Aceite, isso é a diversidade


Ser gay é um objeto com pontos de vista bem diferentes

Gays podem optar pelo modelo mais heteronormativo possível? Claro que sim. Muitos, aliás, buscam tal representação (principalmente) devido ao desejo de inclusão, a vontade de se sentirem “normais”, aceitos e correspondendo a um grupo de padrões comportamentais culturalmente instituído. Nessa cultura, há pitadas do Cristianismo, coisa que a gente respira e segue sem dar conta por estar tão dissolvido e entranhado em nossa educação. Há valores de moral filosófica também, instituídos de longa data, pelos ancestrais dos ancestrais gregos e romanos. Somos um povo, inegavelmente, de identidade vigente latina.

Em outras palavras, existem muitos adeptos gays ao modelo. E está tudo bem assim.

Mas algo que me dei conta nas andanças pela vida, em experiências pessoais, vivências de amigos, em relatos e mais relatos vindos por meio do MVG e, inclusive, tratado em minha terapia, é que “ser gay” carrega uma dádiva: não temos a obrigação, nem responsabilidade, nem a necessidade de vincular apego/segurança nos padrões comportamentais e socialmente esperados. O que é fato é que existem aqueles gays que pouco se identificam com o “jeito hétero de ser”. Enquanto tantos acumulam ansiedades e expectativas para fazer ao máximo semelhante, outros não se preocupam com isso. Inventam.

Ser gay é um objeto com pontos de vista bem diferentes e vou apresentar alguns deles que já pintaram no Blog Minha Vida Gay:

1 – Por aqui, vieram dezenas de enrustidos apavorados e amedrontados por temerem o próprio olhar sobre a homossexualidade: da vida superficial, presa a estética, que não cria vínculos, promíscua e que não se constrói o senso mais “quadradinho” de vida e o prolongamento da mesma. Esse gay, por exemplo, sofre porque não consegue conceber o ideal de vida com o fato de ser homossexual. “Se a vida gay só oferece a banalidade, talvez seja melhor eu viver minha vida enrustida, fingindo que sou hétero”. O conflito desse gay está entre o que é ser gay VS. o sentido de família;

2 – Surgem também, compulsivamente, jovens gays adolescentes ou pré-adolescentes ou até mais crescidos, que idealizam o romance perfeito. Esses, já estão imersos em sua própria realidade e entenderam que ser gay – quanto a sentimentos e expectativas – é idêntico ao heterossexual. Só difere em um aspecto, algo que eu considero homonormativo ou, uma regra comum a muitos gays: vira e mexe se encantam por amigos heterossexuais e vivem um padrão comportamental platônico e semelhante: buscam identificar sinais, movimentos, discursos e gestos que formem indícios concretos para que o amigo desejado seja igualmente gay;

3 – Pintam os gays que criam seus próprios modelos comportamentais. Ressignificam ou confrontam a ideia de promiscuidade, vão à saunas, experimentam um garoto de programa, namoram em um modelo monogâmico, utilizam aplicativos, abrem a relação, tentam um relacionamento a três e não se fixam aos padrões esperados pela sociedade. O centro de sua segurança não está no padrão, mas sim, na diversificação. Normalmente, foi e é desse caldo de misturas, experiências e tentativas que surgiam/surgem os principais interlocutores que – arduamente – construíram/constroem o sentido de enfrentamento social, aqueles que garantiram e tem garantido “um lugar ao Sol” à própria comunidade. E a ideia aqui não é conferir confetes para esse grupo, mas seguir pelo pensamento lógico: quem segue as regras não enfrenta e é invisível em meio ao oceano da normalidade;

4 – Acontecem também aqueles gays que não sabem se são realmente gays. E talvez nem sejam mesmo. HSH, bissexuais, g0ys são realidades estatísticas. Estudos para psicólogos, sociólogos e sexólogos e, muitas vezes, objetos de aversão ao “gay ativista” que desqualifica qualquer variante que possa ofuscar sua identidade. Para esse ponto de vista e por experiência própria, sei que existem meninos ou homens que tem desejos e envolvimento afetivo pelo outro do mesmo sexo, mas seus hábitos culturais e valores são tão heteronormativos que não conseguem criar uma conexão entre os desejos sexuais com seus hábitos cotidianos. Isso é normal, é recorrente e só deixa de fazer sentido se o próprio indivíduo sofre ou tem transtornos com isso.

Tenho compreendido cada vez mais a diferença que existe entre ser homossexual e realizar desejos homossexuais. A mim, parecem assuntos distintos pois a sexualidade, em si, é bastante plural.

Fica a compilação no post de hoje, para leitores antigos ou para os novos que estão nessa busca para se entenderem melhor. Ser gay é isso e pode ser muito mais. A questão é saber se você, atualmente e no final, está em paz do jeito que está.

5 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Eu acredito piamente que é possível passear por todos esses modelos, ou “categorias” que foram colocadas ou propostas aí. Mas isso varia muito, tem gente que se acomoda em um modelo ou outro e não sai de jeito nenhum, sendo que claramente alguns estão ligados à fase de aceitação de uma provável identidade “gay”, e outros já são posteriores a este processo.

    Por experiência própria, acho que alguns indivíduos do tipo 4 poderiam se enquadrar tranquilamente naquilo que se refere convencionalmente como “gay”. O problema é que muitos deles são tão preconceituosos, que a única forma de vivenciar a experiência é dessa maneira. Eles tem medo de serem “gays” sabe, eu me lembro de um relato que eu li, o cara se dizia bissexual, e era casado, ele tinha a esposa dele, mas nunca traia ela com outras mulheres, somente com homens, ele dizia que era uma espécie de vício. Os encontros sexuais com esses homens eram geralmente frios, ele só procurava se satisfazer sexualmente, evitava até se aproximar mais do corpo do outro cara que era pra não parecer “viado”. E aí quando outros “bissexuais” o procuravam dizendo estar com “saudade”, ele não respondia, bloqueava o cara e nunca mais pegava esse cara de novo.

    Quer dizer, ele se identifica como bissexual, é isso que ele diz, e não podemos contestar porque essa é prerrogativa exclusiva que ele tem, mas de uma forma geral esse é um padrão estranho que se repete em muitos casos de caras se identificam como bissexuais. Não estou querendo generalizar, nem nada, mas é estranho esse tipo de comportamento, mas presumível, visto toda a condenação que os caras tem da homossexualidade, do homoerotismo, enfim de tudo que é homo alguma coisa.

    Os g0ys são semelhantes um pouco a esse caso do bissexual, eles topam tudo com o amigo, “brother”, menos um relacionamento afetivo normativo e sexo anal. E os HSH são a classificação mais “saco de gato” que existe de todas as vertentes da sexualidade humana, tem de tudo nessa categoria que se possa imaginar, de coisas simples, a situações bem complexas.

    E ainda tem o “bromance” que sai da esfera sexual, e vai para a esfera homoafetiva, em alguns casos no “Bromance”, existe a masturbação mútua, enfim esse tipo de coisa, e até a onda do momento entre os boys “hétero” que é o “brojob”, o sexo oral praticado por “brothers”.

    Beleza nada contra a flexibilidade do comportamento heterossexual, mas eu francamente acho muito hipócrita falar disso como uma simples flexibilidade comportamental, nitidamente uma parcela considerável dos indivíduos do sexo masculino sentem sim uma grande “pulsão” sexual direcionada para o mesmo sexo. Isso é fato. O problema é que a “maldita” sociedade passou toda a sua história condenando esse tipo de relacionamento, seja de qual natureza for, afetivo ou sexual. E o resultado é esse aí, é isso tudo e muito mais que isso, quer dizer, esse é o resultado desse processo, foi a forma como a sociedade interpretou a sexualidade humana que originou isso tudo.

    Sei lá, não consigo me conter diante desse tipo de coisa, peço desculpas.

  2. lebeadle disse:

    Realmente, acredito que com o passar dos tempos vamos melhorando mais a nossa percepção do mundo e nos ocupando com o que importa realmente, depurando nossos temores e adquirindo alguma segurança e percebendo que
    a norma ou o ideal podem ser quebrados ou adequados a nós próprios.

    Essa dádiva que o MVG destaca é de maior importância e penso que acontece com todos em alguma fase da vida, mas com os gays acontece mais cedo por força das circunstâncias.

    No mais é isso, tentar desse trágico descobrimento tirar algo de bom e construir uma vida melhor, um dia de cada vez.

    Abraços.

  3. Igor disse:

    MVG, não sei se você viu um e-mail que te mandei há um tempo, mas algumas das questões que te fiz lá estão muito bem discutidas nos três últimos textos postados no blog! Você sempre muito lúcido e revigorante, parabéns! De qualquer forma, queria só que você me respondesse o e-mail só pra saber se leu mesmo ou não…

  4. Rômulo disse:

    Olá, boa tarde à todos!
    Gostei do artigo e acredito, sim, que ele separa bem os “tipos” de vida que nós (da comunidade LGBT) vivenciou, vivencia e muitos estão iniciando. Eu sou assumido desde os 15 anos e para mim, de lá para cá, foi tudo uma loucura. Hoje com 26 estou muito melhor comigo mesmo do que há cinco anos. Vi, presenciei e vivenciei experiências que uma pessoa na casa dos 40 nem senhoria em passar. Adquiri maturidade muito cedo e experimentei quase todo o tipo de relações, boa parte delas descritas acima. Todos passam pela fase do “preciso ter certeza se é isso mesmo (sou gay?)” e devido as circunstâncias e a inexperiência muito de nós, como eu, acaba começando nessa vida pelo jeito mais difícil. O que torna a coisa confusa e intimidadora. Causando aí essa linha de “variáveis sexuais”. Não existente somente em nossa comunidade, que isso fique claro. O que tem que ser observado é a questão do seu eu interior – pelo menos, tentar – : O que você busca? O que você quer entender? Aonde quer chegar? Porque quis “experimentar”? Se você consegue a resposta para essas perguntas, está com meio caminho andado. A experiência é o que conta. É com ela que você passar a olhar as coisas de forma diferente e é com ela que você vai “enxergar-se” melhor. É claro que, ter discernimento nessas horas é de vital importância, mesmo sendo um adolescente inexperiente ou um adulto “desencontrado”. Não estou dizendo para sair por aí fazendo de tudo (comigo foi meio que inesperado: fui, tipo, “jogado” em um lugar onde a vida era totalmente desregrada e eu muito novo e no ápice da curiosidade me vi num mundo de maravilhas – descobrindo mais tarde que esse mundo em nada tem de maravilhoso), digo que a pessoa não precisa temer em buscar a verdade sobre si mesma. Assim eu aprendi e hoje sei muito bem quem sou, o que quero e sou feliz com isso. Agradeço sempre por minha família ter lidado muito bem com isso e continuamos sendo o que sempre fomos: um família. E ainda há muito que fazer. Separe as coisas: vida íntima pessoal, família/ amigos e seus objetivos para com o futuro. Separe também as possíveis consequências vindouras de uma possível “saída do armário”. Levando em conta nossa cultura e política social atual. Tente ver todos os lados e como fica você no meio de tudo isso. Uma coisa de cada vez, um dia de cada vez. Principalmente aqueles que, como nós brasileiros, ainda vivemos numa sociedade que tenta arduamente manter os costumes do passado. Não pensemos apenas em toda aquela dramatização e vida sofrida à qual sempre fomos taxados. É muito mais que isso. Afinal todos somos de carne e osso, passamos pelas mesmas dificuldades, sentimentos, emoções, perdas e tudo o mais que a vida nos oferece de bom e ruim. A diversidade existe e sempre existirá seja no mundo gay, no mundo hétero, em qualquer estilo de vida. E isso não é ruim.

    P.S: Fujam da promiscuidade. Ter uma vida sexual saudável não é adotar certas ações que acontecem em bares, boates e nas mal interpretadas “paradas gays”. Novamente, separem as coisas.

    Valeu galera! Adoro o site de vocês :D

  5. André disse:

    Nossa não tinha conhecimento de todas essas variantes. Eu, particularmente, não me preocupo muito na adequação a essas classificações. Mas tem aqueles que insistem em criar tais padrões. Bom, só me resta respeitar.

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