Gays por Bolsonaro


Saiu na BBC a reportagem com a minha participação. Polêmica no ar: “gays por Bolsonaro”

O título da matéria ficou assim: “O que pensam os gays que apoiam Bolsonaro e rechaçam Jean Wyllys”. Ter o nome do Blog Minha Vida Gay neste contexto é até engraçado e reforça o que sempre soube, como alguém formado em comunicação social: as mídias, por mais que se “esforcem”, não conseguem ser (totalmente) imparciais. Isso não é um incômodo a mim, mais do que ciente dessa realidade. Sou formado em propaganda e marketing. Isso resolve muita coisa quando o assunto é opinião sobre a mídia.

Gostei da matéria, embora saiba que uma notícia com esse título corre o risco de provocar ainda mais a polarização. Mas de fato, a discussão (para os poucos lúcidos neste contexto de crise) é sempre válida e o breve micro-trecho extraído da minha entrevista aplicada na matéria, foi embasado por dois professores e pesquisadores de boas faculdades, um que se coloca contra e outro a favor. Justo, justíssimo.

O link está acima para quem quiser ler e, no final, foi apenas um “pelinho” de participação (rs). Agora, acho interessante complementar meu posicionamento, que certamente não ficou claro na matéria abarcada com um título como esse: eu Flávio / MVG, detentor do Blog Minha Vida Gay, não considero Jean Wyllys como meu representante, muito menos o Jair Bolsonaro (rs). Não sou nem de extrema esquerda, nem de extrema direita.

Sigo uma ideologia política de centro esquerda e minhas reflexões e pontos de vista são, normalmente, fundamentados em informação e reflexão. Assim, entendo que o tema “Gays por Bolsonaro” não é algo que me aflija e o fato de pensar assim não quer dizer que eu rechace o Jean Wyllys! Considero o pensamento polarizado um tanto débil pois, se eu criticar negativamente o Wyllys (como o ato do cuspe no dia da votação da Câmara sobre o impeachment), automaticamente sou tido como “de direita”. What a fuck?! A mim, isso é uma grande bobagem, um dos males do pensamento maniqueísta. O maniqueísmo, segundo uma matéria lançada no El País um tempo atrás, é o ópio dos tolos. Concordo em gênero, número e grau. Essa relação “Darth Vader e Luke Skywalker” é muito legal nos filmes. Na vida real me parece um retardo!

Considero certo envolvimento atual por representantes, como Jair Bolsonaro, algo até natural e vice-versa quando o ponto de apego é o Jean Wyllys. A histeria e a neurose humana são recorrentes a crise política, econômica e moral que o país tem sofrido e acentua (em maior ou menor grau) a polarização. Tem estampado nos dias de hoje, com muito mais frequência, a rivalidade (antiga) entre gays afeminados e masculinizados. Tal conflito, repleto de preconceito sempre existiu, mas parece virar manchete hoje porque as pessoas – no geral – estão se alimentando da polarização; há muitos gays que precisam autoafirmar suas certezas para uma garantia fantasiosa, sejam os gays afeminados que se consideram os principais autores para a inclusão social ou os masculinizados que “não dão a cara para bater”. É como se agarrar a um pólo e afirmá-lo contra o opositor fosse a única maneira “inteligente” de manifestar uma convicção política. Eis, a mim, uma outra grande bobagem.

O esforço do Blog MVG, faz um tempo, é de levar aos leitores um sentido maior de autonomia, emancipação e autoria. Autonomia, emancipação e autoria – quase que invariavelmente – aponta ao meio e não a um extremo. Consequentemente, representantes como os tais, Jean e Bolsonaro, perdem sua força ou dependemos psicologicamente muito menos. Será que eu preciso de Bolsonaros ou Wyllys com tanta voracidade, como representantes, para ter garantias em sociedade? Do ponto de vista político, acho fundamental a existência partidária, certa cristalização de ideologias e, igualmente importante, as oposições. Mas o nível de apego e envolvimento as mesmas, e a forma a qual as expressamos, é bastante individual. Isso é meu posicionamento e (igualmente) político.

Agora, critico sim a polarização que, assim como a matéria do El País, entendo como o ópio do tolos. Tolice só nos leva a rodar atrás do rabo.

Não acho que esteja aumentando o número de gays de esquerda, tampouco de direita. Acho que o contexto e a histeria advinda do mesmo – que nos joga uns contra os outros – lança mais holofotes a aqueles que sempre existiram mas querem “gritar”. Num cenário de crise (e fobias diante dela) autoafirmamos muito mais aquilo que nos parece seguro e/ou verdadeiro e, consequentemente, aparecemos muito mais como interlocutores de nossas certezas. As redes sociais, de quebra, só amplificam essa prática.

Já tinha dado esse exemplo antes: quando é que uma pessoa tende a se envolver mais a uma religião? Quando existe harmonia na família, se está empregado e feliz com o seu/sua companheir@ ou quando existe conflito entre os familiares, a pessoa está desempregada e sua relação vai de mal a pior? Em crise, caros leitores, o ser humano tende a se agarrar com muito mais força as suas convicções, instituições, ídolos ou representantes e passa a repudiar numa mesma proporção tudo aquilo que aparentemente se apresente contra.

O mundo não vai acabar por causa de “gays da direita”. Tampouco vai se salvar pelos feitos ou desfeitos dos “gays da esquerda”. E eu, como ser consciente, emancipado intelectualmente e longe de apegos por representantes, estou livre de estar lá ou cá numa pura necessidade de autoafirmar meu senso político. O próprio Blog MVG transcende a verborragia dos pólos e aponta para um sentido de emancipação prática para quem lê. E a dica que eu dou é basicamente essa: há espaço para a aceitação das mais diversas formas de pensar, quando se há uma educação libertadora.

Libertem-se meus amigos.

PS: Falavam tanto da implantação do comunismo por um lado e tanto da volta da ditadura militar por outro. Cadê um ou outro, se não dentro da cabeça daqueles que os temiam?

 

 

5 comentários Adicione o seu

  1. Sérgio disse:

    Excelente texto. Gostei e refleti sobre o maniqueísmo, ópio dos tolos, e o P.S.: comunismo e militarismo estão apenas na cabeça dos tementes. Estamos em época de extrema polarização maniqueísta mesmo. Se for perceber, isto está em tudo em nossa vida. Bem dizia Aristóteles: “a virtude mora ao centro”. Manter a sanidade em uma sociedade assim: eis a meta. É difícil mas penso que, assim como o maniqueísmo vem e vai, ele há de se dissolver novamente.

  2. Sandro bonassa disse:

    O pior é não conhecer história e as pessoas que Jair considera exemplos.

    Gay ou não , pelo direto ao voto e ao protesto , Jair é um atraso social , democrático e Humano.

  3. Pedro disse:

    Falou tudo Sandro Bonassa, representa sim um retrocesso, eu entendo que as pessoas tem o direito de escolherem quem quiserem pra seguir e tudo mais. Mas daí a levantar bandeira pra um cara como esse é um troço meio complicado. Tudo ou quase tudo que ele prega está relacionado a retrocessos na questão dos direitos humanos, da democracia e das conquistas sociais em geral.

    As pessoas depositarem sua esperança em um homem como este representa toda a carência que vivemos nos dias de hoje. No desamparo a tendência da ‘manada’ é buscar um ‘salvador’, um ‘pai’, um ‘Messias’. Fenômeno antigo, apenas travestido de nova tendência, o pior é que a história acaba sempre se repetindo.

  4. alfredo santos disse:

    Concordo em muito com o Flavio, principalmente porque acredito que os dois polos se beneficiem da propaganda. Muito ruim o apelo que mistura politica com grupo social, aliás bem facista esta atitude, pra não dizer nazi-facista.
    Só pra constar, realmente vivemos um clima de polarização e julgamento afetado por um cenário pobre culturalmente.
    Mas estes fatores não devem/podem nos impedir de refletir de forma correta.
    Eu particularmente não gosto das atitudes do Sr Bolsonaro tanto quanto do Sr Jean, pois ambos deveriam pensar/agir em função da responsabilidade dos cargos que ocupam e não em favor do proprio ego. Infelizmente as atitudes e frases do Sr Bolsonaro ( em passado recente ou agora, não importa) foram/são extremamente
    infelizes no sentido social,economico e até político, pois um profissional que não consegue atuar com os seus pares e propõem projetos tão simplórios como os dele não merece estar lá… mas infelizmente ele não está só…temos um monte de beócios oportunistas nas duas casas e isto não tem a ver com grupo social, opção sexual e sim com caráter. O que quero dizer? o obvio: enquanto ele for o mau-carater que é , não terá o meu voto.
    E também não votei no Jean Willis.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pelas suas opiniões expressas aqui, no MVG, Alfredo! :)

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