A realidade do bullying


Sou gay e já sofri bullying

Quantos gays que passam por aqui e já sofreram bullying em algum nível? Por ser gay, tive a sorte de não ter passado apuros, ou pelo menos não me lembrar de nenhuma situação. Por ser descendente de orientais, diversas vezes, principalmente na infância e na juventude: perna de pau para jogar futebol (não que seja uma mentira – rs), pau pequeno, filho do pasteleiro, que só come de hashi, “racha” da mãe na horizontal, CDF e claro, a mais clássica de todas, como se a gente não tivesse nome e como se não existisse distinção entre japoneses, chineses, coreanos e etc.: “Ô, japonês!”.

“Ô, japonês” reverberou em meus ouvidos mais de um milhão de vezes. Eco que doía, principalmente vindo das pessoas que eu tinha algum tipo de admiração.

Eu achava que estaria isento dessas pressões/distinções sociais ou que tais colocações, hora em contextos mais abusivos, hora em momentos mais amenos ou até mesmo com algum teor de “carinho”, não passariam de encheções superficiais. Mas não. Até meus 33 anos – fase adulta – fui me desprendendo de diversos “nós” de baixa autoestima ou incongruência em relação a minha autoimagem por causa dessa lavagem cerebral que é, durante a infância e a adolescência, as pessoas focarem nas distinções físicas com algum teor de preconceito ou sentido de exclusão. Por exemplo, para mim, um oriental jamais poderia ser mais atraente ou bonito que um ocidental. Esse feito seria impossível.

Ledo engano que perpassou meus 30 anos e embora eu tenha levado meu tempo para resolver todas questões de autoimagem, e embora não funcione – a mim – me colocar em uma posição de vítima, sei que sugestões de bullying vindas externamente, colaboraram para eu construir um sentido de autoimagem deturpada. Eu jamais estaria ao pés de todos aqueles ocidentais que – no meu ponto de vista – eram “afortunadas obras da natureza”.

Hoje não mais; muito pelo contrário. E a situação virou tanto que, beleza física mesmo, do outro, é só os primeiros parágrafos de um prefácio para alguma história qualquer. Claro que tenho meus próprios critérios de beleza. Mas não lembro a última vez que me “encantei” por uma.

Pior do que sofrer bullying é não querer superar

O efeito do bullying, seja contra gordos, baixos, magros, orientais ou gays, recai no mesmo ponto: autoestima. O indivíduo pode até se tornar reativo, aparentemente forte e briguento, um ícone de enfrentamento contra os sofrimentos voltados a aquilo que sofreu ou que vê o outro sofrer, e – mesmo assim – não estar resolvido. Porque, no meu ponto de vista, pior do que sofrer bullying por algum motivo (e existirão muitos casos pelo resto da existência do ser humano na Terra, pois sempre haverão aqueles que sentirão “superioridade” ou ameaça em relação às diferenças) é o indivíduo não superar. A ação de bullying, muitas vezes, vem do outro e é incontrolável. O intento de superação vem de dentro e é pessoal e intransferível.

Superação implicará em perdão, libertação de alguma culpa e a aceitação de que o indivíduo que – um dia – foi um agente de bullying era, de fato, o mais complexado. É olhar para esse agente e dizer, sem demagogia, soberba ou falsidade, “você não me deve nada, nem eu a você”. É o sentido de neutralidade e isenção. É livrar-se, também, dos discursos reacionários, do ódio reverso, e dos medos que – em alguma medida – criam qualquer tipo de barreira para relações, seja com outros gays, mulheres heterossexuais e, definitivamente, homens heterossexuais. É, de todo modo, a não segregação justificada por, um dia, ter sido segregado.

Pode até soar utópico ou dar a impressão que tais mudanças são improváveis. Mas, ao meu exemplo, de alguém que até os 33 anos não tinha absolutamente nenhuma atração ou interesse por orientais e “como num passe de mágica” passou a ter; inclusive namorou um, se existe a legítima e íntima vontade de mudança, um desejo de transformar com formato de propósito de vida, é possível.

Ter propósitos resolve muita coisa…

Tudo e mais um pouco é possível quando se quer com franqueza, com a autenticidade de si para si. No mais, há um dilúvio de influências e referências que existem por aí, dos pais aos amigos, dos primos aos colegas de trabalho, e nos acomodam ou nos tornam reais prisioneiros de hábitos, ideologias, modismos ou manias estanques, midiáticas e que nos afastam de nosso poder intrínseco.

Se tal texto ficou difícil para você, ou o teor fictício, quem sabe – um dia – não fique fácil e verdadeiro?

 

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