O que você entende como problema, eu entendo como vida


Pais e filhos

Meu pai, a maior parte do tempo de nossa convivência, representou uma referência a mim. Embora manifestada de maneira opositiva, uma referência. Na maioria das vezes, em nossa osmose do cotidiano, temos a ideia de “referência” como algo somente positivo, aquilo que de alguma forma agrega ao nosso conhecimento, cultura ou educação. Mas erramos ao pensar assim pois, referências opositivas ou negativas ao que pensamos também geram uma influência sobre todos.

Seu Antonio sempre foi um cara comedido. Devido à educação de seus pais e sua intrínseca personalidade, foi e é uma pessoa que sempre precisou definir com clareza a circunferência de sua vida e aquilo que ele traria para dentro e deixaria fora. Todos nós, em vias de fato, funcionamos assim. A diferença, basicamente, é o comprimento do raio de cada um, ou seja, o quanto o nosso ego permite abarcar ou não.

Papai sempre foi uma pessoa mais conservadora no sentido único, ao meu ver, da palavra: de querer resguardar e preservar aquilo que entendia e entende como certo e verdadeiro. Assim, afirmo a todos que, sejamos de esquerda ou direita, os extremistas são invariavelmente conservadores e serão aqueles que – inevitavelmente também – sofrerão mais com as mudanças que impactam naquilo que desejam conservar. Pessoas conservadoras, seja de um polo ou de outro, são naturalmente mais inflexíveis e tudo aquilo que pode mexer com objeto, pessoa ou ideal que se quer conservar, recebe uma aura de temor e, na pior das hipóteses, fobia. Pessoas conservadoras também são naturalmente mais apegadas e acho que meu raciocínio é claro aqui: se um indivíduo quer preservar, por exemplo, um objeto, subentende-se um apego maior por aquilo. Seja o valor emocional e sentimental que for pois quem presa esse valor é apenas e, somente apenas, o indivíduo que o tem.

Seu Antonio definiu a cartilha (ou circunferência) de sua vida com prazeres e dores. Novamente, como qualquer ser humano.

Somente prazeres – bem sabemos os mais antigos da Geração X, Yuppies e Baby Boomers – não existe no plano real. E uma das grandes dores do meu pai que (certamente) influenciou os contornos de sua cartilha, circunferência, caixinha fora a morte precoce e súbita de minha avó. Lembrando que, pessoas conservadoras são naturalmente apegadas e, assim, foi muito (e muito) difícil meu pai superar a morte de minha vovó, sua mãe. Afirmo com uma certeza que ele só transcendeu essa perda há quatro anos, já com mais de 70, quando ele viajou com a minha mãe para o Japão e teve – como eu costumo dizer – uma resolução espiritual. Precisou de ajuda “do outro lado” para resolver essa pendência. Até então, sem querer-querendo, procrastinava.

Uma pessoa assim, como meu pai – e simetricamente oposto a minha mãe – criou seus filhos a si. O apego, para quem é conservador, costuma ser 360 graus. Um pai que cria seu filho a si, e não para o mundo, costuma a ter muito mais expectativas. Idealiza a criança muito mais e espera, de maneira (aparentemente) linda ou romântica que o filho pise nas mesmas pegadas marcadas, pela mesma estrada ou muito próximo disso. Para conforto e segurança de papai, meu irmão nasceu com as tais características necessárias para que se identificasse com as trilhas de papai. Sorte, acaso ou, como os espíritas acreditam, escolha das almas. E para seu desconforto e aflição, eu, euzinho, nasci com as características diferentes, de olhar para aquelas pegadas e trilhas deixadas pelo meu pai e o questionar: “por que eu tenho que seguir esse caminho?”.

Quantas não foram as vezes durante a minha infância e juventude que, ao questionar os porquês das colocações do Seu Antonio, ele não responder assim: “para de perguntar os porquês. Apenas faça o que estou dizendo”. No começo era fácil ele funcionar assim comigo e não o culpo de não ter as respostas. Papai seguiu seu trajeto perguntando muito pouco sobre os porquês para suas referências; deixou-se conduzir apenas pelo afeto (ou, como eu prefiro descrever, autoridade).

Mas a partir da tão necessária e transgressora adolescência, a ausência de respostas começou a me incomodar. Não somente aquelas que ele não me respondia, mas as outras que eu questionava para o mundo. De certa forma, como indivíduos orgânicos, todos nós passamos por essa etapa em diversos momentos da vida. Mas eu, como podem notar, se trago muitas respostas ou pontos de vista a vocês é porque outrora me questionei intensamente. E continuo, incansável.

Papai, sem querer, começou a me enxergar como um poço de problemas. Ele foi funcionário público, que em boa dose tem os ganhos mensais garantidos, não seria demitido com facilidade e que inevitavelmente ofereceria muito comodismo. Idealizou esse percurso profissional para mim e para meu irmão. Recusou ofertas internacionais incríveis em seu tempo de mocidade e, no final, meu irmão é o mesmo que ele, há mais de uma década, e eu me tornei empresário. Anos difíceis e duros que foram, no começo de minha vida de empreendedor. Não somente pelas dificuldades naturais de quem resolve pular “para o outro lado da bancada”, mas porque, no meu caso, papai se colocou totalmente contra essa minha escolha. Dele, para somar no pacote de dificuldades, tinha que ouvir que eu era incapaz de administrar a minha própria empresa. Que eu era um “porra-louca”. Assim, o que eu entendia como a minha vida, ele entendia como problemas.

O fato de eu ser gay, a ele, era a certeza de que minha vida seria sofrida e cruel. E, apesar dele se sensibilizar de tal modo, não houve e não há “pelo menos” nenhum em nada disso. Novamente, o que era a minha vida, a ele soava como problema.

Os anos foram passando e o tempo foi exercendo sua função abençoada e divina. Meu pai continua em sua circunferência, condicionado a uma penca de medos. Todos os anos sua vida traz lá surpresas e imprevistos. É sempre uma “sofrência” total, que ele não tem parcimônia nenhuma em despejar naqueles que estão por perto (eu e minha mãe no caso – rs). Mas a minha circunferência se amplificou pelos anos a ponto de abarcar a dele. Foi duro, por sete anos, ele aceitar que as minhas escolhas, emancipadas, tinham se consolidado. Hoje, é aquele porra louca, correto no adjetivo aplicado por ele, que o conforta.

Devo muito a referência que foi meu pai e, mais do que isso, tenho a oportunidade de agradecer em vida. Esforçadamente, não serei daqueles que fará a balança apenas em seu leito de morte. Meu pai partirá de dentro de mim quando ele efetivamente partir. E isso me deixa em paz.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s