Mês de aniversário. Um gay que completará 39 anos.


Os 39 anos de um gay. Crise da meia idade?

Depois de um longo e feliz “frio de verão” em São Paulo, com direito a muita chuva (o que está acontecendo hoje), volto a escrever no Blog MVG. Desde 2011, quando o iniciei, talvez tenha sido o período mais longo sem passar por aqui. Acontece que eu descobri um aplicativo danado chamado Smule. Na verdade é uma rede social mundial, que conecta pessoas de todas as partes e que tenham interesse em cantar. São mais de 150 mil harmonias de músicas conhecidas e bem fiéis, sem as vozes dos cantores para fazer um tipo de karaokê. Só que é melhor do que isso, com uma qualidade foda e tem até um “tipo Ídolos” no oriente que faz a seleção dos candidatos pelo aplicativo.

Piano e canto sempre foram terapias para mim. Assim como escrever. Assim como cozinhar, desenhar ou fazer academia. O Smule veio com tudo para suprir minha inspiração e, dessa forma, deixei o Minha Vida Gay quietinho por “motivos transcendentais”. Terapia substituindo terapia. É uma rede para quem gosta de cantar ou se atreve a isso.

Diferente de viajar para fora, para a Europa por exemplo, e haver mais resistência em ter algum contato descontraído com um gringo local, o Smule quebra essas barreiras. Basta cantar minimamente bem (ou nada bem – rs) e chamar participantes do mundo todo para colaborar num dueto. Taí o papel social que a música tem há anos. Tal aplicativo é simplesmente genial. “A música elimina fronteiras” – e essa poderia ser uma boa assinatura para o aplicativo. Cantei “Cha-la Head Cha-la “com uma chilena (ela cantando em espanhol e eu em japonês) e cantei a mesma com um japa-do-Japão. Divertidíssimo.

Descobri que naquelas micro ilhas lá no canto direito do nosso mapa, entre a China, Japão e Austrália e que não é moda turística pra gente, tem um monte de asiática no páreo de qualquer Whitney Houston. E, assim, a gente vai descobrindo mais das pessoas e da diversidade desse mundo de um jeito muito, muito diferenciado. Triste só ver que, no Brasil, o gosto musical está abaixo do volume morto e, como não temos incentivo musical nenhum nas escolas, o povo canta pessimamente. Fora o desleixo nas gravações. Agulha no palheiro achar alguém que sabe fazer ou capricha.

Nesse tempo de ausência, vi que (simplesmente) bombou de comentários o post “Japoneses gays”. Será a influência dos astros? (rs). Fiquei modestamente feliz por isso.

Muito em breve o novo ano astral está aí, regido pelo Sol (Leão). Com essa nova energia de abertura, logo de cara chega meu aniversário. 39 anos. Não estou sentindo nada do meu inferno astral, pelo contrário. Estou receptivo a qualquer bucha. Estou disposto, aberto e pronto para o que der e vier. E se dependesse de mim, empurrava logo o país para o fundo do poço (que dizem que ainda não alcançamos e me parece que sim) para poder ter firmeza nos pés para um impulso. Enquanto estamos nessa queda livre, só ficamos nas especulações ou nos desviamos de tais temas para não baixar o astral. Esse banho-maria das faltas de conclusões só retarda uma retomada. Mas não deixam de ser males necessários para um desenvolvimento de nossa própria civilidade.

Autoafirmações e reflexões sobre política a parte, meus 39 anos vem chegando com um teor de… nada. Sem grandes expectativas. Todos os campos da minha vida estão relativamente endireitados, pelo menos no que cabe a mim. Minha empresa tem retomado seu fôlego e ao mesmo tempo que, após demissões, assumi essas barras sem mais ficar de mi-mi-mi, estou contente como o rumo que resolvi colocar o “barquinho”. Meu relacionamento com o Rafa está no lugar, na medida do que temos combinado, em comum acordo. Na minha família, tudo vai bem e – de maneira rara, que vem de tempos em tempos – meu pai está bem humorado (rs). Meu dog está lindo e saudável e “alegria” é a principal característica que transpira dele todos os dias. Eu estou bem.

Chegar aos 39 anos, é entender que toda mudança interna que acontece quando chega essa idade, é uma realidade para qualquer homem, inclusive heterossexuais. Um dos pontos é esse: eu sou homem e não mais menino e, apesar da gente dizer que “os 40 anos hoje são os novos 30”, pelas possibilidades voltadas à saúde e diversidade de condições para nos manter jovens, a mentalidade muda muito. Pelo menos a minha. Posso afirmar que, no meu caso, me senti menino (meio adolescente, meio de 20 e poucos anos) até meus 33. Depois disso, a maneira de sentir e enxergar o mundo mudou bastante.

Entendo que as responsabilidades (ou a falta de) que assumimos em vida, no meu caso levar uma empresa desde meus 23 anos e ter vivido um punhado de relacionamentos duradouros com outros parceiros (incluindo um casamento), influenciarão diretamente em que nos tornaremos próximo aos 40 anos. Os propósitos e objetivos, vão também colaborar com essas definições.

Até os 30 e poucos anos, costumamos ser um punhado de argila mais macia, maleável e sujeita a diversas transformações de acordo com as vivências e anseios. Sujeita a partir também e sofrer para juntar de novo. São fases em que, num mundo diverso, amplo e cheio de possibilidades, estamos formando nosso ponto de vista de tudo. Aprendemos sobre apego e desapego, sobre perdas e ganhos, sobre a diferença que há entre expectativas e realidade. Todas essas experiências vem as vezes para moldar a argila e, as vezes, para dar uma bela de uma porrada, mexendo em partes de nós mesmos que a gente não gostaria de mexer. Mas a vida, essa danada, nem sempre nos dá escolha.

É certo que nós, como argila, podemos tentar ficar o mais estagnado possível. Assim, seremos praticamente os mesmos com 20 e poucos anos e com os 40. As personalidades são as mais diversas nesse mundo e, enquanto para alguns (e eu diria a maioria) o eixo de segurança está na rotina, para outros está na mudança. Quem lê o MVG deve saber onde está o meu eixo.

De qualquer forma, arrisco a dizer que – para uma maioria – a adolescência hoje se prolonga. Conseguimos ser “jovens” e perpetuar aquela sensação de disposição e de encanto pelas novidades do mundo para além dos 30. Mas, curiosamente, existe uma força maior que nós mesmos que, as vezes, antecipa os 40. Posso dizer que entrei nos 40 com meus 37. Isso não quer dizer que o mundo não nos encante mais. Mas ameniza dentro da gente (ou pelo menos de mim) aquela sensação de que se está perdendo tempo de coisas que nem se sabe dizer o que é.

Aos 39 anos, potenciais tornam-se realidade. Pelo menos parte deles. E, se bem resolvidos, abrimos mão daqueles sonhos de juventude que não se realizaram, ou porque eram uma grande viagem ou porque simplesmente não aconteceram.

Temos mais controle das nossas emoções e impulsos. Personalidades não mudam, valores sim. Da parte de personalidade, nossos excessos emocionais, seja de drama, explosão, ansiedade ou qualquer outra característica mais exagerada e particular, é mais controlada. Controlada por nós mesmos. A gente já aprendeu, nessa etapa da vida, que os nossos excessos costumam a trazer mais prejuízos do que ganhos. A bem da verdade é que nossos impulsos nos cegam enquanto a gente não resolve as inseguranças por trás deles.

Da parte de valores, a mim, me parece que resignifica-los é algo que se prolonga para a vida toda. Mas, como disse, quem tem o eixo de segurança na rotina, costuma a ser mais apegado aos valores. Então não há regra.

O que há, aos 39 anos, é uma tendência a estar de bem consigo. Vivemos a autoaceitação e, à medida que aprendemos a lidar consigo, aprendemos a viver em solitude.

E por fim, mas não menos importante, ser gay deixa de ser uma questão. Já se provou do sexo com outro do mesmo sexo algumas vezes. Já se descobriu um pouco da homonormatividade, das baladas, dos hábitos, das gírias e de tudo que se encontra nos estereótipos. Pegamos pra gente (ou não), aquilo que nos é de interesse. Não existe mais aquela necessidade autoafirmativa para o mundo ou para quem a gente gostaria que soubesse. As pessoas certas já sabem e, se não aceitam, no mínimo se colocam conformadas. Já não há mais conflito ou dúvida sobre o que é ser gay, ou como construiremos essa identidade. Ativos, passivos, tamanho de pau, sexo anal, construção ou não de família, casamento, amizades, relação familiar e relação com heterossexuais ou com outros gays. Todos esses valores ou pessoas estão onde entendemos que deveriam estar.

Aos 39 anos, a gente entendeu onde estão as nossas prioridades. Antes disso, parece que tudo urge como tal. Serenidade, embora para um ariano com ascendente em áries pareça uma contradição, é o que há.

 

 

 

 

 

 

3 comentários Adicione o seu

  1. obsr disse:

    Falando em japinha, fiquei com um e adorei. E olha que eu sempre disse nunca gostar de orientais. Haha. Adorei a postagem. Estava sentindo falta já.

    1. minhavidagay disse:

      Valeu obsr! Aproveite todas as etnias rs

  2. San Bonassa disse:

    OPA !!! Finalmente voltou !!!

    Já estava me perguntando , por onde andava o Japa????

    Estou chegando nos 38 , rs ,

    Apesar de renascido em 2011 , assumir 2012 , fazer loucuras e acertos ….. este 2016 tudo encontra-se diferente …. família …relacionamento…..emprego …..trabalho …..até mesmo diversão mudou .

    enfim cada um atinge maturidade de alguma forma.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s