Um segundo patamar


Divergências entre gays

Daí que no sábado me encontrei com o amigo “Ding”, citado no Blog Minha Vida Gay algumas vezes. Sabia, desde antes das eleições, que o amigo (que é também gay) tinha um perfil ideológico de esquerda extrema. E eu, me colocando desde sempre com um ideal de esquerda moderada, achei que não fôssemos tratar de política, num cenário atual de tanta ebulição. Ding é “contra o golpe” e eu estou prestes a aderir ao impedimento. Enfim, exemplos “opositores” dividindo o mesmo brinde.

Meu amigo no segundo semestre do ano passado fez acordo com a instituição de ensino onde trabalhava. Tirou uma grana e partiu para a Europa com o objetivo de aprender inglês. Apesar de ser mais velho, muito próximo dos 50 anos, ainda não tinha o domínio básico da língua. Quando voltou, já estávamos vivendo a crise no país e o resultado é que continua desempregado até agora. Não tinha imóvel próprio e, não aguentando o aluguel, foi morar recentemente na casa de um amigo em comum. Nos encontramos, abrimos algumas cervejas, fumamos “unzinho” e, em determinado momento do encontro, ele chegou assim:

– Flavitcho, não queria falar de política com você. Tenho lido seus posts no Facebook e só queria te dizer uma coisinha… – a “coisinha” acabou virando o assunto principal do encontro! (rs).

Ele, como extrema esquerda e muito consciente das burrices (palavra dele mesmo) do atual governo, defende fortemente o não golpe. Ficaram nítidas as dezenas de intersecções e concordâncias em nossos posicionamentos, mas também, bastante claro as divergências.

Creio que não caiba narrar aqui as entrelinhas da nossa conversa, que foi totalmente amistosa, mas a moral da história: aos (realmente) interessados e informados sobre o contexto atual do Brasil, são pouquíssimas as pessoas que conseguem tratar do assunto com inteligência e maturidade.

  • A gente acha que está desenvolvendo um pensamento político quando compartilha o assunto com outros de mesma ideologia. Isso é uma ideia falsa. No contexto atual, falar de política com pessoas que partidarizam das mesmas ideias é mais um exercício de autoafirmação (de querer se assegurar do próprio pensamento) do que um desenvolvimento intelectual. O enriquecimento sobre o tema se dá na hora em que você se desarma e coloca-se aberto para entender a linha de raciocínio e sentidos daqueles que – na atual circunstância e na maioria das vezes – nos parecem uma ameaça. Ameaçados, partimos rapidamente para o julgamento pessoal e não saímos do prefácio do assunto;
  • A gente acha que manter as ideias na mente e não participar de debates estamos exercendo política. Bem parcialmente, na verdade. O silêncio nada mais é do que a rigidez e a manifestação do endurecimento para ouvir as opiniões contrárias ou divergentes. Ou, numa hipótese também provável, o silêncio é a manifestação da falta de conteúdo sobre o assunto: “não vou entrar em discussões sobre aquilo que não domino”. O que é ruim pois, como qualquer coisa na vida, a gente aprende errando e cometendo alguns deslizes. Eu mesmo, as vezes escrevo ainda STJ pensando em STF. Acontece.

O fato é que é a primeira vez que as pessoas se demonstram mais interessadas. E estamos alertas para ver quando vem uma lenha nova na fogueira para, rapidamente, nos tornarmos transmissores compulsivos de imagens no Facebook que traduzem parcialmente nossas ideias.

Para muita gente política era algo chato. E é a primeira vez (de novo) que essa “chatice” nunca foi fonte de tanta curiosidade, para se definir rapidamente, de novo, opiniões por meio de imagens feitas por terceiros. Que a gente pratique disso, cada vez mais, e nos tornemos hábeis para expressar pontos de vista políticos com naturalidade, sem levar para o pessoal. O raciocínio é claro: se temos um posicionamento definido e embasado em informações e conceitos, não precisamos ficar mudos ou tampouco briguentos, com medo do outro “te arrancar daquele lugar frágil embora seguro”. A natureza do pensamento construído se sobressai.

Certa vez, numa das explosões do Rafa comigo, ele veio brigar pela maneira que eu entendia o g0y. Para ele, assim como para uma maioria crítica numa osmose midiática, o g0y era uma aberração, um tipo de afronta para a conservação da “classe gay”. Segundo o Rafa, eles deturpavam e corrompiam nossa imagem, duramente conquistada, atribuindo elementos de safadeza e promiscuidade ao gay. Em linhas gerais era esse o pensamento. Ideias que se difundiram maciçamente quando o tema veio à tona. Ele achava um absurdo um gay (no caso eu) pensar diferente daquilo e, dentre as vezes que ameaçou terminar comigo, essa tinha sido uma delas (rs).

Concluí meu pensamento dizendo assim: “eu não quero imaginar a possibilidade de eu ser um gay – para esse fragmento real e estatístico – assim como os heterossexuais são para os gays ainda. E outra: me coloque para conviver com 10 g0ys todos os dias. Eu não vou deixar de ser gay. Ou será que, no caso, é possível eu me tornar um g0y? Você corre o risco de se tornar heterossexual convivendo com os mesmos? O que você precisa conservar tanto para entender o g0y como essa ameaça? Você já viu algum g0y atacando um gay, por acaso?”.

Vamos elevar o patamar, meus queridos. Nivelar por cima as discussões, num país do “pelo menos”, pode ser um bom começo. E a melhor maneira de trocar tanta emoção na política, tanto julgamento e fobia é devorando conteúdo e definindo um posicionamento para as coisas, coisas de política e coisas da vida. Cientes também de que posicionamentos não precisam ser rígidos e imutáveis para todo sempre.

 

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