Espelho, espelho meu


Você gosta do que vê?

Rever ex-namorados, além de colocar em conteste a cultura normativa que diz para não se ter mais contato com tais pessoas, é a oportunidade de entender um pouco mais sobre a si pois, bem ou mal, as relações afetivas são verdadeiros espelhos e permanecem assim quando a intimidade se perpetua por intermédio de uma amizade.

Há quem diga que construir uma fraternidade com um ex é um gesto evoluído. De certa forma há um sentido nessa afirmação pois, atrás da máxima “ex bom é ex morto” existe a simples e pura dificuldade do ego em aceitar que o outro – que em determinado tempo foi de exclusividade – está vivo e pode ser feliz, sem mais o pertencimento.

A possibilidade de ex-namorados tornarem-se bons amigos aumenta quando a relação teve um começo, meio e fim de maneira natural, em concomitância e equilibrada. É como se cumprisse o rito do Sol (ou da Lua) em volta da Terra: (1) o amanhecer representa o início da relação, a novidade e a energia se formando. (2) O Sol vai cruzando sua rota, tendo sua posição de cume ao meio dia e sugere (simbolicamente) o ponto alto do namoro. (3) Daí o astro segue sua direção ao seu estado poente e, lá no horizonte, representa o fim.

Natural, em concomitância, equilibrado e entendo que seja mais difícil um namoro transformar-se em amizade quando as verdadeiras cartas não foram jogadas na mesa ou quando “forças” alheias à natureza do próprio casal influenciaram, durante “a passagem do Sol”. Quando também, por confusão, indefinição e medo se força o abandono ou quando não se perdoa, seja por traição ou por qualquer outro motivo que no imaginário de uma das partes (ou de ambas) há a presença do rancor ou da decepção. O problema nunca será a traição, mas o não perdão.

Tais sentimentos: mágoa, rancor, orgulho, decepção, “indiferença” e etc., embora humanos, são muralhas criadas por nós e que (definitivamente) impedem uma autêntica fluência da energia nas relações, sejam as parentais, entre amigos e – claro – entre ex-namorados.

Em outras palavras, transferir os sentidos do status “namorado” para “amigo” é um gesto potente de amor. É a legítima aceitação e valorização da parte boa, saudável e engrandecedora que o outro, em determinado tempo passado, nos proporcionou. É trazer tal passado para o presente, de maneira repaginada. É o ímpeto corajoso (amor, paixão e coragem sempre caminharão juntos) de aceitar que o outro pode ser feliz sem a posse.

Assim, quando um casal que deixou de ser, positiva a relação, tem a oportunidade de ser amigos e não colegas ou ausência. O interesse é ver o outro bem, livre da influência de condições e, de tal maneira, ambos seguem livres das amarras e muralhas dos sentimentos humanos que formam as mesmas. Daí, o espelho reflete o real, o verdadeiro, sem distorções. Existe uma importante congruência entre o que se sente (por dentro) e o que se aparenta.

Reencontrar ex-namorados, agora amigos, é a permissão da manutenção da troca positiva. As vezes, ex-namorados conhecem a nossa essência muito mais que nossos próprios pais.

Tive a oportunidade de reencontrar dois deles, o ex-Beto e o Rafa na semana passada. O ex-Beto, vi na segunda-feira para por os papos em dia e falar sobre trabalho, e o Rafa se reencontrou comigo ontem, pela terceira vez depois que terminamos.

Faz quase uma década que conheço o ex-Beto e ao percebe-lo hoje, vejo o quanto estamos diferentes do que fomos. Algumas intersecções permanecem, mas o que de fato se mantém é muito mais um sentido de lealdade. Para sua mãe e para sua família, serei “eternamente” o cara que “transgrediu” os padrões mais tradicionais possíveis de uma cultura italiana, nacional e familiar e que os apresentou um sentido real e palpável de “ser gay”, enquanto casal, eu e o ex-Beto.

O Rafa não teve problemas para assumir à família e, assim, não carrega nenhum tipo de referência do que é aguardar o tempo de aceitação.

Ele é bastante parecido comigo, no sentido de ter uma vontade natural para elaborar sentimentos e captar o funcionamento de si e das pessoas. Conseguimos deixar de lado nossas divergências intelectuais e entramos (facilmente) em assuntos sobre as relações humanas com bastante profundidade, sem perder o bom humor e a graça. O Rafa continua uma “criança”, coletando um punhado de “namoridos” ao mesmo tempo (rs), mas certo de que ainda não está pronto (de novo) para entrar em um novo namoro. Tem uma necessidade absurda (que inclusive foi o motivo de nosso rompimento) de ter o controle da relação (e consequentemente do namorado). Sabe que, para entrar em uma nova história, precisará ressignificar em alguma medida essa postura para que, um futuro, sua angústia não seja maior do que o prazer de se estar junto.

Algo que foi valioso ouvir dele ontem foi: “por causa da relação que tive com você, me senti motivado a me entregar para paixões de novo. Depois que eu terminei com o Tom [o anterior a mim], você sabe, fiquei meio travado para isso”.

Ambos, como meus espelhos, autoafirmam naturalmente (e intimamente) partes do que sou. Estava precisando (humildemente) disso. Gostei do que vi na semana que passou e o que e vi foi a nossa capacidade de positivar o amor.

Bom domingo! :)

 

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