Sobre os nossos ídolos


Vou começar o post de hoje com a moral da história: a idealização é fundamental quando nos inspira, quando é objeto de admiração para nos levar a algum lugar. Quando inclusive nos emancipa e liberta. Mas, quando o símbolo de adoração, da “entidade” potente que faz por mim e pelos outros que o adoram, é demasiadamente reverenciado, nos tornamos tolos dependentes.

Durante a minha juventude tive alguns ídolos. John Lennon, por exemplo, representava uma mistura de intelecto, expressão política e criatividade. Para a maioria de uma nova geração, talvez ele nem tenha mais essa representatividade, mas John é lembrando todos os anos em seu memorial no Central Park, em NYC, por pequenos grupos que visitam aquele espaço em seu dia de aniversário. Memorial = memória = cultura.

Quando somos jovens, idealizamos muito (faz parte da natureza da juventude) e isso pode virar um problema quando idealizações (no formato de adorações) se perpetuam enquanto adultos. Seitas religiosas, lá do Oriente, traduzem um pouco disso. O Lula, como o “homem do povo” que virou líder ou a Dilma, como a “guerrilheira da ditadura” que propagou seu empoderamento por ser mulher e pelo mote do “amor”, dão pano para manga para o sentido da idolatria. É perigoso e o resultado dessa relação está se esparramando hoje pelo Brasil: decepção profunda.

Mas não foi muito diferente a minha relação com John Lennon, a época. O impulso humano a nos apegar a ídolos é o mesmo.

Acontece que, a maioria das pessoas quando amadurece, quando vai preenchendo a vida com seus próprios feitos e conquistas, tende a tirar os ídolos do altar. Fica dentro da gente uma saudosa lembrança que pode ser revisitada todas as vezes, de quando a gente acreditava em símbolos. De quando aquilo tudo fazia sentido.

Fui crescendo e passei a notar o humano que era o John Lennon. Antes, humanizá-lo era um ato impossível e qualquer feito de sua parte que era contra aos meus valores, eu fazia vistas grossas. Não dava espaço para eu acreditar na falibilidade. Eu focava no ideal, igualmente construído pela mídia, de que existia uma fórmula infalível: “John Lennon = Amor + Paz”.

E serei bem sincero: o primeiro a descobrir que era possível seguir assim – porque a humanidade tinha certas demandas e necessidades – foi Jesus Cristo. Ou melhor, os homens que o fizeram porque só existe ícones como esses se existem seguidores. Antes disso eram os deuses pagãos. Eles coletivizavam responsabilidades, cometiam erros e reuniam “o bem e o mal” em si. Muito humano para o nosso desejo do absoluto do ego. Mas aí veio esse “conceito Jesus” que dividiu o filho do onipotente, onisciente e onipresente e partir dele, o “resto” pagão.

Mas a medida que fui crescendo, fui aceitando o humano John. O “homem-amor” que se revelou para o mundo tinha muitas crises, como qualquer ser humano. O “homem-amor”, algum tempo depois que abandonou os Beatles, lançou uma música ao Paul, seu parceiro de longa data, cuja parte da letra transcrevo abaixo traduzida:

“Você  vive com certinhos que dizem a você que era o rei

Pula quando sua mãe te diz qualquer coisa

A única coisa que você fez foi ‘Yesterday’

E desde que você foi, você é só um ‘Another Day’

Ah, como você consegue dormir?

Ah, como você consegue dormir a noite?”

De amor não havia nada naquele período…

A própria relação com a Yoko – fora dos holofotes – era de brigas e rompimentos cabulosos. O amor, também, era dividido com muito ódio.

Fui percebendo que aquele cara que se posicionou politicamente por muitos anos, enfrentou na linha de frente (a idiotice que foi) a guerra do Vietnã, foi proibido de entrar nos EUA por alguns anos, propagava o amor para a sociedade e soube se aproveitar da mídia para ajudar a formar o pilar de certa cultura pacifista – de fato – era bastante humano na mediocridade de seu cotidiano.

Jamais o culparia por ter acreditado no ídolo construído, inclusive, por mim. Afinal, quem o idealizou fui eu. Eu e milhões. Continuo amando John Lennon, suas músicas, melodias e letras durante e depois dos Beatles. Me sinto “metido” por saber reconhecer as canções feitas pelo Paul, John e George sem me equivocar. Mas hoje, coloco o Lennon num lugar que cabe a qualquer pessoa. De vez em quando revisito aquele Flávio, jovem e empolgado, ouvindo suas canções, cantando as mesmas pelo Smule e vendo seus vídeos de entrevistas no YouTube. Alimenta parte de mim que não preciso apagar. É cultura hoje e sempre.

Me sobrou o impulso inspiracional de caras como esse. Mas a potência e a adoração é de mim por eu mesmo e tem sido de bom tamanho. Nas devidas proporções, com a minha consciência das coisas e diante de algumas pessoas, aprendi a ser algo de John. Para isso que servem os ídolos, na transferência de autonomia. Nada mais.

Ouvindo John Lennon – “Watching the Wheels” me despeço. Bom final de semana a todos! Vou em paz.  :)

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