Solteiro convicto ou namorador obstinado?

No vai e vem das emoções do Minha Vida Gay

Acontece um fenômeno interessante no MVG, de tempos em tempos, que consigo medir pelas pessoas que seguem o Blog por e-mail ou por serem blogueiros: quando estou solteiro e narro minhas experiências como tal, abandonam o Minha Vida Gay o perfil mais romântico, inspirado pelas palavras quando estou me relacionando. Quando estou em algum envolvimento afetivo, menos ou mais intenso, povoam os inspirados pelas histórias e pensamentos sobre relações e afetividades e deixam o blog muitos dos que cultuam certa “solteirice convicta”.

O fato é claro: tirando temas genéricos sobre as conveniências e inconveniências da vida gay, é até natural eu trazer experiências pessoais, aquelas que tenho vivido no presente momento. Revendo alguns posts antigos, percebo que – quase que de maneira equivalente – minhas vivências solteiras ou compartilhadas, em par, são inspiradoras, no sentido de quantidade de produção por aqui. Em outras palavras, escrevo num mesmo tanto nas diversas fases da vida.

Já tinha percebido tal fenômeno há um tempo. Quando findava relações e começava a vasculhar o universo solteiro, alguns leitores já até manifestaram declarações de abandono ao blog e até mesmo certa decepção, conferindo espaço para um outro perfil, que de certa maneira, se envolvia e se manifestava mediante aos relatos nas baladas, aplicativos, Chilli Peppers e etc.

Longe de estar me referindo a uma maioria que, de tempos em tempos, volta ao Minha Vida Gay para fazer uma leitura, mesmo que sem se manifestar ou mesmo deixando algum comentário. O fato é que existe uma minoria que, aparentemente, ou está lá, no universo dos gays solteiros e convictos, ou está cá, como gays valorosos quando as circunstâncias nos levam a relacionamentos afetivos.

Água e óleo e, de alguma maneira, um acaba repelindo o outro. Ou melhor, quando estou para um lado, repele-se quem está na outra ponta. E quando estou na ponta, afugenta-se aqueles que estão do lado de lá. Provavelmente ambos devem achar que sou louco! rs

Acho interessante este movimento. Como será então, para alguém que carrega isso tudo junto e misturado por dentro, como eu? Eu, no caso, não pela questão do ego (pessoal), mas por ser de certa maneira portador de todas essas sentimentalidades e vivências que estimulam os polos (e os meios), como será?

Eu que uso o MVG para expor o que muito (ou o que pouco) de nós, gays, temos por dentro?

Bom, o que posso dizer é que não existe conflito e sim a coexistência. E cada vez mais. Antigamente, os nós eram mais apertados. Muito mais. Quando o Flávio assumia o tempo do solteiro-puto, não deixava o Flávio-de-par respirar. Vice-versa. Eu era muito rígido e duro comigo mesmo. Quando um tomava as rédeas, era como se o outro virasse a representação do maior pecado. E vice-versa.

Há alguns anos, desde meus 33 (ou seja, 6 anos), venho afrouxando esses nós por mim. Oportunidade que tenho me dado para me tornar mais leve e, certamente, muito menos radical. Autoaceitação. O pensamento binário se perde nessas horas. Deixa de existir a ideia de “ou um ou outro”, de “um competindo/conflitando com o outro” e, consequentemente, a sensação de “céu ou inferno” dentro de mim se finda. Comecei a entender que é possível ser “maior” aceitando tudo que sou. Tal feito é deveras emancipatório em relação a qualquer crítica daqueles que, alguma vez, já me julgaram por um ou por outro.

O Flávio de antes quando começava a namorar, omitia totalmente o outro (mesmo porque nem tinha ainda se dado conta de sua existência). Estou falando dos 23 anos até os 33, mais ou menos. Era rigoroso quanto a fidelidade do outro e suprimia os sentimentos que eu tinha sobre certas fantasias para realizar que não eram, assim, tão cristãs (rs). Quando o Flávio descobriu tais “diabinhos”, foi um susto, um medo mas, acima de tudo, muita cara de pau para fazer valer o avesso da inocência. Hoje não tem nada de avesso. Mas na época tinha.

Estou contando assim, de dois Flávios, por que o binário me parece mais didático; a cultura cristã fez assim e, enraizada na gente, fica fácil de entender. No fundo, já era tudo junto e misturado desde sempre, mas confuso e bagunçado. Tinha muita de autorepressão.

Hoje, como resultado dessa aceitação, todas as pessoas que tenho algum contato mais íntimo saberão de tudo que sou. Sem fazer “a linha” ou “o tipo”. Com isso, claro, alguns pulam o barco fora (RISOS), como já aconteceu um punhado de vezes! Outros não e, assim, levo a minha integridade a frente e, já no prefácio, busco estabelecer um contato de lealdade perante o outro.

Não que vá acontecer, mas o Beto ficou curioso para saber mais sobre a Chilli Peppers no domingo passado, quando sentamos para relaxar um pouco no Athenas depois de uma boa caminhada. Eu contei um pouco mais e disse que poderíamos ir se ele tivesse interesse de conhecer. Como disse, não que tal situação irá acontecer, mas o Flávio “total” é esse, que não iria enrustir mais seu lado “endiabrado” e não é porque o Beto tem ganhado contornos de “meu” que existiriam restrições, desvios ou desconfortos para conversar sobre o assunto. Tampouco, agir assim representa um “não estar gostando o suficiente”. Sei bem o quanto bate por dentro…

Ser assim, pra mim, faz valer algo de “nós”.

Eis um exemplo, do resultado da minha totalidade (a que eu enxergo hoje). Outrora, não teria estrutura para levar tais ideias.

Solteiro convicto ou namorador obstinado? Tanto faz! Desde que se banque as dificuldades e certos conflitos que há em ambos os casos. Na prática, claro. Porque na teoria tudo é muito fácil.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.