Quando eu sei que eu sou gay


Gay é só uma palavra

A diversidade sexual, muitas vezes manifestadas por aqui por intermédio do Blog Minha Vida Gay nesses mais de 5 anos, vai além do binômio heterossexual e homossexual, ou, hétero e gay.

Longe de julgar pelo viés da psicologia, algo que não me cabe, descobri por todos esses anos – somados às minhas vivências como gay – que a sexualidade não é sempre algo definido, empacotado e pronto desde o nosso nascimento. Pelo menos, não para todos. Muitos, por intermédio do passar do tempo e das próprias experiências durante a vida, vão descobrindo, significando e ressignificando seus interesses, o que faz a própria sexualidade ser algo muito mais orgânica do que definitiva em rótulos.

Assim, ser gay, não é uma convenção estanque, que pontua um grupo de características e nos define. Ser gay não é ter determinados gostos musicais, nem frequentar determinados lugares. Não é vestir certas roupas ou seguir determinadas profissões. Ser gay não é ser passivo, ativo ou versátil e tais preferências não nos fazem “mais ou menos” gays. Não são trejeitos nem a forma de se expressar ao mundo. Ser gay não se restringe a “barbies”, “bears”, “daddy boys” e outras classificações que nos agrupam em nichos.

Logo, o indivíduo que se autodefine como um interlocutor dos gays, usando a mídia, redes sociais, YouTube, blogs (como eu) e etc., independentemente da maneira de se apresentar ao mundo, carregará maneiras e formas que dizem respeito a ele (e somente a ele) e frações ao que é o gay. Pode criar identificação com alguns seguidores, mas jamais representará todos (por mais que sua vontade seja essa).

Mas afinal, se “ser gay” não é nada disso, nem exclusivamente isso ou aquilo, quando eu sei que eu sou gay?

Como já citei em outros posts, ter algumas fantasias e desejos homossexuais não definem um indivíduo como gay. A medicina já elucida sobre essa afirmação, ao enunciar os HSH e seu significado. Ao mesmo tempo, há uma penca de homens e meninos que são conscientes (no privado) a respeito de seus desejos por outro do mesmo sexo e abominam a palavra “gay”. Tudo fruto de como (culturalmente) o indivíduo traduz a palavra. Para alguns ainda, “gay” vem recheada de um sentido depreciativo, de exclusão e – até mesmo – ofensa. Resultado – nada mais, nada menos – do que o próprio repertório individual na qual tal palavra se manifestou e o quanto se comprou a ideia com tais sentidos negativos.

É bastante complicado querer definir alguns conceitos com afirmações verdadeiras, imbatíveis e absolutas. Normalmente quem faz isso são instituições, como a igreja. De qualquer forma, o empirismo, a prática e a experiência me leva a crer que somos realmente gays quando estamos – basicamente – em paz com a nossa própria homossexualidade e aceitamos de uma maneira sincera um vínculo afetivo e sexual com outro do mesmo sexo sem criar algum tipo de diferenciação por isso ou se deixar julgar assim.

A questão não é assumir e revelar para todo mundo, embora quando fazemos e temos a reciprocidade (cedo ou tarde), o apoio é mais uma fonte de estabilidade. A questão é tratar o fato de ser gay com a naturalidade que um hétero trata a sua sexualidade. É quando, independentemente dos julgamentos externos (sejam quais eles forem na realidade), não nos sentimos em condições (fantasiosas ou não) de ameaças ou de adoração. Adoração sim pois a autoafirmação nos tira a naturalidade. É uma condição em detrimento a um contexto onde as pessoas – no geral – acham que devemos louvar por aqueles que pensam, agem e são da maneira “X”, “Y” ou “Z” e, assim, caímos de novo no pacotinho da parcialidade.

Sabem quando algumas mulheres ou meninas “adoram ter amigos gays”? Se a gente entra nessa onda sem consciência, da supervalorização por sermos gays – embora seja uma etapa até natural da vida  – estamos corroborando com o destaque/diferenciação pelo “positivo”, no momento em que não somos nem mais nem menos do que outro indivíduo, independentemente de sua sexualidade.

A igualdade e a equidade não tem disso. A igualdade nivela sob todas as circunstâncias. A equidade é o que se pode, sem o olhar comparativo do que é melhor ou pior, do que é mais ou menos.

Nosso ego se sustenta bem em alguns pilares: mediante a boa relação com a família, com amigos, com relacionamentos e no trabalho. Mas raramente teremos uma garantia de harmonia se o ego buscar se sustentar na própria sexualidade, seja nos depreciando por isso (óbvio), mas seja também nos valorizando demasiadamente por sermos gays. Ativistas tem funções sociais demarcadas. Mas a maioria que não é, poderia pensar a respeito disso.

Assim, entendo hoje que a gente sabe que é gay quando a nossa própria sexualidade cai em nosso sentido sincero de anonimato, tal qual é para o hétero, quando eles não ficam (pasmem) pensando e lembrando que são heterossexuais!

“Ter o direito de não lembrar que sou gay, seja pelo positivo ou negativo”. Não é um bom mote?

A gente que é gay, esquece de nossa própria sexualidade pois nossas prioridades, sonhos e objetivos circundam outros aspectos da vida. Esquece quando nossos sentimentos são congruentes e receptivos ao que somos. E se esquecer é diferente de não querer pensar (ou reprimir a ideia) porque tal tema gera um monte de planos mirabolantes, medos e esquivas!

Ser gay gera uma legítima sensação de tanto faz. Nessa hora eu sei que eu sou gay pois o “tanto faz” é a aceitação maior. Do contrário, são as inúmeras tentativas, acertos e erros, glórias e desgostos, de nosso processo (curto, longo ou longínquo) de estabelecer um equilíbrio com o que somos e perante nosso entorno, numa necessidade em paralelo de ter e dar algum tipo de satisfação ou cumprir alguma expectativa do lado de fora da gente.

Todo mundo passa por isso, gay ou heterossexual. Faz parte.

Seja, apenas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s