Gays e amigos heterossexuais


4th Man Out

De vez em quando assisto filmes com a temática gay e confesso que acho fraco a maioria deles, mesmo os gringos. O fato é que fica difícil retratar a realidade da vida gay sob os pilares que nos estereotipam, como a AIDS nos anos 80 e 90, a vida noturna, a promiscuidade e certas manias e hábitos. Acabam reduzindo nossa realidade ao que é mais emblemático ou caricato, ao que é dramático, e o enredo se perde rapidamente. Não convence, pelo menos a mim.

O filme “Hoje eu quero voltar sozinho”, não é à toa querido por uma maioria, pois naturaliza a relação afetiva como ela é, para além de nossa embalagem de gênero.

Hoje um amigo me recomendou o filme “4th Man Out” no Netflix. Costumo ver o número de estrelas, de acordo com a votação pública. Quatro delas, o que é raro para a categoria, e de imediato me interessei. Conta a história de um jovem gay de 24 anos, mecânico e cuja amizade de infância com mais três amigos perdura até então. Os amigos são do tipo “super héteros”, daqueles que pela natureza cultural (normalmente) “assustam” parte dos gays.

A produção logo me trouxe a memória minhas primeiras vivências como homossexual. Lembrei da época em que ia na balada Ultra Lounge que ficava na Rua da Consolação, nos Jardins, em São Paulo.

Sempre tive muitos amigos heterossexuais e boa parte deles homens. A época então, quando meus amigos ainda não tinham entrado no esquema “casamento e filhos”, nossos encontros eram muito mais frequentes.

Não foi apenas uma vez que tais amigos (entre homens e mulheres, na ocasião ainda meninos e meninas) topavam ir comigo nas festas daquela casa. Existia um aconchegante sentimento de aceitação com a presença deles no lugar, certo de que entre som alto e casa cheia, todos se divertiam bastante. Meu amigo Beto, falecido, mas que sempre me acompanhou na vida notívaga, ficava embasbacado com tais feitos.

Lembro que até meus 23 anos eu era bastante resistente para assumir minha homossexualidade, até o momento em que o “que se foda interno” subiu as tampas e comecei a divulgar a “novidade” a minha maneira. A princípio, mesmo aquela ou outra amiga que tinham certo envolvimento “a mais” por mim, compareciam e aceitavam a minha orientação. Eu mesmo tinha certa insegurança de que eu poderia me transformar, talvez me estereotipar, já que minhas referências do que era “sair do armário” e “ser gay” eram praticamente nulas. A gente costuma fantasiar mil e uma coisas até construir nossa identidade.

O fato é que a gente se transforma sim. Mas muito mais por dentro e, a partir daí, acaba irradiando novas maneiras para fora. E não se transforma apenas por aceitarmos nossa totalidade. Transforma porque a própria vida, com o passar dos anos, nos faz mudar.

Algumas daquelas amigas, as que tinham algum envolvimento por mim, se afastaram com o tempo por não haver intersecções entre seus sentimentos e a minha realidade. Foi um certo preço para eu poder conduzir a minha integralidade e confesso que o sentimento de arrependimento raras vezes foi manifestado da minha parte por esse ou outros motivos. No final, sei que prefiro me arrepender por aquilo que eu faço do que por algo que deixei de fazer. E mesmo com 39 anos, embora muito menos impulsivo e direto, preservo essa linha.

4th Man Out é uma referência bastante interessante e real de moldes e modelos comportamentais entre amigos, gays e heterossexuais, que dificilmente estão estampados por aí. Talvez pelo fato de não dar tanta audiência, não chamar tanta atenção e, consequentemente, não gerar tanta lucratividade para os meios de produção, sedentos por capitalizar mais e mais, a coisa funcione assim.

O discurso aqui não é rivalizar “masculinos e femininos” e estou longe de entrar nessa discussão, mas trazer mais uma constatação de que não é porque a gente é gay que é necessário ser um machão, autoafirmando o oposto do estereótipo mais popular, nem uma menina cheio de gostos encaixotados e que configuram o próprio estereótipo. Podemos ser “qualquer coisa”. Muitas vezes, ser “qualquer coisa” e poder transitar pelo anonimato é interessante. E podemos estar mais próximos dos estereótipos também. Mas assim, a sociedade em geral já têm de referência.

Costumo abastecer o carro no mesmo posto de gasolina. Duas meninas da loja de conveniência, vez ou outra, lançam indiretas para cima de mim. Uma delas, nestes dias e cheio de intimidades, chegou de uma maneira direta e reta, logo que entrei para acertar a conta: “você gosta de homem ou de mulher?”.

Levei um susto e logo vi uma outra moça ao lado dando risada. Não sei se pesquei no ar, mas primeiro respondi: “olha só sua amiga dando risada. Estou achando que ela desconfia de mim…”.

– Vai logo, hein, você gosta de mulher ou de homem?

– O que você acha?

– Vai menino, para de graça. Você gosta do quê?

– Bom, já que você perguntou assim, eu te respondo: eu gosto de homem. Você já me viu parando aqui com mulher? Se eu não estou com amigos, é porque é namorado!

– Ah para de brincadeira, menino! – falou com uma cara de assombro.

Olhei para a amiga que estampava um sorriso no rosto e disse:

– Você percebeu, é? Parabéns, viu? Muita sensibilidade a sua me sacar.

Dentre tantas dúvidas e brincadeiras que vem do universo heterossexual e íntimo, desde a velha e clássica pergunta “mas você é ativo ou passivo?”, sou um “tipo gay” que precisa verbalizar ou apresentar um namorado para que as pessoas saibam. Como em 4th Man Out, somos milhares ou milhões que transitam entre o ambiente heterossexual e homossexual sem maiores barreiras, limitações ou julgamentos.

A bem da verdade, é que perdemos tempo encaixotando uns aos outros. E ainda, perdemos muito tempo julgando a si.

Amizade mesmo não avalia esse tipo de documento.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

6 comentários Adicione o seu

  1. Rothuzs disse:

    Assisti “4th man out” a pouco tempo também, e vi uma pitada de reflexão sobre os papéis de gênero e suas intersecções com o desejo como você apontou no texto, para além de ser (ou tentar ser) um blockbuster, ainda existem pontos interessantes no filme, querendo ou não, estar fora do padrão heteronormativo ainda nos impõe a assunção perante a família, amigos, várias dúvidas internas, etc.
    Abraços.

  2. profilzinha disse:

    Teu texto revela com sensibilidade a maneira despreparada que a maioria das pessoas, a cultura como um todo percebe o outro, este outro que tem que se enquadrar em (pré) conceitos segundo suas neuroses. Você me faz lembrar o texto de um determinado blog no qual um texto era anunciado: “O mundo ideal é gay” , ao ler, fiquei chocada com a ignorância, se utilizava do termo gay para instigar rivalidades entre o ” masculino e feminino” ao desprezar certos comportamentos femininos (que muitos só existem no mundinho em que vive) e com isso fazendo comparações com comportamentos gays completamente estereotipado, demonstrando obviamente, total ignorância sobre o ser humano. O “autor” do texto , “O mundo ideal é gay” acreditava (acho que acredita) que um mundo gay seria uma esbórnia, uma “Sodoma e Gomorra”, promíscuo, do vale tudo… E me senti na obrigação de levar para a sala de aula para debater com meus alunos, e foi ótimo. Fico a pensar, digamos, quanta “ingenuidade”. Tenho muitos amigos gays e amigas lésbicas, e antes de qualquer coisa, os vejo como são; pessoas, simples assim, cada um com uma educação, com seus valores… Se nos comportamos assim , ou de outro modo, não é em função de uma determinada construção de gênero distorcida que nos é imposta de todas as formas desde a concepção, são questões que vão muito mais além, porque estamos a nos referir sobre a construção da identidade, da sexualidade de cada um, e que, inerentemente carrega uma história de vida muito particular, e sobre as qual generalizações não são bem vindas. Grande abraço.

  3. profilzinha disse:

    Correção na última linha *e sobre as qual; * leia-se: e sobre a qual

  4. maiacoaching disse:

    adorei o texto… vc embora nao seja Gay!!! rs… mas acredito que o mundo gira em torno do ser humano e do reconhecimento… respeite para ser respeitado!!! é essa a dica que eu deixo aqui para todos… grande abraço!!!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, queridão! Satisfação ter um heterossexual participando e comentando!

      Valeu! ✌️

      1. maiacoaching disse:

        o prazer é meu participar de um mundo onde as pessoas se respeitam e entendem, muitas vezes dentro de mundos paralelos como esse é melhor q viver aqui fora… com uma kctda de palhaços espalhados fazendo merda e falando merda…

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