Exercício de abstração


Gays, héteros e além disso

Taí um dos temas mais clicados no Blog MVG: o gay enrustido. As pessoas usam esse termo, no geral, para caracterizar o gay que ainda vive no armário e não compartilhou, até então, a realidade de seu desejo sexual e afetivo por outro homem. Há quem prefira usar o termo “gay incubado”. Mas essa palavra “incubado” me parece pouco sonora e caracteriza algo que vai desincubar. Na realidade, há gays que viverão a vida toda no armário, mesmo considerando que a sociedade hoje é muito mais tolerante. As vezes, por dentro, as travas psicológicas são tão profundas e/ou rígidas que a ideia de “homossexualizar” a vida é improvável. O medo do desconhecido e do enfrentamento perante os pilares de valor é mais forte do que a própria vontade.

O ponto de vista do post de hoje, diferente do que já escrevi sobre o tema, é de que nem todos homens que tem desejos por outros homens são necessariamente gays. Podem ser bissexuais ou simplesmente ter desejos ou fantasias de transar com outros homens, mas não concretizam a ideia de construção afetiva ou emocionalmente mais abrangente com outro do mesmo sexo.

O fato é que a psicologia humana e a sexualidade é muito mais vasta e complexa do que o nosso (igualmente humano) desejo de definição. Definição é uma maneira de nos confortar. Não sou profissional da área, mas as minhas experiências no Blog MVG – por intermédio dos relatos de diversas pessoas que se estimularam a mandar e-mail – e na vida real, fora dessa tela, me levam a crer que a realidade de haver sexo entre dois homens não define o gay. Por consequência, nem todo homem que gosta de transar com outro homem mas não se assume é um gay enrustido.

Por questões de bloqueios psicológicos ou não, os HSH, homens que fazem sexo com homens, são uma realidade estatística que, embora por um lado provoque certa intolerância da comunidade LGBT, que alega que tais figuras contrariam toda luta gay para se ter o respeito e o “lugar ao Sol” na sociedade, por outro sentem que jamais construirão uma vida abrangente com outro homem.

Eu sei que sou gay e o que confere essa minha certeza? Aos 23 anos, quando resolvi sair do meu armário, desejava construir histórias com outro menino para além da atração sexual. Idealizava companheirismo, parceria, amizade, afeto, trocas, crescimento mútuo, carinho e, tudo que eu tinha de referência do amigo heterossexual com meninas, eu desejava o mesmo, só que com meninos. O HSH, no geral, não concebe tais realizações com outro parceiro. É basicamente sexo.

Daí, quem é gay (enrustido ou não) se pergunta: mas é possível ser assim ou isso é um bloqueio? Se a gente parar para pensar, se desapegar de todo histórico ativista do gay perante a sociedade, das lutas, traumas e brigas para as nossas conquistas, e entender que a psique humana não se resume a aquilo que nos é conveniente (e certo), conseguimos abstrair e entender que há homens que não desejam construir nada com outros homens. Apenas ter um tipo de camaradagem e a transa.

O que eu quero dizer com tudo isso é que, quando o assunto é sexualidade, não há como dividir as pessoas em heterossexuais, bissexuais ou gays e ponto final. Por mais que nós – ainda no contexto histórico atual – precisemos acreditar assim devido a todo cenário de luta pelo respeito e igualdade.

Costumo dizer que a emancipação do gay por uma normalidade social tem encorajado outras pessoas, que entendem seus desejos diferentes de nós, gays, a se manifestarem. Lembram do g0y que, em 2014, virou assunto recorrente? Pois bem.

Para uma esmagadora maioria de gays, os g0ys são motivos de deboche. Sem credibilidade. Para mim, os g0ys, são simplesmente diferentes de gays, que são diferentes dos heterossexuais e que, num cenário mais evoluído, um não julgaria o outro. O nosso impulso, quase que inconstestável de condenar os HSH, g0ys ou até mesmo bissexuais, tem forte e total influência do contexto heteronormativo. Das regras e dos jogos os quais aprendemos. Tenho a crença de que, em uma realidade na qual heterossexuais e gays compartilhassem do mesmo espaço igualmente, g0ys viriam para clamar esse mesmo espaço, estimulando a ideia de que não existe apenas uma ou duas condutas máximas para a sexualidade.

Sei que tais pensamentos, que desapegam e abstraem, que provocam e até incomodam, geram uma insegurança para muita gente (os gays, no caso). Gays querem autoafirmar um tipo de “oposto simétrico” ao heterossexual enquanto os HSH “infringem” certezas de que é improvável gostar de transar com homens e, ao mesmo tempo, construir uma vida amorosa e sexual com uma mulher. Mexe com valores morais, sobre traição VS. fidelidade. Mexe, inclusive, com princípios cristãos da monogamia. Mexe, acima de tudo, com a imagem de “boa reputação” a zelar dos gays, que tem se afastado da ideia marcada da promiscuidade e que tem construído uma sociedade mais inclusiva.

Mas será mesmo improvável?

2 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Em termos de sexualidade tudo é possível, não há regras e muito menos nomenclaturas q possam dar conta de toda a diversidade das relações afetivas e sexuais humanas, amor e sexo não se explicam, se faz, se vive. Sejamos felizes, não temos tempo a perder. Ainda quero amar e transar muito nessa vida, é uma das poucas coisas boas que ainda podemos fazer.

  2. Erlon disse:

    Olá. Para reafirmar minha admiração por este blog, bem como seu conteúdo. Incrível como é, de fato, material para consulta. Uma melhor clareza sobre tudo o que passamos. Que continue desta forma, abraço!

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