Ainda me culpo por ser gay


A culpa é o maior vilão

Muitos jovens gays de uma nova geração, aqueles que tem de 14 a 2o e poucos anos hoje, não passam mais (tanto) por um processo “homonormativo” de culpa e superação da mesma, algo que ainda é bastante comum em gerações anteriores. Muitas vezes, nem identificamos com clareza esse sentido de culpa pois a nossa mente busca válvulas de escape e subterfúgios para não se vivenciar as emoções negativas que a culpa gera. Lidar com tais sentimentos sozinho, as vezes, é uma carga muito grande. Compartilhar, certamente, faz toda diferença.

Então, estou escrevendo esse post para que vocês sintam este compartilhamento. :)

Quantos não foram os e-mails que recebi nesses 5 anos de Blog Minha Vida Gay, apresentando manifestações verídicas de pessoas jovens, tomando a consciência da culpa e percebendo projeções das mesmas em suas vidas? Dezenas ou centenas. Filhos gays que se esforçavam em medidas – as vezes – desleais consigo em estudos e trabalho, numa pura tentativa de compensar a própria homossexualidade e, inconscientemente, serem pródigos em tais áreas para a aceitação e satisfação de seus representantes (pais). Jovens que até atenderam a pedidos da escolha de uma profissão, a contragosto, abdicando de seus legítimos desejos para seguirem por carreiras idealizadas pela família, para compensar o “desgosto” da homossexualidade.

Outros que, cientes de serem gays, se condicionaram e se condicionam a uma vida solitária por não verem uma luz de intersecção entre a harmonia em família e a particularidade de ser gay? São vários os relatos que obtive por aqui.

Tais casos reais pipocaram no meu e-mail muitas vezes, quando estes temas eram evidenciados no MVG. Resolvi voltar com o assunto.

No entanto, não preciso me munir de casos alheios para descrever essas realidades. Vou falar das minhas vivências: tive que lidar com meu sentimento de culpa por ser gay, principalmente na época da faculdade, e me sentia pressionado por fora e por dentro. Por fora, pelo natural momento da adolescência, quando meninas e meninos estão à flor da pele para exercitarem sua sexualidade. Por dentro, por saber da minha homossexualidade e não ver possibilidade de levar essa realidade para o meio. Fase difícil, dura e solitária. Buscava compensar toda aquele fardo, toda cobrança interior e exterior, sendo o aluno mais criativo da sala de aula de uma faculdade de comunicação social. Assim foi para mim e foi assim durante fucking 4 anos! Tais atributos criativos, em meu imaginário, eram a maneira de eu autoafirmar meus potenciais para que (em meu imaginário de novo) as pessoas não me tomassem por definição por ser gay e sim pelas minhas habilidades. Ser gay, naquele tempo, era confuso e reativo. Parte de mim sentia um pesar por isso.

Até meus 23 anos tive que lidar com um sentido de solidão e culpa. Vivia no quarto dos fundos da casa dos meus pais, meu “lugar seguro” (inclusive aceito por eles, embora eu não os deixassem entrar com facilidade) e, para equilibrar todos esses sentimentos negativos, perdia-me em meio a filmes, muita música e curiosidades gerais na Internet; era o começo da conexão discada e passava horas, madrugada a dentro espiando pela “janela virtual”. Vivia um mundo dentro da minha imaginação que possibilitava eu reduzir um pouco a angústia da culpa por ser gay.

“Se o real é eu ser gay e isso vai abalar as relações em meu entorno e tenho um medo absurdo que isso aconteça principalmente pelo jeito agressivo do meu pai, prefiro me nutrir das minhas fantasias e sonhos. Lá, minha sexualidade não vai causar transtorno para ninguém. Lá, não preciso lidar com a minha homossexualidade” – objetivamente era assim que eu pensava e por consequência, assim que eu agia. Algo que, naquele tempo, não era nada claro. Agora, entendo que era assim a minha válvula de escape.

Hoje, com 39 anos e assumido desde os 23, posso afirmar que o sentimento de culpa por não ser da maneira que pais, amigos e entorno esperavam (pelo singelo fato de ser gay) foi o grande vilão (e é ainda para aqueles gays que vivem neste estado) que me arrancava a força para encontrar o (imbatível) sentido de autoaceitação.

Foi só quando eu me dei conta, de uma maneira legitimamente consciente, que a minha homossexualidade era apenas uma partícula de um todo maior que eu era – desde atributos físicos, intelecto, aptidões, educação, criatividade, empatia e etc. – que eu consegui acumular a força para a minha expansão. Foi, no final, um exercício corajoso de entrar em contato com o próprio sentimento de culpa, sem deixar resquícios. Porque culpa é como um câncer: se sobrasse uma pontinha, era certo que voltaria.

Quando veio a minha autoaceitação, foi uma verdadeira bomba atômica, no meu caso: comecei a namorar, mudei padrões de comportamentos esperados pelo meus pais, comecei a fazer terapia para resolver as diferenças com meu pai, iniciei a minha empresa, comecei a ir na academia, assumi para meus amigos do colegial, depois para os amigos da faculdade e tudo junto e misturado. Tudo ao mesmo tempo, no meu caso.

O Flávio que se esforçava para ser um dos melhores alunos da faculdade, que desenhava, tocava piano, tinha banda, cozinhava, era líder dos grupos e etc., se dobrava em três para reforçar essas qualidades pessoais para que, num dia hipotético que assumisse, sofresse os menores danos possíveis. Curiosamente, não perdi nenhuma dessas qualidades. Pelo contrário, elas estão em meu entorno junto com o fato de eu ser gay, mas já não são mais tão importantes nem são emblemáticos para agradar outros. O relevante, hoje, é o todo. E o todo não está mais separado em compartimentos.

Meus pais foram saber da minha sexualidade, de fato, dois ou três anos após a minha real autoaceitação. Na verdade eles descobriram. Pegaram pistas. Claro que dos 23 até muito depois da assunção, minhas mudanças comportamentais geraram certa estranheza e insegurança aos meus velhos. Mas sem culpa, eu começava a ser menos filho e mais o adulto e – consciente de que não estava mudando meu jeito para prejudicá-los – passei a efetivamente cuidar do que eram os meus reais desejos. Eles, simplesmente, acostumaram e, vejam só, sobreviveram as mudanças!

O tempo é um Deus nessas e em outras horas.

Curiosamente, antes dessas transformações, minha mãe me tinha como uma pessoa individualista! E realmente, eu parecia individualista. Mas era apenas na aparência, fruto da minha não aceitação e explico: como eu reprimia a minha homossexualidade, não gostava de mim por ser gay e aquela relação de culpa (eu comigo mesmo) me limitava – sempre que alguma coisa do meu entorno surgia, era do meu interesse ou se alinhava às expectativas e aceitação das pessoas a minha volta e não corria o risco de recair a minha sexualidade – eu era o mais empolgado e corria atrás sem olhar para trás. Era a brecha que eu tinha para “eu ser eu” no mundo da aceitação, no real. Assim, vivia o apego intenso pela coisa. Podia ser uma viagem, uma festa com amigos, ficar horas enfurnado no meu quarto, o que fosse. Ia como um “trator”, me escapando certas e justas satisfações e atenção para pessoas e não era difícil ouvir: “É, você é meio individualista mesmo. Igual seu pai”. Simplesmente porque comecei a afrouxar meu nó e a trazer a minha homossexualidade para o “mundo real”, essa característica individualista desapareceu. Era um apego a raras brechas que me faziam sentir inteiro.

De repente, quando meu entorno passou a saber sobre mim, percebi que a insatisfação, crítica e cobrança que eu tinha comigo, era três ou quatro vezes maior do que a percepção das pessoas. Percebi que eu desconfiava das pessoas em detrimento a minha própria falta de confiança. Em outras palavras, se eu mesmo não confiava, que diria os outros?! Esse era o tipo de mentalidade “louca”, embora a época inconsciente.

Tive a sorte de ter perdido muitos poucos amigos quando a minha segurança interior veio à tona. Algumas amigas que eram a fim de mim se afastaram. Até natural. Uma delas, a época, frequentava assiduamente uma instituição Cristã. Dizia que eu não era gay e que me faltava Deus na vida (RISOS). Mas graças a esse mesmo Deus, ela se descolou dessa religião e somos amigos há mais de 30 anos.

Posso dizer que, quando a gente chega nesse estado integral de autoaceitação, o afastamento não nos fere como a gente imaginava em tempos de culpa. Simplesmente, estamos confiantes como somos e entendemos que outras pessoas virão em nossas vidas. E entendemos, depois, que o ir e vir de pessoas acontece naturalmente durante os anos, independentemente da homossexualidade.

Minha mãe demorou um ano para absorver e aceitar. Meu pai demorou 10 anos! Mas, sem culpa, aprendi a respeitar o tempo deles. Entendi que pais não foram criados para aceitar naturalmente os filhos como gays e que – o poderoso tempo, de novo – faria a sua parte.

E fez, claro.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

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