Homens que saem do armário depois dos 30 anos


Se entender gay depois dos 30

Ao contrário do que se aparenta, há muitos homens que darão vazão à homossexualidade depois dos 30 ou 40 anos. Intimamente, conheci um deles no tempo em que trouxe para perto pessoas que estavam com um pé no armário e outro fora e atuei, de certa forma, como mentor por aproximadamente 3 anos. Contatos que vieram por aqui. Dei um tempo a esse tipo de “trabalho” e tenho pensado e formatado ideias de como retomar de modo mais profissional.

Nesses anos de Minha Vida Gay, com intersecções com a minha vida real, fora da tela, conheci outras pessoas com esse perfil, mais maduros e numa busca de compreensão sobre a homossexualidade inside. Digo “homossexualidade” e não propriamente “gay” porque nem sempre o ato da transa entre dois do mesmo sexo se qualifica como uma prática gay.

A exemplo claro de um querido cartunista, o Laerte Coutinho, que durante 59 anos da vida assumiu casamentos com mulheres, filhos e romances com homens para, aos 60, iniciar sua vida como crossdresser (hoje em dia não sei se ele se apresenta como transgênero ou transexual), o encontro de um indivíduo com a sua identidade sexual (e de gênero) pode se desenrolar em mais ou menos tempo.

Muitos jovens gay, em tempos atuais, tem o encontro com a identidade sexual e de gênero na fase de pré-adolescência e adolescência, tal qual os jovens heterossexuais. Diante de um maior esclarecimento sobre a sexualidade, o sentido inclusivo do gay no contexto social nas grandes capitais e o agilizado acesso à informação e conteúdos pela Internet, correlações de identificação são mais rápidas. Mas não quer dizer, principalmente em contexto nacional, que um jovem gay saia do armário com mais facilidade. Talvez, ele saiba o que é e do que gosta, mas a redoma cultural cristã e machista ainda existe. Tal redoma se fixa em partes dentro da mente do próprio indivíduo e na sociedade.

Das pessoas que conheci – acima dos 30 anos – e que apresentavam desejos homossexuais, vi indivíduos que optaram por uma vida assexuada, quase que celibatária, e outros (mais comuns) que seguiram a cartilha heterossexual, com namoradas, esposas e filhos. Em um “mix” de personalidade e contexto em que nasceram, alguns (muitos) homens fazem e fizeram assim. O despertar, o aceitar e a consciência de que se é – por exemplo – gay, para alguns é uma longa procrastinação. Para outros, talvez com 80 anos não serão jamais assumidos.

Será que são minoria em relação aos homens e meninos que se definem como gays? Não sei e estou certo que não há pesquisa estatística de qualidade que defina uma resposta com precisão. O que sei é que a gente não senta para fazer uma pesquisa dessas a ponto de responder com naturalidade: “tenho uma namorada, quero casar com ela, mas ao mesmo tempo tenho uma ‘coceirinha’ – de tempos em tempos – para sentir na pele o toque de um outro homem’. A redoma cultural cristã e machista é, em certa medida, espessa para todos.

No meu ponto de vista, o não enfrentamento “tardio” sobre as questões do próprio desejo homossexual, mediante o contexto em que o indivíduo vive, nem sempre representa covardia. Claro que para os extremistas e radicais (gays) é tido dessa forma. Para mim, é processo e para alguns homens, regado de dúvidas e confusões.

Até meu último tempo de solteiro, como relato no post recente, “No banquinho do Piroca’s Bar”, fiquei algumas horas conversando com um rapaz, 40 anos, e sempre que posso, busco conhecer vivências de caras com perfis semelhantes que – em um determinado momento – poderão se assumir como gays e, outros, provavelmente não. De certo, o que tenho feito com homens desse perfil é uma pesquisa qualitativa que, tranquilamente, poderia virar uma reportagem (se eu fosse jornalista) ou um estudo de identidade sexual, se eu fosse algum pesquisador ou estudioso. Certamente, darei alguma finalidade mais produtiva e enriquecedora para a própria sociedade, em algum momento. Estou formatando a ideia…

Por hora, deixo aqui no Minha Vida Gay tais reflexões e realidades para que o homem ou mulher (gay, confuso e/ou heterossexual curioso) saibam um pouco mais do que há para além das normatizações.

Aqui, no MVG, a simples curiosidade não coloca ninguém em caixinhas. Não é à toa que já recebi por e-mail, elogios de homens e mulheres heterossexuais, casados ou não, simpáticos a abordagem inclusiva que tento expressar nestas linhas. Nesta redoma cultural cristã e machista, até tais heterossexuais acabam dentro do armário.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

2 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Tempo, um ‘deus’ abstrato, cuja a presença é tão concreta e interveniente em nossas vidas. Pra uns implacável, pra outros redentor. Tempo, tempo, tempo.

    Todos sabemos o quão desafiador é o processo de entendimento e aceitação da nossa sexualidade, e este processo como qualquer outro de natureza individual é idiossincrásico. Isto, claro, também envolve a questão do tempo.

    Hoje vivemos uma realidade muito diferente, mais permissiva e eu diria até de certa forma complacente com as condutas sexuais divergentes da ‘norma heterossexual’. Mas, sabemos que isto não ocorreu sem luta, e que ainda é possível que estejamos longe de uma ideal convivência.

    A religião condena, a sociedade condena, e nós também nos condenamos por isso. Mesmo pra quem não viveu períodos tão difíceis, é algo a se notar que tudo isto deixa marcas indeléveis em muitos de nós, quase todos.

    Tornar-se consciente, enfrentar tudo e todos, inclusive nós mesmos por vezes, faz parte deste processo todo. Pra uns mais cedo, pra outros mais tarde, e aí entra o tempo que cada um tem pra enfrentar este desafio, pra começar a entender e aceitar tudo isso. Eu comecei aos 22 anos, mesmo que de uma forma ‘rudimentar’ (rs), e ainda luto pra tentar buscar o ‘meu lugar ao Sol’ neste contexto todo. Alguns começam mais cedo, outros mais tarde, mas independente disso, eu hoje acredito que sempre vai valer a pena.

    Afinal sabemos que a sexualidade é a força propulsora da vida, fonte prazer e criatividade, e uma questão central constitutiva do indivíduo. Como já dizia Freud no início do século XX, que talvez tenha sido o primeiro a começar a abrir essa verdadeira ‘caixa de Pandora’.

    Sobre o texto em si, achei interessante o fato de ter citado Laerte Coutinho, em entrevista foi relatado por ela que antes de se entender como transgênero, foi muito difícil aceitar que era ‘viado’ (sic).

    E considerando o fato de que se trata de uma pessoa de certa maneira privilegiada dentro da nossa sociedade, famosa, bem-sucedida profissionalmente, dentre outras mil coisas. Disso tudo eu sei que se antes já admirava o trabalho de Laerte Coutinho como cartunista, roteirista, enfim, dentre outras coisas, hoje a admiro muito mais como o ser humano bonito que é. Já disse antes e repito, Laerte é uma inspiração pra mim.

    Queria concluir falando que eu acho que uma leitura legal, pra todo mundo que é gay e sobretudo o pessoal que se encontra na situação do post, é o livro ‘Tornar-se gay’ do psicanalista americano Richard Isay. Neste livro Isay traz a sua experiência como marido, pai de dois filhos, psicanalista, do processo de aceitação e assunção pública de sua sexualidade e identidade sexual, além de relatos de sua experiência clínica sobre o assunto.

    Não sei se o livro tá fora de catálogo, mas acho que vale a pena conferir porque não deixa de ser uma referência pra quem tá buscando uma ajuda, ou até mesmo algum tipo de alento nesta situação.

    É isso aí.

  2. San bonassa disse:

    Eu que o digo !!!!rs

    O incrível que depois de assumindo é como se minha vida estive começando naquele momento , com direto até mesmo fase adolescente ,rs , com direito muita pegação e baladas.

    Graças a Deus que as fases passam rápido, chegando ao amadurecimento compatível com a minha idade.

    Curtindo muito mais parques , atividades físicas e restaurantes.

    Quase esqueci …..não virei travesti !!rs.

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