Pureza na conexão


Um mundo em um mês e páginas para se escrever

Amanhã fará um mês que conheci o Beto, dia 15. Curiosamente, dia de seu aniversário em um dos meses que ainda está por vir. Posso afirmar com todas as palavras que é a minha primeira relação que começou sem ruídos. Ruídos e rolos que claramente posso descrever aqui: meu primeiro namorado tinha um ex. Conheci esse ex primeiramente, num bate-papo (no caquético) chat do UOL. Um mês conversando, ele não me atraiu, mas senti afinidades para uma amizade. Ele quis algo mais especial, mas neguei. Não sei porque cargas d’água ele resolveu me passar o ICQ de seu ex, dizendo que ele se atraia por orientais e que, de repente, haveria alguma combinação. Eu, na minha ingenuidade dos 23 anos, achei nobre da parte dele e aceitei. Resumo: o ex deste amigo virou meu primeiro namorado e, como numa reviravolta sem sentido, meu amigo entrou meio que em pé de guerra contra a gente (rs). Casinho adolescente cheio de confusão? Totalmente. Um ano e onze meses de namoro.

O segundo morava em Hortolândia, interior de São Paulo! Quilômetros de distância a percorrer todos os finais de semana. Ele se assumiu a mãe durante nosso namoro. Ela se revoltou, tivemos uma séria e intensa conversa na mesa da cozinha e, a partir daquele dia eu poderia ver meu namorado, mas não entraria mais dentro de sua casa. Um ano e meio de namoro.

O terceiro, que virou meu marido, fingiu ser italiano nos primeiros meses de relacionamento. Eu cai como um patinho. O rapaz interpretava muito bem seu português cheio de sotaque! Até que eu descobri que – no pano de fundo daquela mentira – existia um verdadeiro receio de apresentar seu real contexto humilde de vida. Dois anos e onze meses.

O quarto gostava de seu ex ainda. Curiosamente, seu ex era meu primeiro namorado! Um ano e meio de namoro.

O quinto, “ex-Beto”, não estava bem certo sobre sua sexualidade e tinha uma paixão meio mal resolvida pelo nosso amigo em comum, amigo este, que fora o primeiro que eu tinha conhecido e ficado. 3 anos e onze meses.

O sexto, Japinha, depois de dois meses de relação, partiria para estudos nos EUA. Vivemos mais seis meses de relacionamento à distância quando, pra mim, não deu.

O sétimo, Rafa, tinha inúmeros receios para assumir um namoro. Ficamos como “ficantes fixos” por quatro meses. Quando eu me acostumei com o jeitão de ser, ele quis com toda intensidade namorar! E eu já não sabia mais se a formalização seria interessante. Descompasso. Durou oito meses.

Talvez, inconscientemente, eu busquei por relações desafiadoras pela natureza da minha personalidade ou imaturidade. Só sei que foi assim, sobrevivi, namorei todos eles e se constam nesta “listinha” (típica de diário de adolescente, mas necessária para contextualizar) é porque tiveram representatividade, no sentido da contribuição para meu crescimento e evolução sobre o próprio tema: relacionamento.

A introdução foi relativamente longa para dizer que, com o Beto, não existem certas pendências, rolos, sombras ou enroscos entre a gente. Isso já é bastante representativo! Essa ausência de impurezas, talvez seja algo inédito a mim. E se este texto parece meio infatilóide, me desculpem. É a vibe de um ariano gostando demais.

Com bastante consciência e responsabilidade para com o Beto, sei que todos os meus ex tem representações bastante diferentes do que tiveram um dia. Tenho a tranquilidade de saber que os ciclos, que caracterizavam interesses “a mais” se fecharam de maneira natural e concreta, permanecendo por alguns deles – dentro de mim – o sentimento de fraternidade e resolução.

Claro que essas palavras não garantem nada na prática. Mas o que sei, na prática, é que mesmo sem fechar um mês ainda, eu e o Beto fizemos nosso domingo como Dia dos Namorados. Trocamos presentes e ele me trouxe um bilhete super fofo. O intento, a intenção, a vontade de experenciar o sentimento de namorados, se concebeu de ambas as partes, cientes de uma velocidade que caracterizaria uma falta de maturidade! Talvez, não fosse a sensação de uma grande sintonia e um sentimento de estar a vontade desde o primeiro dia em que nos vimos. De ambas as partes, não parece existir insegurança de ver qual é. Esse sentido tem definido a dinâmica de nosso começo.

Estou fazendo valer a ideia que já expressei aqui, quando dedilhei as minhas primeiras impressões sobre o Beto: “eu não tenho nada a perder”. E pelo visto, só tenho ganhado. Ele é um mundo de novidades e acho que vale a pena lançar algumas impressões sobre ele neste post (ele que me perdoe se eu o expuser demais. Mas acho importante o registro):

  • O fato dele ser formado em exatas parece besteira. Mas até então só me envolvi com pessoas da área de humanas: arquitetos, designers e, o menos “humano” talvez, foi um deles que fez comércio exterior. O jeito do Beto é diferente. Ele é mais reservado, focado e sério. Isso tem me agradado demais;
  • Conseguimos ter momentos de silêncio, logo de começo, sem entrar em paranoias embora – apesar dele ser reservado – temos uma incrível sintonia para falar de diversos assuntos e conversar por horas;
  • Parece bobo, mas o jeito desenvolto, respeitoso e educado que ele tratou a Geni, minha faxineira, no primeiro contato, me chamou a atenção;
  • Vivemos uma infância praiana. Gostávamos de criar girino e cuidar de insetos, como lagartas, para depois ver esses bichos passarem pela metamorfose. Parece bobo também, mas tal similitude – rara – me veio como aconchego;
  • Ele tem um jeito diferente de falar, um “jeitinho” que me passa a sensação de pessoa inteligente. Esse “jeitinho” é engraçado e vira e mexe fico dando risada “do nada”. Ele vira e mexe me pergunta: “O que você está rindo?”. E eu, vira e mexe, digo: “nada”, ehehe;
  • No quesito cama, eu simplesmente pasmei. Não imaginava que eu reservava ainda um fogo de 20 e poucos anos;
  • Ele tem muito bom gosto para se vestir. Me deu um presente que ele se daria. E eu dei a ele um presente que eu me daria (RISOS). E saber que nesses intentos de se autopresentear, ambos curtiram – o que é raro – nossos gostos combinam;
  • Ele é uma pessoa carinhosa, na mesma medida que eu também. O frio na cidade tem sido ótimo pra gente perceber que conseguimos dormir grudados;
  • Eu e ele estamos vivendo essa intensidade sem medo da “loucura” do que é tudo isso e, acima de tudo, sem reais barreiras formadas por casos passados e sentimentos mal resolvidos. Essa pureza na conexão é tão difícil!

Reli todo o texto e me pareceu adolescente demais. Pensei em não publicar por uma certa vergonha. Mas me conhecendo, é bem isso. O amor de um ariano é juvenil. Para quem está com 39 anos, preservar esse jeito me parece ser uma virtude. Uma pessoa trazer tantas novidades assim para mim, é o mesmo que dar doces para uma criança.

Eu só tenho a agradecer o Beto. <3

 

5 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Não sei, mas a impressão que tenho é que vc já está em uma outra ‘vibe’ agora, e rompeu os laços com esse passado complicado, desafiador, turbulento, que você talvez não tivesse tanta consciência, mas tinha que passar por isso, até por uma questão de auto-afirmação, mas enfim, perdoe-me estou apenas conjecturando.

    O velho ditado diz que depois da tempestade vem a bonança, quem sabe não é agora?

    1. minhavidagay disse:

      Hum… Não posso dizer que não tive bonanças em todos relacionamentos que vivi e que considerei. Tive ganhos para a minha maturidade em todas experiências. Mesmo vivendo inícios meio tumultuados ou descompassados, o tempo que se estabeleceu em cada relacionamento foi bastante representativo, diante os aprendizados adquiridos.

      A mim, a bonança está quando o indivíduo está aberto, inclusive para um relacionamento. Quando está “limpo” melhor ainda. E se a vida nos permite o encontro com outra pessoa “limpa”, é incrível pela raridade. Muito de nós, gays ou heterossexuais, deixamos certas pendências e não fechamos determinados assuntos para seguirmos “limpos”… a pureza na conexão é rara.

      1. Pedro disse:

        Confesso achar estranho, eu nunca tive essa ‘pureza de conexão’ com ninguém, e eu sou do tipo que preciso experimentar pra entender, mas talvez isso de não saber ocorra pelo fato de não estar aberto ainda pra esse tipo de coisa, isso tem muito a ver.

        Realmente é difícil dizer que as coisas são só ‘tempestades’, a vida é esse sobe e desce emocional o tempo inteiro e conseguimos retirar lições interessantes e algum prazer significativo de todas as nossas experiências.

  2. André disse:

    Ah que fofo! Não tem nada de infantil no texto, que bobagem rs. E pode ser que esse estado de ‘pureza’ seja o resultado de todas as ‘desventuras’ vividas nas suas relações anteriores, Flávio. Que claro, como você afirma, tiveram seus momentos bons também.
    Faço um gancho aqui com a pergunta do post anterior: Quem é você para um relacionamento? Neste texto, você deixa muitas respostas.

    1. minhavidagay disse:

      Hehehe… espertinho você! O post anterior me inspirou para esse. Foi a forma que eu busquei responder a pergunta “Quem sou eu para um relacionamento?”, que eu mesmo fiz para os leitores… rs.

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