O dia em que reuni todos meus ex-namorados

Eu, eles e a minha festa de aniversário

A pedido de um dos leitores do Minha Vida Gay, retomo com mais detalhes a situação bastante atípica, do ponto de vista do que é normativo e culturalmente esperado: na minha festa de aniversário de 33 anos reuni todos meus ex-namorados, incluindo o que eu estava conhecendo na situação, o ex-Beto.

Curiosamente, foi a minha última grande festa, numa sequência de baladinhas em casa que eu realizava há mais de 5 anos, não só para comemorar meu aniversário. Confesso que no dia daquela grande reunião (que juntava não só meus ex, como todos os diversos grupos que eu frequentava), entre um gole e outro de vodka Absolut, me movimentava entre as pessoas e me vinha uma sensação de que aquele tipo de celebração seria a última. A última de um ciclo de vida que se fechava, de um cara (altamente) festeiro e fervido, extrovertido, bom bebedor que não se embriagava com facilidade (nem ficava vermelho, como é comum em orientais) e que, de alguma maneira, sabia construir um nível de intimidade e afetividade com um pouco de cada um que estava presente.

Nunca me senti pertencido a um único grupo e nunca tive “o melhor amigo”. Assim, naquele noite vieram meu irmão e um amigo, meus amigos do colegial, os da faculdade, meus ex-sócios da produtora de áudio e alguns amigos em comum, meus sócios da escola de música, os integrantes da minha equipe, os ex-integrantes e parceiros, um ou outro vizinho, meus amigos gays, meus ex-namorados e agregados, o ex-Beto e alguns de seus amigos. Chutando por baixo, umas 50 pessoas. Como era de costume, oferecia as comidas e as bebidas. Ganhava muitos presentes.

Relembrando hoje, o ato de reunir meus ex obviamente teve como objetivo um louvor ao meu ego, natural das celebrações de aniversário, mas com um toque especial do jovem Flávio, entusiasta que eu era. Mas para quem acredita no sentido espiritual da coisa (e eu acredito), teve uma energia do fechamento de um ciclo – nítido a mim – como citei acima. A curiosa experiência deles terem aceitado, cientes que o convite se estendia a todos eles, sela tal passagem. Se tivesse faltado apenas um, penso que a representatividade do ato perderia o sentido.

Alguns estavam acompanhados com seus respectivos namorados. Outros, solteiros. O fato é que o “Pedra” tinha sido meu último até o Beto. O término com o Pedra foi bastante turbulento e foi o estopim para eu viver meus “céus e infernos” como relato no post de título semelhante. Post que até hoje é, curiosamente, um dos mais lidos no MVG.

Eu ainda tinha algo mal resolvido por ele, mesmo iniciando com o ex-Beto. Mas era algo que a época eu não conseguia traduzir em palavras; era bastante confuso. Eu tinha, na realidade e com a consciência de hoje, uma culpa fantasiosa que fui resolver muito tempo depois. E eu sentia que da parte dele, mesmo também com alguém, existia uma emoção diferente por mim, algo que pude comprovar tarde daquela noite, quando a grande maioria dos convidados já tinham ido embora. Eu estava sentado ao lado de seu namorado e ele estava no extremo oposto. Na realidade, trocava ideia com o namoradinho e percebia o Pedra me olhando fixamente. Era nítido aquele sorriso e o brilho em seus olhos, focados em mim. Aquele gesto sutil, a mim, não precisava de legenda.

Mas como muitas vezes fizemos, preferimos deixar no subentendido. Ele estava namorando e eu estava começando com o ex-Beto. Tive a primeira e única percepção de que era possível estar e gostar de alguém, mas estar envolvido por outra pessoa ao mesmo tempo. Assunto humanamente “cabeludo” para outro post… =P

Se eu for falar de paixão, tema tão subjetivo e difícil de traduzir em palavras, tal qual o amor, foi por ele que vivi uma das mais marcantes. Foi uma grande idealização por alguém e foi quando aprendi que idealizar demais pode ser uma loucura.

Voltando ao tema, como anfitrião da noite, minha atenção era partilhada entre todos os convidados. Teve um momento em que pedi um registro de foto e infelizmente um deles, o que mora até hoje em Hortolândia (na região de Campinas), já tinha ido embora com seu namorado por causa do horário e da distância.

Grande parte dos meus amigos conheciam todos meus ex e não foi difícil entreter aqueles que estavam solteiros. “ONG” como eu era, tinha (e acho que tenho) a habilidade de mesclar pessoas bem diferentes, formando grupos heterogêneos. Meus amigos gays, por exemplo, que faziam parte de uma mesma “rodinha”, depois que me distanciei, se espalharam. No começo fiquei bastante chateado, mas meu ex-Beto me fez entender que o elo de ligação daquela turma era eu. Foi inclusive nessa época que eu entendia melhor o sentido de desapego por amigos, quando antes era “vital” me provar certa habilidade em comparecer e exercer a “função”.

É claro que a reunião dos meus ex-namorados se tornou um chamariz para os demais convidados. É assunto ainda lembrado anos e anos depois (rs). Não faz muito tempo que um deles ainda me questionou: “o que foi aquele aniversário!?”. É tema perante o normativo até hoje e eu, sim, adoro (rs).

Seis anos depois, agora com 39 anos, busco entender qual foi a minha real motivação para ter reunido ex-namorados como fiz. O discurso da época tinha muito do exercício do amor incondicional, da lealdade e de um certo descolamento das regras mais triviais, como “ex bom é ex morto”. Sempre gostei de certa transgressão. Por outro lado, hoje, se o dia do aniversário tem uma natural expressão egóica, por que não manifestar de tal maneira pela simples vontade? Devo e devia a quem? Creio que a situação gerou-se devido a um pouco de tudo, junto e misturado, e com o consentimento indelével de todos ex, é bom reforçar. Mas, acima destas ideias, significou a mim o jovem Flávio celebrando a chegada do Flávio adulto. O ex-Beto pode sentir bem a “metamorfose” que transcorreu nos anos seguintes. Como ele diria: “eu que o diga!”.

Houve muitas histórias com essas pessoas, dignas de crônicas e contos juvenis, repletos de dramas, intensidades, paixão, raiva e amor. Rancores e perdões. Perrengues e desbundes. E tais pessoas, principalmente materializadas em meus ex, representavam um pouco de mim dos meus 23 aos 33 anos.

Sou muito agradecido por eles, que foram fundamentais naquela etapa da vida e, possivelmente, é um sentimento de gratidão desse tipo que me confere uma energia para continuar, namorar mais e fazer de relacionamentos atos transformadores. Se eu sou melhor hoje do que ontem, divido parte da satisfação a cada um deles, seja lá onde estiverem neste exato momento.

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