Os prós e contras de morar sozinho


Depois de quase 3 anos de casamento

Este post é inspirado no texto anterior, “Vida gay aos 39 anos”.

Dos 25 anos aos quase 28 fui casado e vivi com meu ex debaixo do mesmo teto. Depois disso, quando a relação não deu mais certo, não passou pela minha cabeça voltar para a casa dos meus pais. É certo que eles moram bem perto de mim, o que me beneficia com almoços frequentes. Mas só. São mais de 13 anos que sai da casa deles e bastante jovem. Não consigo mais dizer que a casa deles é a minha casa…

Confesso que a aventura de sair da casa dos meus pais foi muito gostosa e saudável graças ao meu ex. O começo foi muito bom e bem heteronormativo: casa, cães no quintal e um casal feliz. Um cozinhava e cuidava dos cachorros e outro da casa. Existia toda uma idealização de morar junto como um par e convém dizer que, naquela época, minhas condições emocionais e materiais para sustentar um espaço sozinho não eram lá essas coisas. Em termos materiais, para falar a verdade e lembrando hoje, não sei como consegui! O que eu sabia era que meu sócio ia se desligar da empresa – que começava a engatinhar – e eu não queria mais viver em atritos semanais com meu pai. Então, por volta de 2002, eu assumia minha recém nascida empresa sozinho e um casamento. Tudo junto e misturado, literalmente (rs). Papai se voltou contra a minha saída – não sabia que eu iria morar junto com alguém, mas repudiava a ideia de eu sair de casa sem seu consentimento – não quis ser meu fiador e ficou um ano sem falar comigo! (rs).

O fim da minha relação de casado criou um cenário até que propício para eu levar a ideia de morar sozinho com desprendimento e querer: tornou-se uma relação muito controladora, de ambas as partes e lembro que sentia um grande sufocamento. Um enorme sufocamento.

Quando não estávamos mais juntos, pintou um sentido de liberdade e autonomia. Já sabia trocar chuveiro, lidar com pedreiro diante vazamentos, já cuidava dos meus cachorros entre idas e vindas ao veterinário e há quase 3 anos, meu ir e vir, se eu estava bem ou mal, era comunicado pontualmente a minha mãe que passou a visitar eu e meu ex depois de um ano. Pontualidades apenas. Naquela época, minha mãe não era tão amiga como é hoje (rs). Era mãe, ainda no arquétipo mais comum.

Ficar um longo período sem falar com meu pai, de início, teve um grande benefício: um sentido de emancipação material forçado já que, até então, dias antes de sair da casa deles, ele participava em minha vida como provedor financeiro. Fiquei “sem pai” por um ano. Até que um belo dia, durante um trajeto até um cliente, ele me ligou todo arrependido (rs). Eu tinha 26 anos e de lá até meus 33 (mais ou menos) a gente ia tretar muitas vezes ainda! (rs).

Depois que me separei, fiquei mais sete anos naquela canto alugado. Meu ex voltou para a casa de seus pais e nos vimos umas duas vezes depois, uma logo que terminamos, quando dividimos alguns bens e quando fiz minha “grande festa de aniversário”, aos 33 anos e juntei todos meus ex até então.

Hoje estou há 4 anos numa casa que comprei.

Vou dizer que morar sozinho tem mais prós do que contras. Ultrapassar a barreira / carapaça / fronteira de “chegar a noite e não ter com quem conversar” é difícil. Mas como apresentei, as minhas circunstâncias fizeram ser mais fácil. Ou eu achei mais fácil, de qualquer forma.

Sempre preferi casa ao invés de apartamento. Pelo espaço, pelo quintal e por preferir cachorros maiores. A questão de segurança, raras vezes dominou a minha mente. Moro no mesmo bairro há mais de uma década e conheço todo mundo de vista. Alguns mais próximos. Qualquer região em São Paulo terá seus “pontos de droga” e no meu caso, inclusive, sei quem são os “donos da boca”. Saber fazer a política de boa vizinhança ajuda muito e ter uma boa conduta com os malandros, garante uma “invertida segurança”: quanto mais longe a polícia estiver da região, melhor. Assim, existe um mito (ou verdade) de que os malandros da região salvaguardam os bons moradores. Funciona assim em todos os bairros. Acreditem.

Quando adquiri meu imóvel próprio, uma mudança emocional e psicológica se estabeleceu: “é meu”. E naquele mesmo contexto, há 4 anos atrás, eu deixava de realizar enormes festas e de precisar ser super querido por todos meus amigos. O sentido de aconchego foi mudando. Estava muito mais feliz comigo e, assim, os encontros em casa foram se tornando menores, mais espaçados e muito mais seletivos. É como se “na minha casa de verdade” (aluguel sempre pareceu “de mentira”) fossem entrar apenas pessoas selecionadas.

Investi bastante em decoração para deixar do meu jeito. Não coloquei campainha (e não pretendo colocar) porque visitas educadas, a gente sabe, sempre tem hora marcada.

Estou eu, meu cachorro, meu carro na garagem e minha casa. Tem horas que bate um sentido de solidão? Olha, não vou dizer que não, já que solidão me parece ser um estado de espírito que nos provoca sempre quando não estamos bem conosco. Mas confesso que todas as circunstâncias me propiciaram a desenvolver o sentido de solitude. Parece besteira, mas a positividade dos meus cães foram um bálsamo para os momentos mais difíceis.

Numa condição de estar só, aprendemos algo bastante importante: descobrir ações específicas que nos preencham. No meu caso, posso citar a academia, o Tango (meu cachorro), o Blog MVG que me faz entrar em contato comigo a cada linha e, acima de tudo, um sentido de ir e vir para onde quiser e quando quiser. Essa autonomia é definitiva.

Os amigos são importantes, claro. Mas a medida que vamos nos tornando adultos, cada um vai tomando um rumo mais centrado na própria vida também. A coisa “de galera” vai se espaçando, as pessoas vão adquirindo suas agendas, alguns casam, tem filhos, outros vão morar longe, uns se distanciam porque perde-se a sintonia e assim por diante. “Adultecer” e lidar com esses movimentos fazem parte.

E onde um relacionamento, hoje, entra em tudo isso?

Como já me expressei por aqui, um relacionamento com um nível de qualidade, entra naquele espaço de um indivíduo inteiro (eu) ter o privilégio de estar bem acompanhado (ele). Reservo os melhores tempos livres para estar com o Beto, sem deixar de me entreter com amigos. O Beto tem o universo dele, eu tenho o meu e, naturalmente, faremos intersecções desses dois mundos. Em que medida exata, só o tempo dirá, mas da minha parte tenho a certeza que não há a cobrança para ser “assim ou assado”. Quero que ele seja ele e se tivermos que aprender um com o outro que seja naturalmente. Eu estou disponível para conhecer o “mundo” que ele é, sem precisar autoafirmar isso ou cobrar. Me tornei assim hoje e me parece representar a essência de um relacionamento saudável.

Fiz uma vez uma analogia num post antigo, como se fôssemos uma pizza. Muita gente se inspirou naquele conteúdo. Vou redesenhar a minha “Teoria da Pizza” agora: cada fatia representa uma importância em nossas vidas. Para exemplificar eu diria que cada pedaço da minha pizza representa: (1) família, (2) estudo e trabalho, (3) amigos, (4) meu lar, (5) projetos, (6) dinheiro, (7) saúde e (8) meu cachorro. Meu relacionamento não é mais uma fatia, como outrora sugeri na teoria. Ele é uma outra pizza, nunca antes vista (pelo menos nessa vida – rs), que chegou ao meu lado e que, por algum magnetismo, me chamou a atenção e vice-versa. Ficamos “grudadinhos”, mas as fluências de cada fatia da pizza vai rolando em paralelo. A oportunidade está (milagrosamente) aí, na alegria de estarmos lado a lado, nos empenhando para fazer o melhor e nos dar apoio, quando necessário, nos altos e baixos e vai e vem de cada fatia.

Filhos, hipoteticamente, unem as pizzas? As vezes sim, as vezes não. Se a gente for pensar bem, não mantém mais nem as pizzas heterossexuais! =P

Não nascemos grudados a ninguém (a não ser por um cordão umbilical a nossas respectivas mães que, no ato do nascimento, é rompido). A simbologia do corte é bastante representativa: estamos entregues ao mundo.

Tenho aprendido muito sobre solitude, morando sozinho.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

8 comentários Adicione o seu

  1. Jobs disse:

    Aaahhh, Flávio!! Eu comecei a morar recentemente sozinho, depois de passar em um concurso na minha cidade, que fica no interior do RN. rsrs Cidade pequena… tem todo aquele contexto conservador que já sabemos e tals. Enfim, mesmo nessas condições, eu estou adorando! Meus pais aparecem de vez em quando para ver se preciso de algo (ou se há algum estranho na área… Não duvido disso. rsrs) e trazer comida, porque sou péssimo na cozinha. hahahaha Mas tudo bem….rsrsrs Bom, de todo modo, o fato de conseguir a minha independência financeira e morar sozinho está me fazendo muito bem. Sempre morei na casa de familiares para estudar, cursar faculdade, passei um tempo na capital, e agora retornei à terrinha. Por ocasião de estar morando sozinho, estou tendo essa liberdade de chegar em casa em qualquer hora, trazer amigos (ficantes ainda não! Porque aqui as fofocas correm mais rápido que qualquer coisa nesse mundo. Além disso, a oferta é reduzida. Os apps aqui não ajudam muito) e poder fazer o que quero protegido pelas paredes de casa, como por exemplo dublar as divas do pop. kkkkkk E até a minha vontade de namorar está desaparecendo (apesar de ter 24 anos recém completados, nunca namorei) e espero que ela não dê às caras tão cedo. Deu-me uma vontade de aproveitar o meu suado dinheirinho comigo mesmo e me permitir viver coisas que não pude até então. hahaha Tenho algumas poucas (os) amigas (os) aqui e prefiro sair com eles. Não sei… Sinto-me mas independente e completo, ainda que por vezes sinta aquela maldita carência, desejo de dormir ao lado de alguém… Mas passa. rsrs

    Enfim, queria apenas compartilhar a minha visão sobre o tema do post. Achei que era pertinente. :)

    Abraços.

  2. neto silva disse:

    Quando nossos pais deixam de ser pais e mães tornam-se nossos amigos, fica muito mais fácil lidar com a questão “sair ou não da casa dos meus pais”. De fato, quando ja passamos ha muito dos 20 ou dos 30 nossa consciência pesa pelo fato de morar com eles. É como se ainda não tivéssemos cumprido o ritual da saída da casa da mamãe. Pois bem, esse ritual não precisa mais ser cumprido. É uma etapa que se cumpria mo século XX. Casava-se e mudava-se de casa. Hj em dia isso não está mais acontecendo. Diversos fatores explicam isso: Problemas financeiros dos filhos e dos pais, solidão e súplica pela companhia dos filhos na casa da mamãe, ou simples vontade de continuar compartilhando a vida com eles. Meus pais não me dão mais ordens, não mandam mais em mim, as vezes eu que tenho que dar uma bronca neles. Eles não sao idosos. Estão na faixa dos 50 anos. Eu tenho 31 de idade. Somos grandes amigos. Saímos todos os finais de semana para tomar café. Saímos para a praia. As vezes saímos com meu namorado. As vezes vou ao cinema com minha mãe. As vezes fumo um cigarro com meu pai. Eu sou financeiramente independente. Tenho estabilidade financeira. Ganho relativamente bem e moro com eles por opção (minha). Minha mãe não lava minhas roupas, eu lavo. Minha mãe não faz minha comida todos os dias . As vezes revezamos as tarefas eu meu pai, minha mãe e minha irmã. Quando a família – pai, mãe filhos – se horizontaliza harmonicamente mantendo o respeito um pelo outro, não vejo o porque de doe na consciência por ainda não ter saído da casa dos pais. Eu ja tive a experiência de morar sozinho. Não foi nada agradável. E certo que o fator privacidade conta quando moramos com alguém. Mas no mundo de hoje em que privacidade é um valor quase que perdido, prefiro ficar na companhia dos meus velhos e queridos pais. Assim, me sinto mais acolhido, mais amado, mais independente, mais feliz.

    1. minhavidagay disse:

      Realmente, Neto! A geração Y e seus pais tem mudado bastante essa ideia de emancipação dos filhos. Não há propriamente nenhum problema nisso. Na realidade há prós e contras como tudo na vida. Eu citei prós e contras de morar sozinho, o que não faz o seu estilo de vida ser nem melhor nem pior. São escolhas…

  3. Ricardo disse:

    Já fez algum post sobre essa festa que reuniu todos os ex? Adoraria conhecer essa história.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Ricardo! Já escrevi sim, mas nada em detalhes sobre a reunião. Apenas passagens sobre meus 33 anos, que foi emblemático por ter marcado um final de um ciclo e emblemático por eu ter reunido todos os ex, da época rs.

  4. Neto silva disse:

    Hey, Fávio. Claro que meu estilo de vida não é melhor (nem pior) que das outras pessoas. Apenas afirmei que prefiro morar com meus pais. Antigamente se saia de casa ou por pressão dos pais ou porque as pessoas queriam ter a liberdade que hj em dia já se tem na casa deles. É fato que a casa é deles, mas o lar é de todos, principalmente quando todos pagam as contas, todos administram as despesas e a boa harmonia da casa. Levo meu namorado pra casa justamente porque colaboro. Não saio correndo da casa deles, justamente porque eles também colaboram comigo. É uma relação realmente horizontal. Mas não significa que seja a melhor e muito menos que seja ideal. Foi uma escolha que, pela minha trajetória de vida e a historia da minha família, achei adequada. Isso não exclui o fato de um dia eu vir a querer morar só ou me casar e sair de casa. Confesso que as vezes penso sobre isso. A vida é feita de varias escolhas sucessivas. Quem sabe um dia vir a morar só não será a próxima? Eu não descarto essa possibilidade.

    Seu post foi inspirador. Me fez refletir muita coisa. Continuo sempre agradecendo por você iluminar minhas ideias com o MVG, mesmo quando concordo em parte com você. Abraços.

  5. Maria Araújo disse:

    Adoro ler este seu espaço tranquilo e doce.
    Não sou gay, sou heterossexual, sou mulher, vivo sozinha, mas estou aqui a lê-lo porque a história da sua vida é tão sensata que me revejo nela.
    Aliás, os prós e os contras de viver sozinho são os mesmos das mulheres, pelo menos eu sinto pelo que aqui partilhou e acho que são mais os prós que os contras.
    Tendo um(a) companheiro (a) penso que funciona melhor cada um viver no seu espaço. Juntam-se quando assim o entenderem.
    Tem sido esse o meu desejo e o que vivo.
    Hei de voltar cá.

    Cumprimentos.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado querida! Muito bom ter uma frequência de meninas por aqui! :3

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