Amizade com ex-namorado


Eu, ele e o mundo

Solteiros estamos, eu e o Rafa, quando outrora – há quase dois meses – éramos namorados. Ele veio puxar conversa comigo anteontem para falar de trivialidades. Mas desconfiava que ele estaria curioso para saber sobre minhas “andanças”, principalmente depois que nos cruzamos pelos aplicativos. Relação de apenas sete meses e uma certa autonomia emocional que expresso por aqui e, assim, o luto foi relativamente rápido. Pra ele seria também, pelo histórico de superação de seus namoros anteriores. Foi aí que, como quem não queria nada, ele veio com um “e aí? Me conte as novidades!” – claro que, naqueles segundos, eu logo pensei que ele queria saber o que eu andava aprontando. Fui falando sem parcimônia e ele correspondendo com algumas de suas peripécias. Depois de umas 10 linhas de conversas lancei: “bom, acho que já podemos seguir com a amizade, não é?” – algo que ele mesmo já havia sugerido algumas vezes.

Talvez nos encontremos no final de semana para almoçar no restaurante que é um “clássico de nosso gosto”. Pelo que entendi, ele já tem alguns pré-compromissos com seus “novos” (não sei se no singular ou plural – rs) e ficamos de ver se até sábado rola alguma coisa ou não. Deixei pra ele me avisar porque pra mim, no momento, o foco é apenas o casual.

Já acho até desnecessário contar quantas vezes vivi o início, o durante, o fim e o luto de relacionamentos. O fato é que, provavelmente, passando por todas as etapas, ou a gente se torna uma pessoa recalcada e fria ou aprende a lidar com muito mais naturalidade e equilíbrio as “partes ruins” do ato de se relacionar. As aspas, no caso, porque para mim me parece que a gente aprende a conviver com o pior da gente – e amadurece – vivendo principalmente dessas partes. Primeiro que a gente aprende que ódio, raiva, rancor e “indiferença” pela pessoa quando há o término – independentemente dos motivos que fizeram brotar tais sentimentos (e sempre teremos um quando o luto não for aceito) – acabam por ser venenos fabricados dentro da gente. É a gente mesmo se intoxicando.

Eu provavelmente já teria secado se não tivesse buscado meios (mentais e emocionais) de não fazer mal a mim quando as minhas relações (entenda-se expectativas, apegos e idealizações) acabaram. Seja como “agente de iniciativa do término” ou com um belo “pé na bunda”, teremos que viver e aceitar que o luto é uma ocorrência inevitável para qualquer indivíduo nessa terra que se defina como ser humano. Em menor ou maior grau sofreremos e, uma das coisas que a gente aprende a não fazer é ficar comparando se “eu estou melhor ou pior do que o outro”. Costumo dizer que, para poder viver o luto em paz (e é necessário paz para isso), não funciona manter contato. Nem WhatsApp. Nada. Por um tempo. As redes sociais tendem a ser malditas nessas horas e muita gente adora ostentar um “estar bem” depois de namoros. Quer saber? Uma babaquice enorme.

Achar também que “nada como um novo amor para superar o anterior”… bom, a gente acha que essa “formulinha” funciona, mas até hoje ninguém teve a manha de explicar a equação dessa matemática. Por empirismo, experimente começar com um “novo amor” e retome o contato com o ex para ver se pessoas são substituíveis assim.

Tendo em vista todas essas reflexões, dentre outras, consegui manter contato com pelo menos parte dos meus ex-namorados. No começo não era algo consciente, dos meus processos, mas era querido. Com o Beto, quase 4 anos de namoro, falo praticamente toda semana, principalmente porque ele frila para a minha empresa e temos, basicamente, muitas afinidades. Meu primeiro namorado manteve contato comigo por mais de 10 anos. Deixamos de falar nos últimos três porque – pra mim – nos tornamos pessoas tão diferentes que não tinha mais liga ou sintonia, a não ser uma certa consideração pelo tempo, consideração esta que não foi o suficiente. O Rafa, provavelmente entre no “pacote”, mas lembrando sempre que não há hoje uma pretensão de uma amizade fiel, constante e frequente para autoafirmar algo como “como eu sou evoluído”.

Mas uma simples naturalidade de, se pintar saudade ou vontade, de podermos nos falar sem o estigma cultural de “ex-namorado”. Olhar para aquele ser humano que me fez bem por sete meses (que me estressou também – rs) e valorizar: “poxa, temos afinidades!”.

O fato é que o afastamento entre ex-namorados não é um fenômeno humano, definido pela genética ou pela naturalidade dos elementos que nos fazem. O afastamento é uma regra cultural advinda sim de fenômenos emocionais mais comuns entre as pessoas, no caso, ex-casais. Mas não é um padrão 100% e, o que acho bacana neste texto (como nos principais que escrevo no MVG), é que o leitor entenda que está envolto e educado por inúmeras regras que podem fazer sentido mas, quando não fazem, podem ser questionadas e até mesmo modificadas. Modificadas desde que respeite o quadrado do outro!

Dá para viver assim, ser mais feliz e identificar que o caminho da paz para um nem sempre é para o outro, ou nem sempre é do jeito que o grupo ou a sociedade tem como normatizado. Enquanto uns encontram a paz num casamento, em filhos, uma casa, um cão e um carro, outras pessoas transitam por outros universos bastante plurais. E quer saber? Fomos nós mesmos, os gays, que contribuímos muito (também) para essas possibilidades! É um ganho sem tamanho, no meu ponto de vista.

Vejo hoje claramente que a ideia “ex-bom é ex-morto” traduz uma zona de conforto da caixa cultural criada, quem sabe, desde que o homem começou a entender seus sentimentos. Nos estagna num ponto dessa caixa que diz respeito à negativa de convívio com o outro que não é mais posse, não é mais pertence. Não é meu namorado. E o ego, de novo, herói e bandido, nos tolhe de uma mentalidade emancipada ou, minimamente, libertadora de padrões de pensamentos.

Vish, reli o post de hoje e achei que falei um pouco difícil (rs). Mas em linhas gerais eu penso assim: há pessoas que questionam as convenções comportamentais e sociais, buscam entender se tais regras abarcam ou não suas necessidades e se prestam a experimentar outras maneiras de lidar com algo – cuja norma geral levaria ao óbvio – para um encontro consigo.

O que se ganha com isso? Bem, um olhar bastante diferente para o mundo que, a maioria, vê do mesmo jeito. E o que isso representa?

Lanço o debate aos leitores interessados no tema: o que isso representa?

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Acho normal, pensar na ideia de amizade com o ex-namorado, natural, porque pra mim a ideia que cultivo de um namoro estritamente masculino seja exatamente daquela velha história da amizade com “privilégios” rsrsrs.

    Perguntas importantes devem ser feitas pra si nesses momentos: Por quê? Quando? Como? Podem ajudar a resolver de uma maneira “racional” a como se colocar diante deste término, que sempre, eu diria, é em alguma proporção traumático. Daí vem a história do luto. É preciso nessas horas equilibrar razão e emoção, pra não acabar fazendo “besteira”.

    Quando falo em “besteira”, estou querendo me remeter àquela velha expressão do “Queimar navios”. É recomendável sim, um certo afastamento pra fazer as coisas do coração amainarem, um afastamento a curto prazo. Mas dependendo da situação, existe sempre a opção de “Queimar os navios”.

    Costumo dizer, que não considero que nunca tenha namorado de fato, mas tive alguns “ensaios de relacionamento”, no último deles, e naquele foi mais de fato próximo de uma coisa real (real até demais, séria até demais rsrs), pelo próprio nível de envolvimento, tentei ser o bom moço que a velha etiqueta dos bons relacionamentos prega, mas infelizmente não foi possível, então tive que “Queimar os navios” mais uma vez.

    Não sei se por imaturidade, luto não-resolvido, sei lá mais o que, mas não consegui. Me arrependi de ter feito isso, porque diferentemente de qualquer outra experiência que tenha vivido, esta relação foi diferente tínhamos “filhos”. Filhos não-humanos, filhos do nosso trabalho, filhos no âmbito profissional, e a convivência foi difícil, não deu, a situação era insustentável.

    Não foi uma opção inteligente da minha parte, mas a única que tinha estrutura para fazer, para bancar, não deveria ter feito, me arrependi, mas não resta mais nada a fazer. Como se fala em no bom e velho português europeu “Inês é morta”.

    A velha expressão da tragédia grega “Orai por ele!”, que utilizei aqui, de maneira despretensiosa em um outro comentário que fiz, tem um sentido libertador neste sentido. Representa o desfecho da história que havia de amor (talvez na forma como entendemos hoje este sentimento, e para eles como entendiam o “eros” numa relação desta natureza entre dois homens) entre Pílades e Orestes.

    Pílades e Orestes, também era o título de um conto de Machado de Assis, que descrevia uma relação semelhante aos moldes gregos, porém transposta a uma realidade da sociedade média brasileira ali mais ou menos no início do século XX, talvez extrapolando para o fim do séc. XIX.

    Nada me restou a fazer, se não recorrer ao conto, à tragédia, para me reportar a esta história, minha, e de muitos outros. O Amor que existia, talvez não fosse tão pouco como imaginava. Restou-me apenas dizer “Orai por ele!”, pois sobrevivi, mas ao contrário do conto e da peça, ele também, não espero isso da parte, e duvido que o fizesse. Mas poderia ter sido diferente, afinal, mas foi o que tinha de ter sido.

    “Por que foste em minha alma como um amanhecer, porque foste o que tinha de ser!” (Tom Jobim / Vinícius de Moraes – O que tinha de ser).

    Termino com os versos de Drummond, para refletir mesmo, para me fazer refletir sobre isto, versos estes repetidos à exaustão, e assim tornando-os até mesmo cafonas, mesmo que geniais, nas “novas velhas” frases feitas de facebook:

    “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional.”

    Será?

  2. André disse:

    Também tenho minhas dúvidas Pedro sobre o quanto de opcional existe no ato de sofrer ou não. Acho que essa frase deveria ser reescrita assim: “Meus amigos, a dor é inevitável, o sofrimento, infelizmente, também”.
    Claro, ninguém gosta de sofrer, ainda mais por um relacionamento que já não existe mais. Dar o braço a torcer é vergonhoso. Atire a primeira pedra quem nunca pensou assim.
    Já a duração da dor e do sofrimento, isso vai depender de cada um, sendo preciso que a propria pessoa (aquela que sofre) respeite esse tempo pra organizar as idéias rs.
    Hoje eu tô passando por algo semelhante. Semelhante no sentido de que não foi bem um término por brigas, mas pelo distanciamento físico causado por questões profissionais. Só que o querido retornou antes do previsto e retomamos o contato. A questão é: não estou sabendo lidar com essa situação, parece que seis meses afastados (decidimos não manter contato) fizeram com que algo ficasse diferente. Não somos os mesmos, sabe?!
    ps. Pedindo ajuda do universo pra agir da melhor maneira possível rs.
    E respondendo ao Flávio de forma bem sucinta: olha pra mim representa ter consideração pelos sentimentos do outro, e sobretudo pelos meus próprios sentimentos. Não deixar que as emoções ruins, inerentes ao término, sejam maiores da pessoa que se é, afinal, a vida é certamente mais que isso.

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