Márcio e Fernando


As crenças determinam as trajetórias

Poderia ser Márcia ou Fernanda ou Gustavo e Cláudio. O fato é que ambos, Márcio e Fernando, são amigos há mais de 8 anos. Gays, sim, e tal detalhe talvez nem tenha alguma representatividade na história.

Hoje ambos tem 40 anos. Se for para ser preciso, Márcio tem 39 e Fernando tem 41. A amizade de ambos – nunca se relacionaram romanticamente por sinal – foi de muita diversão, passeios, algumas viagens, tours gastronômicos e, ao mesmo tempo, horas de conversa de muita intimidade e percepção da própria vida. Aliás, é o jeito de olhar para a própria vida – de cada um – que vai rechear o post de hoje.

Nas infindas conversas, a mesa de restaurantes, em caronas e viagens, lado-a-lado, Márcio e Fernando desenvolveram ideias sobre relacionamento afetivo, sobre maturidade (ou velhice), as questões do ego e onde nos posicionamos perante nosso entorno.

Fernando construiu a vida profissional no corporativismo e sim, para não vir com hipocrisia, no status de imagem e benefícios financeiros que as corporações costumam dar. Dar, naquele sentido de você trabalhar muito para receber. Deu também para o Fernando todo conhecimento para ensaiar e dançar sobre o pilar das inúmeras politicagens e relações de ego que esse universo tem como normativo. Sob todas as formas, trabalho digno e reputação construída com muito esforço, sempre maquiando e saindo pelas tabelas quando o tema de sexualidade vinha à tona. Fernando acreditava que assim era como tinha que ser.

Neste mesmo contexto, conquistou um belo apartamento – a cobertura – num bairro “cool” de São Paulo. Tinha os “carros do ano” com desconto pela empresa e não hesitava em ter um padrão de vida acima da média. Era o que precisava conquistar a si e a Márcio era digno de admiração.

Na juventude, Fernando era uma pessoa bastante descolada. Trabalhava e investia em viagens. Morou na Europa por um tempo e tudo isso antes de chegar aos 30 anos.

Márcio resolveu ser empresário aos 23. Brigou com Deus e o mundo que fora contra a tal ideia “avançadinha”, de um jovem impulsivo que achava que conquistaria seu mundo. Não tinha um puto para começar. Brigou inclusive com seu pai, por mais de uma década, e não somente por esse motivo. Hoje, pai e filho, estabelecem uma relação amorosa, conquistada com muitos desafios.

Seus primeiros três anos como “empreendedor” foi de uma aridez sem tamanho. Tinha largado um ótimo emprego, que lhe concedia autonomia e 3.500,00 reais por mês, com 23 anos, em 2001, numa época em que um apartamento de 40 no Jardins, em São Paulo, custava 50 mil reais. Mas ele era descabeçado, como seu pai mesmo diria. Não via graça nenhuma em ter um apartamento nos Jardins e não tinha gosto nenhum para conhecer outras partes do mundo. O negócio para Márcio era provar que poderia ser “dono do seu próprio nariz”, como empreendedor e, de quebra, não escondia sua sexualidade para ninguém que entrasse em sua empresa. Se o assunto era viagem, praias do litoral norte de São Paulo ou a natureza de Minas Gerais o apeteciam.

Hoje tem sua casa num bairro distante da região central cujo silêncio é absoluto durante a noite. Tem que fazer praticamente tudo de carro, mas tem um ótimo que confere todo conforto para aguentar o trânsito da cidade grande e o “nível” quando vai atender seus clientes mais “frescurentos”. Com esforço, intelecto e habilidade perante a administração de uma empresa conseguiu uma vida digna, talvez acima da média.

Márcio, com 40 anos, tem trabalhado bastante o sentido de espiritualidade e solidão e acredita que, de alguma forma, quanto mais espiritualizados nos tornamos, mais encontramos a paz na solitude, na arte de olhar para dentro e ser feliz com o que se é desprovido de terceiros. A busca pelo autoconhecimento é combustível para a própria vida.

Ele foi um cara de muitos relacionamentos e muita autoafirmação. Inclusive, no terceiro ano da empresa, em torno dos 25, resolveu casar com outro rapaz, num romance que durou praticamente 3 anos.

Embora tenha namorado muito, nos ciclos de solteirice também curtia bastante. Baladas, festas, coleguismos da noite aqui e ali, saunas, drogas, aplicativos e tudo que, no seu ponto de vista, fosse além da normatividade e ultrapassassem seus níveis de preconceito.

Hoje namora e para contextualizar, é sua décima relação afetiva. O grande lance desse namoro, para Márcio, é que seu namorado lhe confere um respeito determinante a individualidade. O casal não tem a necessidade de se falar todos os dias. Não existe aquelas “regrinhas” de dar “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” e ao final do dia desdobrar todo roteiro do que se passou.

O namorado, por atuar na área de medicina, trabalha em períodos diferentes do trivial e, assim, existe uma autonomia para ambos.

Neste contexto, sobra tempo para Márcio estar consigo e com um punhado de amigos – hoje seletos – para convívio diversos e, detalhe, sem precisar dar satisfação ao namorado com quem sai e quando sai. O vice-versa se estabelece já que a vida do namorado está orientado ao trabalho e, neste contexto, pessoal e profissional caminham em intersecção.

O namorado de Márcio já “deu a letra”: “normalmente, na minha área, as pessoas criam relações afetivas entre si. É muito raro ver gente fora da área que aguenta ou aceita meu ritmo. Um dos motivos de eu estar namorando com você é que você entende”.

Fernando teve menos relacionamentos, mas igualmente duradouros. Na juventude, também aprendeu a curtir a noite e vivia bastante próximo de um amigo em comum a Márcio, amigo que o levava para os maiores agitos. Talvez tenha cessado a fase de “fervo” antes de Márcio e hoje assumiu um casamento, de morar junto, com outro rapaz – mais jovem – que também busca resolver suas suas expectativas atuais no corporativismo.

Dividem o mesmo teto, Fernando e seu namorado, e se completam muito bem, mesmo pela diferença de idade. Antes do namoro oficializar, para depois virar casamento, Fernando compartilhava com Márcio seus medos e receios em se entregar a um rapaz tão mais jovem. Até então, Fernando namorava com pessoas de idades mais próximas. Márcio o incentivava já que, em sua concepção, idade nunca teve correlação direta com afinidade ou, quiçá, maturidade.

Fernando relutou um tempo para aceitar o envolvimento e, por fim, o relacionamento. E casou e vai passar o papel em breve. Estão felizes assim, bem felizes.

Márcio e Fernando já falaram bastante sobre velhice. Fernando tem certo medo da solidão, da perda do vigor no futuro e da necessidade de alguém que, em palavras mais literais, possa “passar a bengala” a ele quando chegar tal contexto. Para Márcio tais questões, embora sejam de sua reflexão, não lhe causa receio. Sua concepção de velhice tange o que ele percebe, hoje, em seus pais. Mais importante do que a bengala aos 70, é estar resolvido no presente.

Fernando, no ano passado, resolveu abandonar o corporativismo e todos os elementos que este conceito carrega, seus bônus e ônus. É até comum essa virada aos 40 anos, algo que acontece com muitos – gays ou heterossexuais – que atingem tal idade e que fazem parte dessa geração. Alguns passam a buscar um novo sentido para a vida nessa fase, o que é lindo, no sentido de que temos vigor para ressignificar nossos modelos na tal “meia idade”.

Naturalmente, Fernando se espelhou em Márcio quando quis empreender. Buscou conselhos, tiveram reuniões e Fernando resolveu iniciar um negócio próprio. Estava com uma boa grana reservada, dos anos de atuação na mesma empresa.

Mas o ano era de 2016, de uma reconhecida crise econômica, política e moral. Além disso, Fernando não deu lá muitos ouvidos aos conselhos e dicas dos amigos que já empreendiam, inclusive aos de Márcio. Márcio “entrava” até onde sentia que não era invasão e, ao mesmo tempo, se não entrou muito, era porque também estava focado em suas próprias questões profissionais. 2016 foi cenário para um jogo da vida nível hard.

Fernando comentou a Márcio certo desconforto em ter que assuntar com seus colegas do corporativismo o tipo de empresa que estava iniciando, algo completamente diferente e, a bem da verdade, embora (sempre) digno, sem nenhum status aparente. Márcio achou até natural tal desconforto já que a camada de imagem que paira na atmosfera das corporações costuma a viciar. Márcio, consciente das dificuldades de se empreender, esteve presente sempre que o amigo o recorria.

O projeto minguou e consumiu boa parte das reservas de Fernando. Ele se viu obrigado a retomar a área conhecida com uma declarada frustração, a Márcio.

A partir de tal ocorrido, do projeto que não virou, não se sabe porque exatamente ou até se sabe mas não se explicitará por aqui, Fernando começou a virar certo crítico de Márcio. Talvez, pelo fato do espelho-empreendedor ter trincado. Talvez porque no imaginário de Fernando, os pensamentos menos ortodoxos sobre relacionamento de Márcio pudessem atrapalhar o modelo mais tradicional de seu relacionamento que, ao mesmo tempo, se iniciava. Talvez porque as diferenças existentes na maneira de se acreditar nas coisas da vida gerasse algum incômodo ou ameaça. Talvez um pouco de tudo isso, numa fase não muito boa de Fernando.

Márcio anda com uma certa preguiça de encontrar Fernando por um motivo óbvio: ser julgado gratuitamente, sem uma razão clara. Tampouco está com muita paciência de questionar a Fernando os por quês de tais tratos, já que entende que, se existe algum problema de Fernando com ele, o mesmo teria toda abertura para trazer com franqueza. A franqueza, por algum motivo, desapareceu.

Fernando afirma hoje, com ar de impaciência, que Márcio é uma pessoa muito metódica e fechada no próprio quadrado porque prefere se tornar um habitué de Nova Iorque a avistar outros lugares.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

 

4 comentários Adicione o seu

  1. Carlos disse:

    Esse post foi autobiográfico?

    1. minhavidagay disse:

      Oi Carlos. Semi-autobiográfico. Bem observado :)

  2. Ítalo disse:

    Qual a moral da história?

    1. minhavidagay disse:

      Deixei em aberto este texto para que os leitores desenvolvam suas próprias reflexões. O fato é que a maneira que a gente acredita as coisas (nossas crenças) determinam as pessoas que somos, determinam atitudes, medos e postura perante nosso entorno…

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