Abrimos as comportas


O que vem depois da aceitação do gay

Voltemos um pouco no tempo com o olhar histórico e científico: antes da instauração do Cristianismo atrelada a cultura, as sociedades louvavam diversos deuses, no plural e com características muito próximas – em virtudes e defeitos – dos seres humanos. Era assim e pensar que durou muito mais tempo que a própria religião Cristã só me indica, pessoalmente, o quanto a religião predominante no Brasil, hoje, é presunçosa. A bem da verdade é que dinossauros e os deuses pagãos tiveram muito mais tempo de glória do que nós mesmos, sociedade moderna, em nossa diminuta presença terrena.

Curioso que a prática homossexual naqueles tempos (não dos dinos, mas dos deuses pagãos) estava em outro lugar na sociedade e era tratada de outra maneira.

Estamos em 2016 e desde os anos 50 e 60, movimentos em defesa ao gay (homens e mulheres) tem se manifestado em maior volume. É possível afirmar que, quanto maior o confronto, antes mesmo da absorção da sociedade, mais contestamos as diversas vertentes Cristãs que imperam, prioritariamente, em alguns países do Ocidente. Papa Francisco tem despendido bastante energia para reverter essa sisudez.

Acontece que a sombra da sociedade, o homossexual (aquele que se sente pleno por relacionar-se afetivamente e sexualmente com outro do mesmo sexo) não é o único “tipo”. Existem dezenas de variantes, sob a categoria da medicina denominada HSH (homens que fazem sexo com homens) e existe também a identificação de gênero e a identificação sexual em diversos níveis (transgêneros e transexuais). Rótulos e nomenclaturas como bissexuais, g0ys, gouines, nascem de toda essa pluralidade.

Longe que querer entrar no julgamento moral, se tais variantes agem certo ou errado, se são problemáticos ou enrustidos, o fato é que nessa “sombra” cujo o primeiro expoente foi o homossexual (gay, rótulo mais popular), existe toda essa diversidade. São correspondências estatísticas que, apesar de fazerem parte de hipotéticas minorias das minorias, são reais. Humanos. Palpáveis.

Ao mesmo tempo que vamos conquistando nosso espaço em nível de “normalidade” mediante o senso geral de sociedade, como se enfileirados (ou ao lado), lésbicas, bissexuais, transgêneros, transexuais, g0ys, “brothers” e assim por diante, vem nos acompanhando, buscando a mesma luz de (por que não?) respeito.

Nesse fluxo que me parece necessário, natural e óbvio, acredito que tenhamos a oportunidade de nos desprender / descolar / desapegar da ideia bipolar / binária / bipartida de que gays são a antítese dos heterossexuais ou que de sexualidade nos resumimos apenas a um ou outro.

Muitos de nós, num comportamento que eu entendo como algo de reducionista, se colocam veementemente como a representação política e correta do gay perante o hétero, para se “igualar”. Não vejo mal neste tipo de postura e entendo que tal comportamento é refluxo inevitável de um processo autoafirmativo a frente a própria heteronormatividade. Basicamente, “somos iguais” e para se fazer assim, alguns precisam se comportar diante seus entornos como heterossexuais but gays. Outros, num movimento de transgressão e rebeldia, vão buscar culturas e hábitos que contrastem, mas igualmente num exercício autoafirmativo. E por fim, mais alguns, vão transitar entre um pólo e outro, se apropriando de hábitos e normas comportamentais das partes sem entrar em maiores conflitos. Temos funcionado assim há tempos e, se há algum tipo de rivalidade entre gays, tal qual “afeminados VS. masculinizados”, creio que o cerne da crise seja esse: a não compreensão da maneira que gays, embora gays, também funcionem diferentemente.

Eu, em particular, sou um entusiasta e me sinto honrado por auxiliar nessa abertura das comportas, possibilitando que tal pluralidade também possa ver a luz para fora de seus respectivos armários. Quem me acompanha, sabe que sou um dos poucos por aí que se colocou contra a maneira debochada, radical (e muitas vezes dura) dos gays perante os g0ys. A mim, há muito de um discurso fóbico, preconceituoso e, pior, ausente de uma reflexão. Os gays, se confundem e caem exatamente no pensamento heteronormativo e, ao invés de compreenderem os contextos que fazem g0ys serem uma realidade, agem tal qual heterossexuais preconceituosos perante os gays.

Entendo com todas as letras que há um senso moral, o ato de usurpar de uma autonomia duvidosa de namoradas, esposas, mulheres e filhos. Mas não seria essa moralidade da “família tradicional brasileira”, ou do modelo em si, que há anos tem sido colocado em conteste pelos próprios gays? Assim, afirmo que conceitos como monogamia, poligamia, poliamor, relacionamento aberto, namoro entre três pessoas e etc., são – igualmente – novas possibilidades.

De imediato, o leitor pode dizer: “ai, que complexo!”. Eu também diria, há 10 mil anos atrás. Embora lá, há 10 mil, tudo isso era muito mais fácil. Se está difícil, acredite: a raiz Cristã ainda é forte aos pés.

“Flávio, onde você está em tudo isso?”. Estou exatamente no lugar que tenho paz, prazer e felicidade. Existe uma diferença entre o que se pratica em concordância em par e o quanto abrange a mentalidade, a filosofia. Um não elimina o outro.

Nós, gays, abrimos as comportas. O novo e o desconhecido, no geral, sempre subentende o medo.

 

 

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