A vida de solteiro


Um gay solteiro se manifesta

A solteirice foi uma parceira que pouco me acompanhou nesses anos fora do armário. Passei a maior parte do meu tempo de gay assumido no formato de par e arrisco a dizer que essa fase de desprendimento, solteiro, tem me chamado faz bastante tempo. O Rafa aconteceu, foi bem legal e bastante diferente o tempo que durou. No começo, notando uma relação de alguns meses com o Japinha e, depois, de mais um punhado de tempo com o Rafa, até achei estranho ser tão passageiro. Minhas relações ultrapassavam sempre a marca de um ano, quando o mais duradouro foi com o Beto, quase quatro. Mas as coisas mudaram, ou melhor, eu mudei. Tenho que admitir que, para mim, relacionamentos afetivos eram um tipo de combustível. Melhoravam a minha autoestima, me geravam uma segurança e parecia que eu ficava mais “forte e esperto” quando estava me relacionando.

Carência? Apego? Metade da laranja? Um pouco de tudo isso e teve muita importância no tempo em que durou. Apesar de hoje eu enfatizar os ganhos de me encontrar mais inteiro e autosuficiente, não tem como negar que foram as passagens das pessoas que entraram na minha vida e formaram par comigo que me fizeram chegar nesse atual estado. Foram as mais diversas percepções sobre as pessoas e do espelho que um namoro colocou a minha frente e me fez enxergar virtudes e defeitos, que eu aprendi a desenvolver uma percepção mais apurada, de me enxergar e enxergar o outro. Aprendi a não mais idealizar.

Ciente que idealização e paixão são partes intimamente conectadas, hoje eu me apaixono menos. Mas arrisco a dizer que amo mais.

Teve um dos namoros que a gente tratava muito sobre o “amor incondicional” e a possibilidade humana de alcançar esse tipo de relação pelo outro. Sobre isso, citava ao meu ex-namorado a relação que o George Harrison (ex-Beatle) teve com a Paty. O Eric Clapton (aquele da música “Tears in Heaven”) era super amigo do George. Mas Eric o traiu conquistando e casando com a Paty. George “simplesmente” o perdoou, perdoou a Paty e conferiu a ambos certo amor incondicional. Harrison e Clapton continuaram muito amigos e o segundo, quando o primeiro morreu, fez a ele um dos tributos musicais mais bonitos da atualidade.

Tal gesto num contexto cultural como o nosso, onde fidelidade é exigência porque culturalmente a traição é iminente (numa boa quantidade de casos), fica bastante difícil. Difícil extrapolar essa “caixinha” de valores instituídos. É uma prisão!

Mas confesso que tenho caminhado mais ou menos por aí, nessa estrada de uma emancipação emocional. Se da minha parte a relação com o Rafa não deu certo, foi porque ele precisava viver muito da caixinha, da imposição da fidelidade numa iminência perturbadora e quase que diária de que fosse traído. Há muito controle nesse tipo de relação. O “mal”, nesse caso, é que a minha cabeça já estava em outra e a sensação de “regressão” não caberia.

Em mais de uma conversa, com o namorado de um amigo, com um menino da minha equipe, com minha mãe, constatamos que a solitude seja uma consequência provável dessa escolha. Sim, escolha por meio de muita autoreflexão, meus caros. Aparentemente, tudo indica que o “estar bem só” seja uma constância. Tem sido. Mas ao mesmo tempo sei que em meio a uma população de 7 bilhões, acho muito difícil a jornada ser meramente solitária. Há outro aspecto: buscar transcender os modelos padrões e normatizações que a sociedade define, gera uma energia que (inegavelmente) atrai pessoas. Encontros nunca são à toa, no meu ponto de vista, e isso tem muito a ver com espiritualidade.

Em suma: hoje em dia, fica sozinho quem quiser (ou quem for muito noiado em relação a si).

Todo esse exercício tem muito a ver com a libertação – ao máximo – dos próprios apelos do ego. Por isso disse, no post anterior, que o exercício do desap-ego é uma libertação e, assim, afirmei que pessoas que praticam meditação, fazem terapia ou até mesmo sigam uma religião mais espiritualista (e menos radical), tendem a reconhecer os pensamentos descritos acima.

Existe certo? Existe errado? Nesse mundo das relatividades onde até Einstein entendia assim, quem sou para dizer sobre verdades? Sei das minhas próprias, cada vez mais, e daquelas que tem formado o solo para o trajeto que tenho escolhido. As referências estão aí para aqueles que veem sentido.

Sobre os encontros pela vida? Tenho fé em todos eles, mas não tenho pressa. Com tantos meios instituídos hoje, principalmente pela Internet, o processo é oposto: a gente tem que frear situações para não ter que socializar tanto!

Não acredito mais em príncipes encantados, tampouco na pessoa que será a luz na minha vida. Estar nesse lugar que me coloquei é bom e ruim, como tudo. A questão é, basicamente, definir propósitos próprios.

3 comentários Adicione o seu

  1. Róger disse:

    Oi Flávio, boa noite!
    É engraçado como sempre me identifico com suas reflexões quando o assunto é relacionamento com o seu “eu”.
    Me encontro em situação parecida que a sua!
    Após um longo período de solteirice (6 anos para ser exato), estabeleci um namoro que durou 7 meses e aqui estou eu novamente na condição de solteiro.
    Após tanto tempo solteiro, me envolvi tão intensamente que o término foi bastante doloroso, mas cheguei a conclusão que quando aceitamos, aumentamos de tamanho, mas quando brigamos com a realidade diminuímos, pois brigamos com as forças da vida.
    Penso que estar “consigo” seja o melhor status para uma pessoa conseguir se relacionar com outras, é através do auto conhecimento e auto reflexão que conseguimos chegar a esse nível de maturidade.
    A realidade dolorosa que teimamos em aceitar é como aquele momento da colheita que vem recolher seus frutos para abrirem espaço para outra nova estação. Deter o fluxo da vida, brigar com os acontecimentos incontroláveis só traz ansiedade, aflição desnecessária e perda de força.
    O único caminho para lidar com o inevitável é manter os pés no chão, com menos certezas, presunções e arrogância, seguindo em frente, ainda que mais lentamente!
    Que essa nova fase seja de crescimento!!!

    1. minhavidagay disse:

      Sempre para o alto, amigo Róger. Obrigado pelo comentário! ✌️

  2. Rothuzs disse:

    Ser solteiro traz sentidos diferentes a cada um. Estou naquela busca interior sobre o que buscar quando esta arte do encontro me possibilitar novamente ter alguém para caminha lado a lado. Acreditei desde sempre que ter os mesmos objetivos não seria o suficientes, pois se pode intercambiar os caminhos entre objetivos não comuns desde que o caminho se de juntos. Mas no momento tentando entender porque cobro tanto dos outros e aprendendo a ser mais eu e menos o que esperam de mim, solteiro e não sozinho.

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