos ou os jovens gays que temem atingir tal idade por caírem num vácuo do esquecimento, da solidão, da falta de apoio e da perda dos atrativos necessários “em um mundo gay superficial e sem vínculos”? Milhares e tal sentimento pode ser, na prática, uma grande enganação; uma autossabotagem e uma mentira criada em nossa cabeça. O mundo é a maneira que nós acreditamos e, essa máxima pessoal, abarca qualquer viés de meias verdades.

Já é bom avisar de antemão que este texto não retrata um pensamento absoluto, para que os incomodados com as minhas palavras não venham com mil pedras emocionais por causa da insegurança que se gera. Cabeça boa é aquela que abrange as diversas realidades sem ter medo. No máximo temos uma preguiça quando nos deparamos com algo que não bate.

Chegar aos 40 é ter algumas convicções mais formadas, o que por um lado nos enrijece um pouco, no exato sentido de saber o que a gente gosta, o que não e o que tanto faz. Quando somos gays enrustidos (digo, com desejos reprimidos e pontecializados) ou jovens, temos um universo infinito de quereres para serem realizados. Natural a gente fazer muita coisa que não temos lá uma autêntica vontade, mas que acabamos fazendo por pura necessidade de aceitação e autoafirmação. Estamos ainda nos encontrando, por assim dizer.

Claro que existirão quarentões meio perdidos, buscando ainda muita aceitação e muita afirmação, o que não quer dizer que não sejam pessoas normais! Mas como disse, o texto aqui não é de verdades extremas e, no final, cada um entende a vida e o mundo da maneira que quer acreditar.

A minha busca pelo entendimento da espiritualidade tem sido uma realidade dos meus quase 40 anos. E, ao contrário do que pregam doutrinas ou instituições, nada tem a ver com esse teor radical, que visa o angelical, de reprimirmos nossos desejos carnais ou profanos para garantirmos nossa luz. A luz e a escuridão, o bem e o mal, não estão fora, mas estão dentro, numa eterna necessidade de equilíbrio. Em outras palavras, para se ter uma elevação, não precisamos reprimir desejos e fantasias, mas sim, encontrar uma mescla saudável que nos garanta uma paz interior, cientes de que esse estado não durará para sempre, pois estamos constantemente em transformação e o ambiente externo nos influenciará em diversas medidas durante os anos.

Por esses dias, comentei a um amigo que um indivíduo maduro e/ou tratado espiritualmente, consegue entrar em seus próprios infernos sem ter que reprimí-los. Compartilha dos desejos da carne sem o vício e a compulsão e, por fim, exerce uma autonomia para lidar consigo 360 graus sem precisar sublimar aquilo que, perante as religiões, é tido como errado. Cientes de que existe a legitimidade nessas palavras quando há a medida do respeito dos limites e da consciência pelo outro.

No final, o que te move? O que te faz bem? O que você quer para si, o que não e o que tanto faz? Um homem gay como eu, que chega aos 40 anos, tem as respostas dessas questões com muito mais clareza. Clareza que a gente sabe que pode durar apenas alguns anos, para turvar e depois clarear de novo. Quando a gente é jovem tem uma certa beleza a incerteza. Nos instiga, motiva e nos impulsiona. Quando a gente chega aos 40, algumas das certezas que se estabelecem viram aconhego. A gente vai aprendendo a ter menos pressa, menos ansiedade e expectativas, sem ficar com aquela sensação de que estamos perdendo tempo por alguma coisa que ainda não veio. O fato é que na “meia idade”, parte delas chegou, ou espera-se que sim (rs).

A vida aos quase 40 anos fica mais simples, embora a gente facilite menos. Ela fica menos complexa, embora tenhamos mais preguiça de topar aquilo que foge do que a gente quer. Não viramos purpurina, tampouco sumimos do mapa. A não ser que essa seja a vontade.

3 comentários Adicione o seu

  1. Rodolpho disse:

    Muito bom esse texto. Me identifiquei bastante. Sou bem mais feliz e realizado agora depois dos 40.

  2. Julio Santiago disse:

    O lado ruim é que temos que fazer exame de sangue regularmente para checar a nossa saúde. Também dá uma saudade dos tempos quando eu participava de torneios de vôlei, por exemplo. Sinto muita falta daquele tempo. Ah, se pudesse eu queria ser jovem para sempre. E também queria ser rico, mas não consegui ficar rico. Então tenho que ser feliz para viver em paz. rsrs

  3. Dodi disse:

    A autoafirmação, a pressão por conseguir meu espaço por méritos e criar vínculos saudáveis e firmes, não mais a vontade mas sim a necessidade de fincar o pé no chão, vai moldando aquele homem que talvez, bem la no fundo, eu tanto esperava ser e não tinha “tempo”. Quando eu penso que estou ficando velho e acabado, logo vem um carinha da acadmia que eu desejava e não me dava bola e agora, me fuzila com olhares… O sexo deixa de ser a coisa mais importante do mundo e o mundo torna-se a coisa mais importante, também para o sexo.

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