Afetividade entre nós


Não precisa ser gay para dois caras terem afetividade

É possível dois amigos heterossexuais ou um gay e outro heterossexual serem homoafetivos? Levantei esse assunto há anos e segue novamente minhas reflexões.

Para recordar: homos significa iguais e vem do grego. Assim, homossexual significa sexo com iguais. Homoafetivo, por analogia, significa afeto por iguais. O que for além disso é elucubração ou romance.

Por experiência própria digo que sim: eu tive inúmeras experiências homoafetivas com amigos heterossexuais e gays, algo bastante comum entre amigos – independentemente da sexualidade – e que conduz a grande maioria das relações de amizade. De nada tem de promíscuo, mal resolvido ou enrustido.

Não é raro notar por aí a afetividade entre caras héteros. Basta retirar da lente um pouco do preconceito internalizado e de – até mesmo – certas fobias. Por mais que a “maquiagem” e a aparência normalmente sugiram certa brutalidade ou falta de jeito, para uma pura necessidade de afirmação da própria masculinidade ou pela mera equivalência de códigos, no íntimo se sabe quando há uma afetividade por outro do mesmo sexo, o que não caracteriza o indivíduo como gay. Beijos no rosto, abraços e até determinados toques que, antes, gerariam um constrangimento e colocaria a macheza de um homem em conteste, hoje é muito mais tolerável.

Retomando o filme 4th Man Out (que está no Netflix e eu recomendo), o grupo de amigos heterossexuais o qual o protagonista gay faz parte, são bastante afetivos uns aos outros. Tive momentos semelhantes com meus amigos heterossexuais da maneira que o filme retrata e sei o quanto daquele “jeito ogro infantilizado” decodifica a afetividade.

Bastam ver também os meninos do One Direction, emblemáticos, “produtos” do X Factor e que são nitidamente homoafetivos entre si. Até que um fato prove o contrário (jovens adoram especular), são todos heterossexuais e não deixam de mostrar muita afetividade entre si em frente as câmeras.

Onde a homoafetividade se encontra hoje? Eu diria que em diversas situações, todos os dias.

Em tempos do politicamente correto, no qual o feminismo anda na crista da onda, a ideia do “homem macho” vai caindo por terra. O homem heterossexual tem passado por um período desconfortável de mudança (desconforto e mudança são “irmãos” que normalmente caminham juntos), buscando ressignificar sua posição perante a sociedade e, obviamente, à mulher heterossexual. Mudanças sempre gerarão incômodos e, neste caso, transcendem a camada clichê do “bem feito! O machão está se perdendo diante da mulher”. A sociedade tem transformado a “cartilha” do que é ser homem e o recriar está instituído. Orgânica como ela é, ao meu ver, vai além dos estigmas sociais.

Claro que em determinados grupos e regiões, a preservação do que é conservador se mantém firme. Só que os movimentos comportamentais que reverberam das grandes metrópoles (e sempre foi assim) vão dando contornos ao que é novo e, nelas, aqueles que se identificam podem se encontrar. Em outras palavras, quem tem consciência que o modelo arcaico e tradicional impera em seu entorno, sabe que numa capital como São Paulo um respiro é possível.

Ao mesmo tempo, gays sempre (ou imagino que por muito tempo) viverão o velho dilema: “se eu descuidar da afetividade que tenho pelo meu amigo heterossexual, acabarei me envolvendo demais”. Não é à toa que o post daqui do Blog, “sou gay e me apaixonei pelo meu amigo heterossexual” é um dos mais lidos.

Há também a natural afetividade entre amigos gays que as vezes acaba em sexo, que as vezes confunde, que as vezes acaba num ficar e que, outras vezes, numa disputa de atenção entre amigos, acaba em competição.

A homoafetividade, em algum nível, perpassa por todas essas situações, seja ao gay, seja ao heterossexual. O único ponto é que tal palavrinha, homoafetivo, está tão atrelado (culturalmente) ao “ser gay” que as pessoas não trazem muito à tona essa discussão, ou se trazem, rapidamente a direcionam à piada. Portanto, aqui é um “local seguro” para isso.

O fato é que afetividade não tem gênero e nessas de confundirmos homossexualidade com afetividade pelo igual (homem pelo homem, mulher pela mulher), vem a “lambança” de ideias e (invariavelmente) de atitudes. Afetividade é uma emoção destinada para pessoas (animais e objetos) e que, mediante confusões de conceito, falta do pensar, carências e atropelos de valores ou desejos, nos conduz a posturas muitas vezes estranhas.

A verdade é que, quem está bem resolvido com o afeto que deposita ao outro, colocando a emoção descolada das questões de gênero e/ou sexualidade, o faz naturalmente, de maneira fluida e sem restrições. A ausência de restrição é a manifestação prática da resolução e da natureza da própria afetividade.

Daí vem a parte de “cutucar a ferida”: o heterossexual que não consegue ser simpático (ou afetivo) a um gay e o gay que não consegue ter amizade com um homem heterossexual tem limitações semelhantes: por algum motivo e repertório de vida, e a cada um terá os seus para se (auto) justificar, alguma coisa nos bloqueia e nos impede de ser afetivo sem restrições. A presença de restrição, nestes casos, não é fruto da mera ausência de afinidades. O ser humano livre de seus próprios nós interiores, nós muitas vezes herdados de temores e pré-definições do nosso entorno, de nossas experiências passadas mal resolvidas, é capaz de ser afetivo com qualquer um.

Assim, a afetividade não se projeta de maneira a qualificar o outro, seja pelo gênero, sexualidade, raça, credo, nível social, idade e etc. Quem restringe, de fato, são as nossas próprias limitações. Aquelas que a gente “comprou” numa relação de pais para filhos, por exemplo, ou aquelas que a gente se deparou em algum momento e não quer superar.

O quanto suas crenças sobre afetividade limitam a sua própria autonomia?

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