Ativos, passivos e versáteis


Resolvi retomar alguns dos primeiros temas postados no Minha Vida Gay há quase 5 anos atrás. O olhar sobre determinados assuntos é diferente porque hoje eu tenho quase 40 anos e a época, com 33, estava mais perto dos 30. Águas rolaram nesse tempo, relatos aqui e lá fora me acrescentaram para formar e reformar percepções sobre, no caso, a relação entre gays ativos, passivos e versáteis.

O Rafa comentou assim algumas vezes: “gays versáteis tem mais oportunidades no final. Ativos e passivos acabam brochando quando sabem que o outro de interesse tem a mesma preferência”. E essa ideia não deixa de ser uma verdade. Existe um aspecto restritivo em ser ativo ou passivo e, no final, tais condições muitas vezes tiram o foco da própria homossexualidade, cujo pilar de definição seria o simples envolvimento sexual e afetivo por outro do mesmo sexo. O interesse existe, mas precisamos saber qual é a do outro para ver o quanto um contato vale a pena.

Dos meus 23 aos 31 anos eu me entendia ativo. Tinha em mente que “ser só ativo” poderia ser algum tipo de bloqueio psicológico já que qualquer homem pode ter prazer anal (pela existência da próstata). Tem homens gays que nem deixam o parceiro encostar na bunda! (rs) Nesse meu período, cheguei a fazer tentativas, algo que doia muito e não conseguia achar um prazer. Nessa minha onda de ter como propósito a superação de meus bloqueios, ficava com essa ideia no radar, mesmo sabendo que naquele tempo não conseguiria fazer diferente.

Aos 31 fui me permitindo mais, com a ajuda do meu ex-namorado. E foi com ele que, pela primeira vez, as sensações de prazer tornaram-se reais. Sei que, a medida que fui me desbloqueando das ideias que me faziam ser ativo, meu parceiro também me estimulava para ser passivo. Talvez, com ele, foi a primeira vez que eu realmente tive a vontade para isso.

De lá pra cá, me entendo como versátil com predisposição para ser ativo. Falo assim pois não me considero um “passivo nato”, não tenho total habilidade e noto que, os gays passivos, tem uma tamanha facilidade e jeito para tal. Prefiro, inclusive, os pintos menores, esses que definitivamente me deixam mais a vontade para ser passivo! (rs)

Imagino que não há um estudo comprobatório para tais assuntos; todo pensamento sobre ativos, passivos e versáteis se resume às minhas vivências e trocas de experiências com outras pessoas. Mas tenho a impressão, algo que já afirmei por aqui, que a nossa cultura prega seus valores e influencia diretamente essa bipolaridade entre “ativos e passivos”. Ser ativo sugere masculinidade “o homem da relação”. Ser passivo o oposto.

A cultura trás essas influências e, por outro lado, o indivíduo gay (no caso os homens), se identificam com os universos masculinos e femininos. Dessas intersecções mistas e variadas, brotam tais predileções.

A heteronormatividade e o modelo cultura (no caso, da sociedade brasileira) são ainda pilares definitivos e influenciadores a todos. Desde pequenos, somos constantemente bombardeados pelos mais diversos valores e informações dos mesmos, absorvemos conscientemente ou não e tal intersecção, do contexto cultural e heteronormativo com aquilo que somos por dentro e individualmente, cria nossas programações.

De alguma maneira, subconsciente, eu fui programado para ser ativo. Pelas influências externas e por quem sou. Tomei consciência dessa realidade e, num exercício longo de desapego, quebra de bloqueios e ressignificação de valores, consigo hoje ser passivo na cama e tenho até desejos, algo que o Rafa já me ajudou com os dedos (rs).

Poderia morrer de vergonha de tratar desse assunto com tanta abertura. Mas a sensação de constrangimento é justamente o sinal de que há algum bloqueio ou desconforto interiorizado sobre essa realidade: ativos, passivos e versáteis. Culturalmente, ainda, é um tremendo tabu falar de sexo. Imagine então, dessas nuances do sexo gay, que tanto nos definem ou nos confundem? Para o gay ativo é seguro ser ativo. Para o gay passivo é seguro ser passivo. E posso sugerir que, para o gay versátil, em sua profunda intimidade e subconsciente, sexualidade é muito menos questão. É muito menos motivo para vergonha ou constrangimento.

Muitos homens franceses, heterossexuais, tem a cultura do fio terra com as suas mulheres no ato sexual. O que há de diferente entre o francês e o brasileiro?


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

3 comentários Adicione o seu

  1. San disse:

    Gosto de ser versátil..

    Eu pego e depois sou pego ou sou pego e depois e pego.

    Para ser sincero não sei dizer de qual eu gosto mais…. Ativo ou passivo.

    Pra mim vai da lua 🌚, da pegada no momento, como vou reagir.

    Detesto começar a transa já definindo como vai ser, gosto de deixar rolar e durante as preliminares definir.

    Costumo dizer que entre eu e o meu namorado é como dois leões, aquele que está com mais fome come primeiro, rs.

  2. Rodolpho disse:

    San, gostei da sua definição usando a alegoria dos dois leões. Muito legal!

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