É tudo uma questão de oportunidades


Aqui e agora

A dúvida era saber se o encontro com o “novo” Beto fecharia a conta, depois de uma semana cheia de intensidade e querer bem. Apenas uma semana de contato virtual e as expectativas estavam mais altas, como eu não sentia há anos. Seriam atendidas?

Minha intuição dizia que sim, mutuamente, embora minha razão levantasse a bandeira do questionamento, colocando meus pés no chão. Eu acho que a última vez que vivi algo semelhante foi com meu primeiro namorado, há 16 anos atrás. Em apenas 6 dias, o que parecia uma conversa descomprometida, começou a mexer comigo. Em sã consciência, sei que meus pés andavam cravados na terra e eu andava bastante pragmático. Pode até soar contraditória essa “repentina” mudança de direção, mas o fato é que o MVG, embora seja repleto de detalhes de minhas vivências, nem sempre reflete 100% da “Lua” que sou. Para o conhecimento de 360 graus do meu entorno, talvez somente a minha mãe e um punhado de amigos, cuja amizade ultrapassa os 20 anos, outro de amizades mais curtas e um ex-namorado.

Eu (definitivamente) não estava atrás de compromissos, embora duas pessoas (o Japinha e o Rafa) tenham entrado em minha vida nestes últimos 2 anos e pouco, após meu término com meu ex Beto. Foram companhias sim, muito agradáveis, nas quais trocas justas e recíprocas se estabeleceram e pude considerar como namorados.

Foi na relação com o Japinha que, por exemplo, ele se sentiu assegurado para assumir aos seus pais e, em menor ou maior grau, fui um apoio moral para o ato. Nesse aspecto deu tudo certo, mas não tivemos muito tempo de viver a própria relação, já que dois meses depois de formalizado o namoro, ele estaria do outro lado das Américas. Foi muito pouco tempo para gerarmos um lastro de convívio entre nós e – da minha parte – já tinha muitos calos para me sustentar somente pela “fantasia da paixão”.

O Rafa já veio “pronto” neste sentido: assumido para sua família e relativamente resolvido sobre as questões relacionadas a sua própria sexualidade. Tentamos. Quatro meses de reconhecimento na base de um “ficar-fixo”, mas depois que veio a formalização do namoro, o querido basicamente se colocou num lugar de querer “controlar o objeto” de uma maneira bastante impositiva e reativa quando a coisa não funcionava como queria. Muita coisa era motivo para aflição. Eu, pelos mesmos motivos dos 39 anos vividos, tinha muitos calos para me submeter numa relação desse nível: “faça como eu quero, pois, se sair diferente, eu estranho e vou ameaçar”. Na medida que eram incríveis nossos momentos de paz e acordos, as DR’s e surtos impulsivos de sua personalidade anulavam a própria paz. 1+1 = 0? Para quê namorar se é para sofrer? Até mesmo eu falava isso pra ele!

Isso a mim é preponderante: ter paz numa relação. Entrar numa para ficar “curando” somente as inseguranças alheias não dá. Não dá para entrar num namoro para ficar alimentando o gênio ruim do outro. Uma coisa, bastante necessária e parte integral do companheirismo é dar colo e apoiar as dificuldades de um parceiro; isto é um fato e quase óbvio. Outra coisa, bem diferente, é o parceiro não aguentar suas próprias questões, não buscar soluções práticas para as mesmas e descontar frequentemente em cima do outro. A vida adulta, de microempresário, de lidar com equipe, clientes e parceiros me faz sobrar muito pouco tempo para alimentar fantasias que não são as minhas e deixar de viver a realidade: “a simples presença de uma pessoa disponível a mim e interessada por estar nas horas livres comigo, já se traduz naquelas coisas que as fantasias não deixam enxergar”. E afirmo que a questão nem é o Rafa em si, mas a enorme incidência de pessoas que inventam uma relação como poço de resoluções para os próprios problemas. Na real, as coisas não funcionam assim e idealizar dessa maneira tende a nos levar ao sofrimento “sem causa”. Sem causa tendemos a ficar “sem solução”.

Assim, o primeiro aspecto foi meu contexto com o Japa, depois com o Rafa e há um terceiro: depois dos quase 4 anos de namoro com o Beto, passei esses dois anos e pouco, seguintes, ressignificando os valores sobre família, minha influência na vida do meu namorado, a sua influência na minha vida e, principalmente, meu entendimento sobre o que eu busco em um relacionamento afetivo hoje. Vivi num tipo de balanço por três anos e, quem chegou ao MVG nesse período, conheceu só uma partícula da história. Para se ter uma ideia, a mim só ficou claro a diferença entre o conceito “duas metades da laranja” VS. “dois seres inteiros que se dão o privilégio de caminharem juntos ou não”, nesse último tempo. Só ficou claro e praticável agora, quando os pilares principais que sustentam a minha vida se estruturaram ou ficaram mais claros. Em outras palavras, foram anos de um olhar para dentro para descobrir novos elementos. Autoconhecimento.

E nesse processo, fui notando que cada vez menos, menos e menos, dependeria dos outros. Os problemas que vieram com o Beto e todo o contexto conservador e tradicional que chegou no pacote não era do Beto. Nem do Japa quando vivi com ele as questões da distância, nem do Rafa e seus surtos impulsivos. A questão sempre foi entender melhor quem eu sou e o que eu quero para mim. O quanto as minhas próprias carências eram pesos para que eu relevasse posturas, atitudes e maneiras diferentes as quais eu realmente – livre das mesmas carências – não bancaria.

Com meu ex Beto – hoje eu sei – banquei muitíssimas coisas. Extrapolei para além de mim mediante alguns propósitos exclusivamente meus. Com o Japinha, eu até sonhava em viver “feliz para sempre” a distância. Comprei essa ideia. Mas descobri que, na real, frente a apenas dois meses de um iniciar de vínculos, frente às condições normativas, apostólicas, católicas e romanas e frente à distância eu não bancaria. Pipoquei e assumi. Assumi também um surto por parte dele, por ter fuçado a minha vida após nosso término. Meu “troco” foi seu distanciamento. Aceitei.

E com o Rafa, veio o mais óbvio: não dava para levar muito tempo uma relação com um tipo de bebê-adulto que gritava e arrancava os cabelos por se sentir sem chupeta. Muita coisa passou a ser uma chupeta e a relação poderia se tornar destrutiva. Poderia não, estava.

Faz muito sentido agora a minha relação com ambos, Japa e Rafa, não ter completado um ano. Até o ex Beto, um ano e meio foi o mínimo de duração. Eu aprendi a largar e a encarar a “solidão” em detrimento aos medos e carências por estar sozinho. Aprendi a parar antes de extrapolar a mim. Aprendi a assumir o que eu quero para um relacionamento, quereres mais fortes do que o medo de ficar sem par.

Aprendi, depois de muito esforço – inícios, meios e términos – a estar feliz e resolvido comigo, para não ter que entrar naquelas de que o outro, que foi fonte de entusiasmos no começo, tornou-se o alvo de minhas piores dores no fim. Enfim, eu inteiro. Eu adulto e sem culpados.

Embora eu tenha conquistado de maneira consciente todos os elementos descritos acima, pintou um componente na história agora: uma incontrolável atração pelo Beto. Confesso estar um pouco pasmo pela situação ser tão “louca”. Ontem fez apenas uma semana que eu havia trocado as primeiras conversas com ele e foi assim, para contextualizar: eu pago o mensal do Hornet. Com isso, consigo ver quem vê meu perfil. Como eu adquiri uma preguiça enorme de ficar caçando no cardápio, puxo conversa com aqueles que veem meu perfil mais de uma vez. Ultimamente a coisa andava “fraca”, ou melhor, eu andava bastante seletivo. Há um mês ou mais minhas investidas na sauna se tornaram rotineiras e repetitivas e uma sensação de querer formar par começou a brotar novamente.

Notava que, nos meses após o fim com o Rafa, uma pessoa cuja foto de perfil era uma paisagem de praia, sempre acessava meu perfil mas nunca puxava uma conversa. Não dava bola pela natural preguiça de ter que pedir foto e pelo fato da pessoa “esconder” sua imagem.

Mas no domingo retrasado, enquanto eu fazia uma hora deitado na cama, a espera de dar o tempo para jantar com um amigo, abri o Hornet e vi que o menino tinha acessado novamente meu perfil e que estava online. Sem pretensões, escrevi algo assim: “Oi! Vejo que você acessa meu perfil com certa frequência. Daí resolvi puxar conversa. Tudo bem?”.

Alguns minutos depois ele me respondeu com um textinho muito educado, já liberando as três fotos privadas. Me chamou a atenção seu físico e trocamos algumas palavras até a hora do meu jantar. Passamos o WhatsApp um ao outro.

Na manhã seguinte, logo que acordei, havia uma mensagem de “bom dia” e ficamos nessas trocas até terça-feira a noite, quando eu pedi pra ele me mandar uma mensagem de voz pelo Whats e ele preferiu ligar. Sua voz me chamou atenção de imediato e as conversas mais ainda. Ficamos mais ou menos 1h30 no telefone sem sentir o tempo passar. Nos dias que se seguiram, fomos esquematizando nosso encontro e alguma coisa nos motivou a que ele dormisse em casa de sábado para domingo. Por vezes a minha razão falava: “nossa, mas você nem o conheceu pessoalmente ainda. As chances de algum dos fatos contados saírem da realidade na hora do ‘vamos ver’ ou, na pior das hipóteses possíveis, ele não ser a pessoa que é nas fotos (também provável em encontros assim) são grandes. E se você não curtir?”. Detalhe: em nenhum momento entramos na determinação do “é ativo ou passivo?”.

A atração veio e junto a isso, escapar das trivialidades, talvez tenham criado um interesse maior. Não sei. Fica para o subentendido.

Compartilhei o momento com meu ex Beto que de imediato quis colocar meus pés no chão. Mas eu disse a ele: “o que eu realmente tenho a perder? Alguma coisa me diz para eu me jogar”. Daí ele me respondeu: “É verdade… você já tem bastante experiência e vai saber lidar”.

O que sei é que meu final de semana com o Beto foi incrível e parecia que eu previa. Quando eu cheguei em nosso ponto de encontro no sábado a noite, ele já havia reservado nosso lugar e pude fitá-lo do lado de fora ainda, na calçada, através da janela de vidro. Parei a sua frente, na rua, enquanto ele olhava para “o nada” pensativo e distraído, sem me notar. Fiquei por um minuto pensando: “então, é ele que vai entrar na minha vida?”.

Taí o componente que, de jeito nenhum, faz eu jogar fora toda clareza e vivência adquiridas nesses anos. Mas como se faz com o sentimento que me leva a crer que eu o conheço há anos e que me dá a sensação de que vou viver com ele um “tempo perdido”, depois de anos sem se encontrar? A melhor forma de traduzir o que tem rolado dentro de mim é algo assim.

Este componente sim é raro, raríssimo e muito difícil de traduzir. A vida me deu essa oportunidade. A prioridade sempre foi o “aqui e agora” e onde está a contradição em tudo isso?

Não vejo contradição nenhuma. Eu não queria me envolver com qualquer um, não é verdade? O que o faz especial é um mistério que não faz sentido desvendar.

1 comentário Adicione o seu

  1. sandro disse:

    Desejo muitas feliciades em seu novo relacionamento. Estava há um tempinho sem ler seu blog e me causa grande alegria ler um texto tão sincero e cheio de boas notícias. Grande abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s