Tipo Fênix


Seja em um contexto de relacionamento, quando dois gays rompem um namoro, ou em outros aspectos da vida de um indivíduo, chegar aos quase 40 anos é saber que os desafios, imprevistos e surpresas nos “matam” algumas vezes. Mas o interessante é que, depois que a gente “morre”, ou depois que fica a sensação de arrancarem uma de nossas pernas (ou o próprio coração) a gente “renasce” muitas vezes. A perda de uma pessoa, de um ideal ou de um modelo de relacionamento, normalmente gera essas sensações, momento na qual encaramos de frente – sem a chance de desviar – o quanto somos humanos e falíveis.

Há quem diga que, depois de um rompimento, uma das partes sempre “se dá melhor”. Para aquele “que se dá pior” e que resolve saber como o outro está se virando, explode um misto de sensações de frustração, ódio, rancor, arrependimento e etc. É como se aquele que “se dá melhor” não tivesse um mínimo de consideração. É como se o nosso ego não suportasse a ideia da pessoa estar “normal e já em outras investidas”. Ficamos com raiva. Depois, com uma vontade de voltar atrás. Daí vem o ódio de novo, vem a tristeza e certa depressão ao notarmos que não há volta e, nas fases finais desse “luto” (termo da psicologia aplicado para términos de relações), renascemos. O fato é que tem gente que “renasce” depois de algumas semanas e, outras, podem demorar muitos anos. Sofremos demais quando notamos que “a posse” está lidando melhor com o fim. Mas antes tarde do que nunca, o sentimento de perda tende a se resolver a todos.

O sentimento de “morrer e nascer” não atinge só o universo dos relacionamentos, embora nesse sentido, seja bastante claro para boa parte dos leitores. Tal vivência de “Fênix” (pássaro que renasce das cinzas e quem assistiu Harry Potter sabe do que estou falando), permeia os mais diversos aspectos da vida e, vou deixar aqui um registro claro e pessoal de momentos em que eu “morri” no ano passado.

Por volta de julho de 2015 até os últimos dias do ano (incluindo o dia 25 de dezembro, Natal), eu morri algumas vezes. Morri, sem um teor demagógico, vitimista ou dramático. Simplesmente morri, consciente de que algumas perdas nos provocam sustos, surpresas e certas dores. As vezes nos arrebatam mesmo e, sejamos emotivos ou frios, nos leva aos processos de luto de qualquer forma, sem controle.

No segundo semestre do ano passado perdi minha cachorra, companheira há mais de 10 anos. Foi a última de uma geração de três bebezões, a mais longeva e – ao mesmo tempo – a mais conectada a mim. Fui obrigado a sacrificá-la. Perdi clientes, numa debandada nunca antes vivenciada! Efeitos da tal crise, quando parcerias de 4 anos ou mais se desfizeram. Perdi um ideal de gestão da minha empresa: em meio ao desastre econômico que se escancarou para além das mentiras eleitoreiras e pressionava a minha empresa por cima, por baixo perdi profissionais que sustentavam um modelo de negócio, um projeto que eu havia idealizado há mais de uma década. Me vi sem chão como há tempos não sentia.

E para “celebrar” tantas perdas, no dia 25 de dezembro, Natal, perdi meu amigo Beto, cuja amizade ultrapassava uma década e cujos detalhes da qualidade da relação estão a partir do link acima. Luto sobre luto e, sendo eu, sem ter muito tempo do chororô.

Para um “cara forte, racional e equilibrado” como eu, impressões que transmito e que fazem sentido a boa parte dos meus amigos, todas essas perdas – cujos vínculos somavam anos e anos – foram suficientes para me deixar, no mínimo, desiludido. Pensei em fechar a empresa algumas vezes.

Nesse mesmo intervalo de perdas, “coincidentemente”, trabalhava dentro de mim o propósito de alcançar o sentido de solitude, de mais autonomia e de autoria. Deus não deixou barato (rs) e já que eu estava nessa onda de ser “dono de mim”, resolveu lançar todas essas bombas ao mesmo tempo, para fazer jus ao ditado: “carregamos a pedra que aguentamos levar”. Morri várias vezes para ser obrigado a nascer de novo para, depois, morrer novamente! Me senti apanhando num ringue de boxe, ou melhor, de MMA.

Mas aqui estou, vivo e, no dia 28/01/2016, preparado para dizer que estou novamente em paz.

Eu coloquei, com as forças que me restavam, um pensamento em foco: “não vou levar para meu ano novo esses sentimentos de fracasso, revolta, desespero, tristeza, frustração e raiva”. Mentalizei a partir de novembro do ano passado uma simples e poderosa palavra: desapego. No ápice do meu sofrimento, por tudo isso, e pelo falecimento do Beto que estava por vir, tive os líderes políticos atuais como os melhores sacos de pancada! Foi bom fazê-los como bode expiatório às minhas angústias, principalmente porque há legitimidade em querer espancá-los (rs). Porém, no dia que resolvi “virar a chave”, mudei meu discurso e meu comportamento, da noite para o dia.

O ano virou numa bela e requintada cobertura na Vila Madalena. Fui “DJ” da festa e pude colocar diversas músicas do meu agrado e do agrado dos demais convidados. Foi um momento simples, embora farto de variedades de pratos e muita champanhe. Foi revigorante e feliz.

Renasci agora, a partir dos primeiros dias de janeiro. Embora tivesse conhecido o Rafa na época em que meu furacão estava começando a rodar, eu não me sentia preparado para um namoro. A sensação, de fato, é de que um relacionamento não cabia. E, curiosamente, foi após o meu renascimento, quando o encontrei no final de semana seguinte ao Réveillon, que olhei para ele e disse: “nossa, o que aconteceu que você está diferente? Pelo visto foi um descarrego a sua virada na praia, hein? Pegou muitos gatinhos?” – provocações. :P

Meus olhos estavam fechados depois de tantas tempestades sequenciais e, ao abri-los, foi o Rafa um dos primeiros a serem avistados. Talvez ele realmente estivesse diferente? Talvez. Mas tenho consciência agora de que eu estava.

Recomeçar, tendo ao lado alguém querido é reconfortante. E embora o fim desse post pareça romântico e ideal para muitos, não foi ele quem me serviu de combustível para o meu reerguer. Saber que há alguém inteiro ao meu lado, me desejando e vice-versa é incrível e não há porque negar. Adoro o Rafa e seus méritos são outros, confidenciais. Mas, das tempestades que a vida me colocou a frente, arrancando de mim um sentido de controle, me exigindo um esforço do desapego, para reconquistar a paz no coração que sinto hoje de novo, dependeu principalmente de mim, da profunda vontade de retirar o gosto amargo.

Ao certo, funciona assim para todos. Por que eu não sou do tipo mi-mi-mi?

 

4 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Interessante o teu relato, porque é sim uma realidade geral da vida, nascemos, vivemos e morremos, e até nos reproduzimos várias vezes durante essa experiência terrena, que se convencionou chamar de vida humana.

    Havia conversado com um dos meus terapeutas sobre as várias mortes psicológicas que passamos ao longo da vida, e eu que não sou nem autônomo e muito menos bem resolvido já passei por essas fases inúmeras vezes. A fênix é um ser mitológico de fato, mas ele realmente existiu, na verdade a figura da ave de fogo que renasce era uma apologia à vida do Flamingo, que punha seus ovos em regiões vulcânicas, e de onde não se pensava que pudesse eclodir uma vida, e ali naquele terreno inóspito surgia ave novamente, que se acreditava naquela época como “renascida”.

    Já morri muitas vezes, já nasci de novo algumas vezes, tenho vivido ainda o luto, que pra mim demora muito a passar, e quando o luto persiste, de acordo com a perspectiva Freudiana passa a ser chamado de Melancolia, pelo que sei. Vivo melancólico, e perde realmente tudo, perdi a carreira profissional, perdi uma das pessoas em que mais confiei e gostei em toda a minha vida, a quem ingenuamente dirigi meus afetos, minhas expectativas e esperanças, esse foi meu erro.

    Mas eu acho que mesmo morto, melancólico, ou sei lá que termos mais podemos utilizar para expressar essa amálgama de péssimos sentimentos que ocupam minha mente atualmente, acho que uma das coisas mais importante na vida eu já fiz. E esta coisa foi admitir a mim mesmo onde estava, ou para onde estava direcionado o meu prazer, parece meio pueril, mas não é, isso é muito importante.

    Sem que você tenha noção disso você é como um morto vivo, um zumbi, ou seja nem vivo e nem morto, mas numa zona intermediária absolutamente desconfortável. Acho que foi muito tarde pra ter entendido e/ou descoberto esse tipo de coisa, diferente de quase todo mundo, e tenho um caminho pela frente que realmente me dá medo, porque eu não estou acostumado a esse tipo de desafio, não costumo entrar em batalhas para perder, mas desde que entrei nessa nova empreitada já perdi mais do que tinha perdido na minha vida “zumbi” inteira hehehe.

    É aí que entra o desejo de desistir, ou para que continuar? Essa luta sem fim, esse desgastes, estes reveses todos, como disse meu priminho de três anos, com uma sabedoria extrema: “É, a vida é assim.”. Sábias palavras pra um ser tão jovem, e eu que tenho 21 anos a mais que ele não consegui ainda entender ou me conformar.

    Naquela linda canção Dom de Iludir, Caetano diz que “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”, por enquanto eu sei bastante as dores, a delícia não tem compensado muito nessa balança, mas vamos ver o que vem por aí, só sei de uma coisa, espero que quando eu renascer, tenha dado tempo pra que na incubadora hehe eu tenha me tornado mais resiliente, e portante mais forte e feliz em mim mesmo.

  2. Neto disse:

    Pegar ônibus para ir aos meus compromissos, ir ao cinema e não comprar o balde de pipoca, comprar boas (e baratas) roupas em lojas de departamento, roupas escuras para prolongar o seu tempo de uso, e deixar de lado, sem dó, alguns amigos que viraram meros colegas que há muito só servem para fazer sociais. Essa está sendo a minha forma de desapego.

  3. “Somos Fênix na Vida”, MVG, e, no fim, o que nos resta são somente as cinzas de quem já fomos um dia/cinzas da nossa história.
    O resto da minha opinião sobre Ser Fênix imagino que você já saiba, hehe.

    Desistir não é uma opção por mais que essa ideia possa vagar por nós durante o luto, e espero realmente que você tenha noção disso, senão eu mesmo apareço por aí para dar um puxãozinho de orelha :v

    Abraços do CR!!

  4. ALAG disse:

    Estou vivendo um momento, em que meus sentimentos, pensamentos e valores, estão em total conflito e este texto e um outro que li ontem, me fazem refletir algumas coisas. Em nossa jornada temos várias fases, umas boas, outras nem tão boas assim e algumas que nos derrubam com uma força esmagadora, temos pessoas que chegam, umas permanecem, outras se vão para nunca mais voltar, ou até algumas que se vão e em um determinado momento, acabamos nos reencontrando…
    Eu venho de uma independencia (digo solteirisse) total há quatro anos, sendo que um ano e meio foram de luto, nesse tempo conheci “N” pessoas, me fortaleci e também, me reencontrei, ou seja, renasci das cinzas e até uma tatuagem sobre a fenix eu fiz rsrs devido a simbologia da mesma.
    Tantas pessoas passaram pela minha vida nesse tempo, conheci diversos rapazes, mas o meu foco, era eu me descobri de fato quem eu era, criar novos objetivos profissionais e seguir sempre crescendo. Como meu foco não era relacionamento, deixei passar várias pessoas nesse ciclo, algumas hoje nem falam mais comigo, apareceu até um rapaz que me envolvi durante uns dois meses, que chegou até á me propor casamento, confesso que me assustei profundamente e me afastei, mas enfim, hoje a minha realidade é outra. Estou bem profissionalmente, sou independente, tenho os melhores amigos da vida, faço tudo o que quero dentro das minhas condições, enfim, teóricamente estou super bem sózinho e isso sempre me fortaleceu e manteve-me altivo.
    No entanto, porém, todavia, rsrs, no ano passado em um dos melhores carnavais da minha em SSA, já era o meu terceiro ano de SSA, conheci um rapaz por incrivel que pareça não foi em bloco e nem camarote, e sim por um app (scruff) e começamos a nos falar, porém, por ironia do destino não nos encontramos nesse carnaval, porém, mantivemos contato, sem sentimentos e nada, afinal nem o conhecia. Foram meses, ele sempre puxando assunto e tal, até que em Novembro do ano passado o lance começou a ficar mais forte, e o chamei para vir em casa, afinal nossas cidades por mais uma irônia do destino são próximas (meio louco talvez vc nunca ter visto á pessoa, só mantido contato virtual e o chamar a primeira vez de cara para a sua casa neh? enfim fiz isso), quando o encontrei de fato pela primeira vez e nos olhamos, não vou mentir, meu corpo todo estremeceu e de cara me apaixonei (mantive isso em segredo por um curto tempo rs afinal sou um cara intenso), foi magnifico nosso encontro, e de imediato a reciprocidade, neste mesmo dia havia um churrasco na casa de um amigo e acabei levando ele e o apresentando para a maioria dos meus melhores amigos e foi muito bacana.
    Resumindo um pouco, até mesmo para voltar no tema rs, esse ano fomos juntos para SSA, não assumimos nenhum relacionamento oficialmente, porém, ambos sabiam que estavam juntos e o intuito era curtir o carnaval juntos. Ocorreu que tivemos uns probleminhas em um determinado dia, onde ele ficou com outro cara na minha frente… desde então, meu carnaval acabou ali. Antes de ir pra SSA até na minha terapia, havia comentado que caso algo do tipo ocorresse eu ja deixaria essa história para atrás sem me importar, porém, as coisas não ocorreram como minha razão quis, meus “valores” jamais me permitiriam ainda continuar com uma pessoa que tivesse feito isso comigo, e mesmo depois do ocorrido, continuei com ele. No domingo de carnaval, ocorreu outra situação não a mesma, porém, que também, me chateou profundamente, e teóricamente então, por mim encerrei essa história, masssssssss, que disse que parou? Não, eu já havia deixado de usar a razão e só ouvia o bendito do coração, e então após o fim do carnaval, ainda fizemos uma outra viagem juntos, porém, só nós e resolvi que nessa viagem eu não falaria á respeito dos ocorridos, e que somente eu iria buscar mostrar de fato á ele o quanto de fato sou apaixonado por ele (mesmo, já tendo demonstrado de diversas formas com palavras e atitudes), foi boa essa viagem digamos que á dois? Sim, foi em partes, pois, algumas coisas me incomodavam e os ocorridos não saiam da minha cabeça.
    Depois dessa viagem, não nos vimos mais pessoalmente, apenas nos falamos diariamente, e desde então parece que tenho uma faca fincada em meu peito, existe uma certa reciprocidade? Até existe da parte dele, mas não como antes… Eu que me achava já tão forte e experiente, não sei como agir, e jamais me imaginei em uma situação dessas, minha paixão é forte, porém, hoje estou tentando com minhas forças que restam e o apoio que tenho dos meus amigos, usar a razão e tentar esquece-lo, mas no fundo e lá no fundo, algo diz ainda para eu tentar, e assim, sigo fazendo minha fabrica de tsurus (papel de trouxa rsrsrs), pois, ainda não consigo e no fundo tenho uma esperança, para não me desvinciliar dele, o que sinto já é uma incógnita, um misto, um turbilhão e furacão de sentimentos, pensamentos, valores, enfim…
    Pra mim de alguma forma, isso já pode ser indicios de um luto, e sei, que somente eu posso mudar, não o final dessa história, mas a forma como eu reagirei ao que possa vir a acontecer, enfim, mais uma experiência para minha coleção e seja o que o que o universo me retornar…
    “Vamos celebrar a estupidez humana”

    Me alonguei, mas acho que precisava ao menos também nesse dia, já que não queria falar, escrever, pois, exatamente hoje está sendo um dia daqueles…..

    Abçs – ALAG

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