Amizade leal


No sábado passado pude me despedir do meu amigo Beto, aquele que faleceu no dia de Natal recente, que foi companheiro em diversos momentos no meio gay (e nada gay) e que foi assunto nos posts “Cor-de-Rosa” e “Entrelinhas”, aqui do Blog Minha Vida Gay. Foram praticamente 15 anos de amizade, quando em 2002 o conheci por intermédio de uma amiga. Para quem chegou aqui e não está entendendo direito do assunto, sugiro a leitura dos dois textos mencionados. Ele tinha 34 anos.

Surpreendentemente (ou nem tanto assim para a realidade de alguns gays acima dos 30 anos hoje), foram 15 anos de amizade mas eu nunca tinha conhecido sua família. Seria a oportunidade de ter uma breve troca pessoal com pai, mãe e duas irmãs. Eles promoveram uma missa de 15 dias para os contatos em São Paulo, já que o amigo fora sepultado em Itapeva e a missa de sétimo dia ocorrera em Porto Alegre.

De fato, o Beto e sua mãe tinham certos atritos quanto a diversos assuntos, incluindo a sua homossexualidade. Já seu pai, o aceitou como gay com muito mais naturalidade. E, pasmem, sua irmã mais velha sabia que ele era gay há bem pouco tempo. Meu amigo foi um daqueles que preferiu não assumir e não sei até que ponto, a sua própria não aceitação de si com essas restrições, não teve algum tipo de influência nessa partida precoce. Vai saber…

Cheguei uns 15 minutos adiantado e, rapidamente, eu e sua irmã mais nova nos reconhecemos em frente à igreja. Ela é a cara de meu amigo e, eu, o japa que havia feito uma homenagem ao Beto em sua timeline. No passado, conheci essa menina apenas uma vez, pequenininha, quando ele fez uma festa no salão do apartamento e convidou uns amigos do teatro.

Foi bom ter encontrado sua família, mesmo depois de tanto tempo. Pude participar de uma missa católica, algo que – se não me falha a memória – foi uma realidade a mim apenas em casamentos. O que me impressionou e foi ruim e bom é que, apesar da divulgação no Facebook e diversas pessoas terem se manifestado à época do falecimento, compareceu apenas eu, um outro amigo do Beto e, ao final, nossa amiga Ela. Assim, estavam sua família e nós três. Por um lado, senti um vazio por notar que nessas horas, aqueles que efetivamente levavam nosso amigo em consideração, eram tão poucos. Por outro, tal situação confirmava uma percepção que eu e Ela tínhamos sobre ele: de intimidade mesmo, daquilo que se poderia sugerir a lealdade recíproca, o Beto se restringia a nós. Os demais, lindos e cheirosos, não passavam de pessoas dispostas a curtir nosso amigo (e vice-versa). Nenhum sinal de ex-namorados.

Tal momento comprovava o sentido especial que o amigo depositava na gente e, no final, isso me parecia bastante suficiente. Mesmo o terceiro amigo, aquele que o Beto vivia criticando cheio de preguiça a mim e a Ela (rs), reservava no fundo, uma paixão mal resolvida por ele (algo que eu sabia). Chorava bicas e mais bicas durante a missa. Eu sentia até uma certa graça, diante do exagero, e tinha em mente a seguinte ideia: “taí a comprovação de que ficar reservando sentimento por meros melindres ou caprichos, no final, pode se tornar um problemão!”.

Ao final, pude me aproximar de seu pai, aquele que em fisionomia e palavras se mostrou extremamente grato pela minha presença. Fiz certo esforço para entender os reais motivos de seu falecimento tão precoce e imaginava que um “caminho errado” era possível. Seu pai confirmou, a medida que foi narrando a história. Agradeceu diversas vezes a minha presença e falou assim:

– O Beto falava bastante de você. Lembro quando você vinha pegá-lo no meu apartamento e ele avisava que ia sair contigo. Eu falava a ele: “chama ele pra subir!”… mas você conhecia o Beto, né?

– Ah sim… vira e mexe, parava em frente de seu apê na Peixoto Gomide pra gente dar nossas voltas. Lembro de uma vez que o Beto desceu furioso e entrou no carro já dizendo assim: “ai, Flávio, que raiva do meu pai. Eu cheguei hoje e tinha aqueles saltos altos da namorada dele no meio da sala!” – deixando bem claro o quanto ele tinha ciúme do pai (separado há um tempo de sua mãe), na situação da paquera com outras mulheres.

Demos abraços e boas risadas juntos.

Foi naquele momento que se estabeleceu uma verdade: era a lealdade e o carinho por um amigo, independentemente de sua sexualidade e independentemente da quantidade de pessoas. Se houveram crises entre mãe e irmãs por causa disso, naquele momento tivemos algumas horas de redenção. Independentemente dos laços religiosos, eram três gays num templo cristão, notoriamente afirmados como tal, perante os familiares do Beto e perante um sentimento legítimo de consideração. O que ficou disso é uma singela e suficiente gratidão.

Voltei pra casa e lá se encontrava o Rafa, tirando um belo cochilo num sábado de chuva. A mim, reconfortante. A vida a de continuar aqui e em algum outro lugar. Valeu, meu amigo Beto.

 

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