Sabadão de tudo um pouco


Ex-namorado e um pouco de “céu e inferno”

Este foi um final de semana atípico para o gay que vos fala. Faz em torno de um mês que eu, meu ex-Beto, sua mãe e a minha fomos assistir a um musical. Daí que eu e o ex-Beto repetimos um encontro no sábado passado: um casal de amigos por parte dele, os mesmos que foram conosco a NYC em 2013, queria revisitar o Burger Joint que abriu em São Paulo e reviver nosso dia de “Soho em Manhattan”. Registramos fotos do encontro do musical, registramos o encontro no Burger Joint e, claro, a normatividade se questionou e se chocou (um pouco) quando notaram dois ex-namorados mantendo tanta proximidade ainda, incluindo até mães, com as publicações no Facebook. Faço para instigar mesmo e, obviamente, o interesse é levar ao questionamento.

Mas dentre tantos aspectos curiosos do ser humano, um deles é esse: no começo há um choque e um estranhamento quando “ex-sogras” e seus filhos se encontram assim (poderia ser um casal heterossexual, inclusive). Um mês depois, há o mesmo encontro quando um casal de amigos em comum quer repetir a vibe realizada há 3 anos e chama os ex-companheiros para o acontecimento.

Então, é como se a gente batesse uma estaca numa parte de uma pedra a ser lapidada e, de repente, a “sociedade” (ou melhor, as pessoas do nosso entorno, curiosas pelas postagens no Facebook) vai/vão notando que (1) “não, eles não voltaram e não vão voltar”, (2) “um está namorando e o outro está começando um relacionamento e, claro, há um mínimo de satisfação aos mesmos sobre tais acontecimentos” e (3) “dá pra ser feliz, civilizado e ético desse jeito!”. Assumir um bom relacionamento entre dois ex-namorados perante os grupos não é muito diferente do que assumir o fato de ser gay para os mesmos. Tudo que foge do que é  “normal” no que diz respeito ao comportamento geral em sociedade, gera as reações mais adversas (ou as menos). Vai depender, basicamente, do quanto se está apegado ou não aos pilares normativos. Mas no final, por tal exposição e a confirmação de que eu e o ex-Beto tocamos nossas vidas como amigos, as pessoas se acostumam.

Acostumar com as diferenças. Taí um tema que até gay precisa refletir de vez em quando.

Para encerrar essa primeira parte do post, vou dizer que a minha ex-sogra, irmã mais velha entre uma penca de irmãos, matriarca de uma família tradicional e italiana, entendeu a “brincadeira”. Felicidade saber que uma senhora, acima dos 60 anos, “brincou”, gostou e se sente orgulhosa por isso hoje. Se meu pai, que é meu pai, aceitou minha orientação como gay, por que ela não se desapegaria de sua própria rigidez ideológica de encontrar seu ex-genro que tanto gosta? Somos amigos agora e o registro está lá, rolando na página do Facebook.


 

O Matheus, um dos meninos que auxiliei a sair do armário e que se aproximou por meio do MVG fez uma festa de aniversário no próprio sábado. Fui direto da hamburgueria para seu apartamento. Como explicitei no post anterior, já não faço mais festas estratosféricas para mim e neste ano, em especial, preferi algo muito intimista. Mas assim, tenho a oportunidade de aproveitar os aniversários daqueles que gostam desse tipo de vibe, no caso, o Matheus! Da muito menos trabalho aproveitar as baladinhas dos outros! =P

Resumidamente, cada um que teve certa mentoria da minha parte pelo MVG – e que conheci pessoalmente – trilhou por um caminho bem distinto. Posso dizer com bastante consciência que é o Matheus que carrega o ar mais festivo, brincalhão e explorador em suas experiências distantes do armário. Me identifico muito com este seu lado e claro que me diverti a beça em seu aniversário! Festinha ótima.

Esteve presente também o Tiago Sammy, outro amigo vindo pelo MVG, com seu marido Michel. Ambos casaram em fevereiro desse ano, numa celebração bastante próxima do modelo heteronormativo e Cristão. Em outras palavras, distante do seu armário, o Tiago buscou por um caminho bem diferente e, na mesma medida, está bem longe hoje de seu closet.

Acostumar com as diferenças tem sido um ato importante, inclusive, para esses amigos. No começo, o que os aproximava (todos) era a singularidade da vida na concha, um pé para fora e outro pé para dentro. Praticamente quatro anos se passaram e o primeiro desafio a mim foi o meu desapego perante tais rapazes, no sentido de que era evidente que cada um seguiria por um caminho próprio, contornado pela própria concepção de felicidade. Acontecimentos naturais e até mesmo um pouco estabanados ajudaram a essa minha ficha cair com louvor (rs). O que foi muito bom para falar a verdade pois, no tipo de amizade que se estabeleceu entre eu e cada um deles, os que não conseguiram virar a “chavinha” – me tirando do “altar” do MVG – me recorriam só (e somente) quando estavam passando por algum problema (rs). O que não me parece motivo para indignação ou tristeza, mas eu já andava com preguiça! (rs).

Emblemático o exemplo de Matheus e Tiago que, nos primeiros anos, eram extremamente próximos e íntimos; algo que foi se perdendo naturalmente. Eles não se perderam de si pois houve a lealdade do encontro no aniversário no sábado. Achei singelo e bonito. Mas os caminhos que estão levando-os à felicidade, paz e autoconhecimento são simbolicamente distintos: Matheus tem agregado cada vez mais amigos gays e heterossexuais, diferentes, diversos e namora um rapaz que, juntos, se estimulam a exteriorizar e autoafirmar a vida, a criatividade e a diversidade. Por outro lado, igualmente feliz, Tiago segue por um caminho da discrição, da introspecção e de um contato religioso, da cultura Messiânica, constante. Segue a vibe que Michel apresentou a ele.

Em determinado momento, Tiago e Michel estavam na varanda no sofá e os demais todos estavam na “pixta”, na sala do apartamento curtindo música alta, bebidas variadas e muita diversão. Me aproximei do casal que estava tranquilo no sofá e brinquei entre a porta da varanda para a sala: me coloquei bem ao centro, um pé dentro da sala e outro pé na varanda. Olhei para os dois e disse assim: “nem tanto céu, nem tanto inferno. É aqui que me encontro”. Foi algo assim que eu disse e não vou lembrar se foi exatamente desse jeito pois já estava bêbado. Claro que ambos gargalharam e momentos antes já tínhamos falado um pouco mais sobre a cultura Messiânica, os ritos, o que era considerado pecado ou não para que eu – brevemente – me contextualizasse do estilo de vida que estavam adotando.

Num outro momento, já mais embriagado, lembro que o Michel chegou a mim e disse algo assim: “tenho um pouco de receio de você querer puxar as pessoas a uma coisa mais profana”. Não lembro com exatidão as suas palavras, mas esse era o sentido. E claro que, no caso e para a minha primeira impressão, ele estava salvaguardando o marido Tiago que – a bem da verdade – teve minha mão amiga no começo de todo seu processo de aceitação.

Respondi algo assim: “eu sei disso, Michel. É algo bem claro pra mim. Mas quem tem que descobrir se eu realmente puxo as pessoas para isso ou não é você mesmo. Não cabe a mim me defender ou me proteger aqui. Não é um tipo de coisa que dá para se ter razão ou não”.

Eu já estava deveras embriagado, mas achei que a mensagem foi muito bem colocada: o julgamento se eu influencio pessoas a serem “x” ou “y”, sob o ponto de vista do Michel, é algo que ele deve construir, ou não, a sua maneira.

A bem da verdade e completando a minha parte na conversa, aqui pelo Minha Vida Gay, é que eu – Flávio – assim como todas as pessoas nesse planeta, somos referências. Uns mais “fortes” e outros menos. Mas independentemente da força de envolvimento ou manipulação, liderança, carisma e etc., a resposta do Michel estava a sua frente: Matheus, sob as mesmas “influências” da minha parte no começo, trilhava um caminho quase que antagônico em relação ao Tiago. Tiago, sob as mesmas “influências” o encontrou (Michel) e trilhou por um caminho muito mais discreto, introspectivo e religioso. Eles estão construindo suas histórias e, a mim, cabe respeitar e celebrar pelo simples fato de serem muito mais felizes hoje do que ontem.

O “receio” do Michel, a fundo, me parece ser uma insegurança, de que ele mesmo tem de não ser suficiente ao Tiago. Tem medo da minha “manipulação”, algo que talvez ele acredite muito. Eu, no final, sou – em partes – um tipo de projeção das emoções, ações e desejos que o Michel teme. Não é à toa que meu ex-Japinha foi convidado a casa do casal antes de mim e eu ainda nem fui convidado (rs). Ele, o Japinha, certamente, não provoca nenhuma “ameaça” ao lar. Sem rancores ou ressentimentos, mesmo. Que aconteça comigo, se tiver que acontecer, quando o Michel não me sentir como um monstrinho! (rs). Respeito e não são as inseguranças conscientes do Michel que me fazem gostar mais ou menos deles. Continuo com um grande carinho e entendo. Da minha parte, apenas, não há condições.

O casal acabou partindo mais cedo e quando bateu 22h22 no meu relógio, tocaram no apartamento para encerrar o barulho. Quando me dei conta, já num estágio intenso de embriaguez, estávamos na cobertura, dando sequência permitida as brincadeiras e ao espírito lúdico e divertido que havia começado na sala. Brincadeiras: sem ofensas. Leves, descomprometidas. A diversidade estava lá, interagindo, como em minhas antigas celebrações.

Na cobertura, minha amnésia alcoólica me atingiu. Encontrei poucos registros de fotos divertidíssimas no meu celular.

Descobri que, aos 39 anos, a ressaca do dia seguinte pode virar um inferno! O metabolismo não se recupera mais como antes. Droga! (RISOS).

Eu e o Beto tínhamos alguns pequenos planos no domingo, mas não consegui dar conta de tão virado que estava. Não consegui comer meu almoço, eu que sou uma draga! (rs). Mas há pequenos imprevistos que vem para o bem: conheci um pouco do lado do Beto enquanto eu estava tonto, podre e enjoado (rs). Claro que não é para repetir tão cedo, mas foi interessante – na natureza da circunstância – ver como ele se portaria, eu que estava só “pela metade”…

…deixei-o ainda em sua casa, a noitinha. Beijei sua mão algumas vezes, num gesto de agradecimento e retribuição por ter sido como foi em nosso domingo. Aos poucos a gente vai conhecendo as pessoas. Ele, um pouco mais de mim, eu um pouco mais dele.

Sweet. :)

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