Não curto negros nem orientais


Convivo com negros e orientais mas eles não me atraem

Não costumo referenciar textos de outros sites destinados ao público LGBT, mas por dois motivos, (1) do tema me parecer bastante atual em um contexto do “politicamente correto” em alta e (2) pelo Marcio Caparica, editor do Lado Bi merecer uma citação pelo trabalho que faz, além de ser um colega de velha data, resolvi embasar o post de hoje nessa reportagem. Humildemente, me apropriei do título dessa vez.

A sociedade gay desqualifica negros e orientais

De uns anos para cá passei a analisar a frase: “convivo com orientais e negros tranquilamente, mas eles não me atraem” – principalmente depois que eu superei meu autopreconceito – e defini o quanto esse discurso (conhecido) é um modo de escape preenchido, por completo, de uma postura preconceituosa e discriminatória.

Talvez seja uma das formas mais banalizadas de se pular o capítulo “sim, sou preconceituoso e não quero enxergar” e, de certo, eu poderia ser um “alemão” a escrever este texto pois, quem convive em meu entorno, sabe como tenho bem resolvido o lidar com essa realidade, livre para escrever um post desse tipo sem o teor de autodefesa. A defesa, se existe, é para quem ressente tais gestos e um toque para quem não se dá conta que pratica.

Gays embora façam parte de uma minoria conhecida que nos distancia de uma sensação de pertencimento a qual – no imaginário – pode se entender como mais normativo, são também transmissores de preconceito, os étnicos neste caso.

Heteronormativa ou não, a cultura de destaque aos brancos é pulverizada em todo planeta e o texto do Lado Bi não me faz mentir, já que é uma adaptação de conteúdo do The Guardian.

Em posts antigos eu já levantei a questão com certo humor: “por que orientais e negros são abas em sites pornôs, ao lado de ‘dotes’, ‘twinks’ e ‘handjob’ e brancos não se apresentam assim igualmente?”. Por aí fui entendendo o alto teor fetichista e segregário, o oposto do sentido de abarcar tais etnias como é feito aos brancos.

É tão enraizado em nossa cultura (gay) o trato subdiferenciado a tais etnias que não se percebe o teor racista do discurso “convivo tranquilamente com orientais e negros, mas eles não me atraem”. Por outro lado, a cultura oriental – por conhecimento de causa – abarca adeptos fanáticos que idolatram orientais. Tal paixão reverbera no universo gay e, muitas vezes, encontramos gays brancos que só se relacionam com olhos puxados.

O fato é que, de senso crítico apurado e carências depositadas em seus devidos lugares, orientais ou negros não deveriam ser condescendentes com as posturas refratárias (que obviamente geram incômodo), nem com aqueles que idealizam uma raça. Não estamos nem acima e nem abaixo de nenhuma outra etnia e consentir com uma supervalorização, no caso, é dar combustível ao preconceito.

Particularmente recusei me aprofundar (no sentido de caminhar para um relacionamento mais duradouro) quando a supervalorização pelo fato de eu ser oriental estivesse muito presente. Ao contrário disso, e isso é uma característica pessoal, fui o “primeiro oriental” de alguns ex-namorados que em alguma medida carregavam o discurso “convivo mas não me atraem”.

Mas apenas apontar o dedo para os milhões do “convivo mas não me atraem” não parece ser a postura que determinará a mudança de ótica. Muito menos reclamar da existência destes indivíduos ou da mera constatação “eles existem e eu já sofri com isso”. O buraco é bastante fundo, largo e costumo dizer que essa exaltação à fisionomia europeia teve seu início no movimento Renascentista, aquela mesma de Leonardo Da Vinci e Michelangelo, quando a figura de Jesus, branco, de olhos claros e cabelos aloirados foi determinada como padrão. Nos dias atuais, embora pareça arcaico, reverbera ainda o sentido de empoderamento greco-romano que teve início há milênios e determinou diversos pilares de nossa cultura, incluindo a estética e todos significados nela contida. Há brancos que, sim, se aproveitam disso, embora inconscientes e antiquados.

Talvez você seja um dos “convivo com negros e orientais naturalmente, mas eles não me atraem”. Talvez isso seja um problema limitante de sua parte, não dos orientais, nem dos negros… “melhore”, provavelmente, seja a palavra mais acertada para o caso.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

7 comentários Adicione o seu

  1. Carlos disse:

    Bom, entendo ser importante sua observação a respeito de preconceito e outros fatores limitantes, mas também acredito que as pessoas têm suas preferências e atratividades. Qual o problema de falar que o indivíduo x, y ou z não me atrae? Em momento algum acredito que isso seja falta de respeito, apenas questão de atração. Ser politicamente correto é importante, entretanto, não nesse nível que você abordou! Poxa, se eu tenho preferência por tipos mamelucos ou cafuzo e dizer que não me sinto atraído por orientais reflete algum tipo de preconceito? Ok, se for assim, seremos mais uma vez limitados em nossas escolhas! Repito e refuto qualquer tipo de preconceito, mas agora determinar o que eu gosto ou não dentro da minha homossexualidade acredito ser demais. Flávio não seja tão radical! Não sentir atração por uma etnia qualquer não representa preconceito, menos muito menos nessa onda do politicamente correto! Por favor

  2. minhavidagay disse:

    Oi Carlos,
    tudo bom?

    Se a sua crença o leva a pensar assim, não tem porque debater. Agora, como você citou no começo da sua crítica, a despeito do “politicamente correto a todo vapor” que nos envolve ultimamente – e que para mim é muito chato pelo excesso – este conteúdo e o texto que me inspirou a escrevê-lo estão para reflexão. O pensar a respeito, dentre tantos maus hábitos culturais que praticamos sem nos dar conta, é interessante.

  3. Carlos disse:

    Flavio,
    Acredito e tenho como lema que todos devem ser respeitados a despeito de qualquer “rótulo”, antes de tudo somos seres humanos.
    Quanto ao tema polêmica desse post, entendo que o politicamente correto seja importante para a difusão de um maior respeito às minorias. Apenas acredito que em certos aspectos ela extrapola em seu objetivo. No caso das preferências por determinados tipos físicos, o que a turma do PC nos diz é o seguinte, se levarmos em conta o propagado, eu poderia gostar de mulher, pois é um preconceito meu eu não gostar ou não ter tesao por ela, entende? Acredito que toda a radicalização seja negativa.

    1. minhavidagay disse:

      Bom dia, Carlos!

      Não consigo ver onde você enxerga a radicalização e lhe pergunto: por que não se ouve muito uma frase do tipo “convivo naturalmente com brancos, mas eles não me atraem”?

      Pergunto também: “por que ‘brancos’ não fazem parte de uma aba de site pornô”?

      E ainda, por que é tão comum ler “não para negros e orientais” na descrição de perfis em aplicativos e não se lê “não para brancos”?

      Eu convido o leitor a responder tais perguntas. Apenas. Eu trocaria o discurso da radicalização por provocação. Sim, é um texto provocativo mas não radical.

      Até mais!

  4. Raduan disse:

    Parabéns pelo texto,sou negro,urso e já observei situações assim em aplicativos.
    O que ocorre é que boa parte desses caras,vive preso dentro de uma caixinha pronta,embrulhada. Muitas vezes a nossa verdade nos cega.

    Agora,me dirijo a você,Flávio :
    Já ficou com negros? Namoraria um cara negro?

    1. minhavidagay disse:

      Bom dia, Raduan! Posso dizer que meus dois relacionamentos mais longos foram com descendentes de negros. Um deles foi um casamento de quase três anos.

      Não sei se estes fator me isentam de algum preconceito étnico, mas não tenho problemas em construir afetividade ou ter relações sexuais com negros ou descendentes.

  5. jonas disse:

    eu sou negro e tenho um namorado branco e pelo que tenho visto a premissa do tamanho do penis atravessa as fronteiras dos generos, ele mesmo me disse que so ficou comigo pela primeira vez pq me achava gostoso mas sem compromisso, depois foi desaflorando, para mim não é novidade pq as mulheres tambem tem esse habito, mas eu acho que esse negocio de não ter atração por negros e orientair não me ofende em nada, pq nem todo branco é bonito mesmo eles falam como se bastasse ser caucasiano pra nascer galã e não é bem assim rsrs

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