Nó que aperta, nó que afrouxa


Já falei que o mundo é um moinho?

Tem me faltado tempo para o MVG nestes últimos meses, mas ele anda sempre na minha lembrança. Vai chegando o final de ano e o sentimento de 365 dias realizados vão tomando conta; sempre dedico um ou mais posts sobre o assunto, com um apanhado geral sob o meu olhar.

Creio que tenha sido um ano tumultuado para a maioria, do ponto de vista macroambiental, da crise econômica e do maniqueísmo social.

Para quem é colado na bipolaridade política, foi um ano de perdas morais pois a tal “esquerda, dita das minorias – o que incluiu gays – sofreu uma derrota acachapante por mais que o orgulho individual possa dizer o contrário. Contexto e fatos, e são estes nos quais vivemos hoje. Comecei a escrever esse texto antes das eleições nos EUA e, para completar o “pacote sobre política”, temos agora mais esse fenômeno de virada. E mais do que entrar nos discursos triviais, de que os norteamericanos são isso ou aquilo (numa tendência natural de delimitar caixinhas), e de que é um absurdo a democracia topar uma inversão desse tipo, eu como alguém que carrega uma ideologia de esquerda, me atenho a seguinte reflexão: “não é uma pessoa que está definindo por tudo isso. Tivemos o desligamento do Reino Unido da União Europeia e os Republicamos venceram as eleições nos EUA com a representação (improvável) de Trump. Estamos falando de sociedades inteiras optando por mudanças por intermédio de meios totalmente democráticos. Que momento é esse que clama por inversões desse tipo? Será realmente tão assustador ou o medo é, basicamente, daquilo que nos tira da zona de conforto, que incita nossos medos e estimula nossas fantasias mais assustadoras?”. “Trumps” da vida inspiram ameaças aqui, na China e em Marte.

Mas costumo dizer que os grandes ganhos estão nas perdas, diante as dificuldades e quando nos dispomos a encarar uma “temida” palavra, que é temida na maioria das vezes: mudanças. Dessas, eu passei por um turbilhão do segundo semestre de 2015 até uns dois meses atrás. Mas sabe quando se diz que, depois da tempestade vem a bonança? A vida me parece esse ciclo infinito. A vida não estancará e há de seguir como um moinho. Difícil é aceitar que os movimentos atuais seguem por fluxos contrários ao que entendemos de “evoluídos”.

Taí o macroambiente. E no micro?

Sair do armário e assumir a homossexualidade são ações que podem fomentar a sensação de autonomia e liberdade, mas também pode trazer no pacote as sensações do enfrentamento de pais, por exemplo. Há quem diga, como li por aí em comentários de leitores, que a vida gay é e sempre será regada por uma camada de pessimismo e negatividade. Não duvido, desde que acredite assim. Não é o meu caso. Supervalorizar as influências ruins e alimentar a negatividade são posturas, basicamente, determinadas por padrões mentais e, pasmem, é fruto de escolha. Assim como é escolha querer mudar a maneira de se pensar.

Este ano de 2016 foi um ano de improbabilidades, no que diz respeito ao meu entorno: estou no terceiro namoro em menos de 12 meses. Fato raro para alguém que costumava viver relações que ultrapassavam 12 ou 24 meses. Em apenas um ano, entraram e saíram pessoas da minha empresa que em outros tempos aconteceria num acúmulo de 3 anos. Perdi um amigo que faleceu muito jovem no Natal de 2015, já era praticamente 2016. E até mesmo meu cachorro, muito forte, entrou numa sequência de doenças durante um mês. Assim, no mesmo período que “perdi” um namoro e “perdi” um gestor da empresa, o Tango adoeceu. O gestor, na minha empresa, tem papel primordial de dar as coordenadas e imprimir o ritmo para todas as demandas. Logo, perdi as coordenadas e o ritmo da minha fonte, não fosse a resiliência, a paciência e a fé para reestabelecer tudo no tempo que deveria ser e, em alguns casos, em tempos determinados por alguns dos clientes. Me consumiu bastante, tirou meu sono e somatizou-se as dores de um término. Poderia culpar meu ex-namorado, por sua alta “ineficiência” em não conseguir abarcar em um único “tacho” a relação com família, amigos e a própria homossexualidade (expressa evidentemente com um namorado, que no caso era eu). Poderia culpar a “ineficiência” e o sentido de “traição” do meu ex-gestor, que entre idas e vindas já estava conosco há mais de 4 anos e que, inclusive, encarou o desafio de se tornar gestor, função sabida de muita cobrança, organização e “ponta firmeza”. Poderia culpar os opositores ideológicos da minha timeline e os políticos por tudo de ruim e esquisito que está o país este ano. Poderia culpar Deus, por ter botado no meio desse furacão, um cachorro bastante doente.

Poderia tudo isso e mais um pouco, como tirar de mim a responsabilidade do que foi negativo e buscar me colocar como uma vítima das circunstâncias. Mas não. A tempestade passou e a maior crença que levo comigo perseverou: “nós somos a maneira que acreditamos o mundo”. Por mais que a turbulência subentenda, normalmente, sofrimento e inquietação, estas fazem parte de quando se está vivo. Fazem parte única e exclusivamente de nossas escolhas.

Talvez tenha sido nesse turbilhão de 2016 que eu estive mais consciente, de todas as vezes que passei por meus momentos de baixa. Consciente de aguardar, de não sofrer por antecipação por nada e olhar o hoje, o aqui e agora, com a atenção merecida. Olhar cada dia, cada processo necessário para suprir a ausência do gestor, cada ação, cada responsabilidade com meu cachorro com os remédios e atenção e cada dor por não poder evoluir uma relação cuja pessoa me senti tão intensamente apaixonado. Fingir que estava tudo bem? Jamais. Me enfiar em aplicativos, sair para beber ou negligenciar meu dog, nada contra, mas também não. A ideia não é julgar as válvulas de escape alheias, mas resolvi fazer diferente dessa vez. Bem diferente, que foi – basicamente – encarar as dores de frente. Bem de frente, como nunca antes.

Os dias se passaram e do meu moinho, me sinto de novo rumo a parte mais alta. Aceitar que a vida nos condiciona a esses altos e baixos é um passo importante. Aceitar e, principalmente, não culpar os outros pelas circunstâncias daquilo que me desagradaram. Tinha como meta viajar no começo de dezembro sem pendências. Achava que não ia conseguir e teria que fazer vistas grossas para algumas delas para depois, quando voltasse, corresse atrás para não deixar a peteca cair. Mas hoje posso dizer que vou em paz. É a primeira vez que me sinto (bastante) ansioso antecipadamente a uma viagem e me parece que essa emoção vem porque urge uma necessidade de desligar e desconectar com bastante força.

Você, meu querido leitor, pode estar em uma fase difícil hoje. Cheio de desilusões, choques, impactos e quebra de expectativas. Pode, inclusive, estar temeroso por tomar certas atitudes, como anunciar para pais ou amigos, ou terminar aquela relação que te desgasta, preocupado com as consequências. Pode estar com um sentimento de vazio, algo relacionado direta ou indiretamente ao fato de ser gay ou nada a ver com o seu jeito gay de ser. A dica é, basicamente, daqui para frente pensar e agir diferente, ciente de que onde há bônus, há ônus.

Estou para ver escolhas que tragam somente as flores. 2017 será bem melhor se assim você acreditar e aceitar, acima de tudo, que somos falíveis. Todos.

3 comentários Adicione o seu

  1. Frederico disse:

    Esse post me remeteu minha virada para este ano, onde eu decidi encerrar um ciclo de muita angústia e dúvidas e encarar uma realidade mais feliz.
    Realmente, 2016 foi um ano intenso e de muito alto astral, enterrei um EU cheio de paranoias e surgiu alguém mais leve, livre.
    Mas com as mudanças sempre surgem novos desafio e nesse ano descobri novos detalhes a serem lapidados e em 2017 espero colocar tudo em uma mesma direção.
    Acredito que isso tudo chama-se amadurecimento e fico feliz que com 24 anos estou tendo a possibilidade de me encontrar a cada dia.
    É claro, que como todo jovem ainda tenho muito o que direcionar. Espero nos próximos anos me ajustar a real essência da minha vida.
    Adoro esse blog, apesar de ter visita há meses.
    Feliz 2017!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Frederico!
      Espero que 2017 seja um ano de bastante positividade. Que você realize seus sonhos!

  2. lebeadle disse:

    Oi, MVG

    Realmente é isso que vemos no cotidiano dos relacionamentos gays
    as ilusões sendo reduzidas a pó, constantemente, “palavras apenas palavras”
    e como vai ficando nossa alma? Um tanto descrente, realista, cínica mas deve
    haver, pode haver sempre a esperança e viva a fila que anda…

    Abraços

    Le Beadle

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