Anjos e demônios


Devaneios sobre o nosso comportamento

Em 1998 eu não estava pronto para me entender como gay. Tinha 21 anos e vivia o penúltimo ano da faculdade. Qualquer afirmação a minha homossexualidade era motivo de contenção. Não era bem resolvido, não aceitava ainda a ideia de que eu era gay e preferia deixar esse assunto e qualquer desejo relacionado à minha homossexualidade em algum lugar escondido, reprimido. Meus demônios falavam mais alto, estes, evidentemente enrustidos em meus medos sobre quem eu era por inteiro.

Naquele mesmo ano, houve o assassinato de Matt Shepard em Casper, Wyoming. Os suspeitos, de mesma idade, em torno dos 23 anos, poderiam assumir o mesmo vulto da homofobia – aquele que a gente conhece – e que mata um homossexual a cada 28 horas no Brasil. E de fato assumiram, sem remorso a princípio.

A história de Matthew Wayne Shepard repercutiu o mundo inteiro naquele ano. Mas eu, tentando reprimir meus desejos iguais ao dele, de interesse por outro do mesmo sexo, era totalmente alheio a qualquer tipo de informação relacionada a homossexualidade. Eu não gostava de mim por ser gay e, vejam só que a pessoa tão segura e definida que vos fala, não nasceu pronto. Não cheguei a pensar na ideia de que “se eu pudesse mudar, eu faria”, mas não aceitava a possibilidade para seguir em frente com aquilo. Na minha cabeça eu conseguiria esconder – de mim – a minha homossexualidade para sempre e seguir como eu era. Ledo engano.

Teve todo um caminho pessoal para ser percorrido, inclusive, para me tornar uma fonte de referência ou inspiração para essa ideia de ser gay. Tornar positiva e ampla a homosexualidade, para a maioria, ainda é um processo, a começar pela autoaceitação. E naquele tempo, fontes de referência como há hoje eram inexistentes. Estamos falando de uma época de Internet discada…

Mas o mais interessante da história de Matt – algo que pode ser elucidado no documentário “Matt Shepard is a Friend of Mine” no Netflix – foi o que aconteceu depois de sua morte. Não me refiro propriamente a repercussão midiática, que provocou uma pulverização da comoção sobre o caso pelo mundo, principalmente nos EUA, envolvendo até Bill Clinton, democrata e presidente a época. Me chamou a atenção as posturas e atitudes após a sua morte, daqueles que o cercavam.

Os dois assassinos e as namoradas – cúmplices – assumiram o mau feito. A pena de morte estava prescrita e bastava que os pais de Matt validassem a sentença, num “condado” onde a pena de morte faz parte da normatividade. Mas ao contrário do que dita o Código de Hamurabi, Lei de Talião, do “olho por olho, dente por dente”, seus pais decidiram absolver os bandidos. Fenômeno, talvez, que subentenda um nível de desenvolvimento emocional e espiritual bastante elevado.

Seríamos capazes de perdoar pessoas que cometessem crimes semelhantes com amigos, filhos ou irmãos?

Não menos interessante, em entrevista no documentário, o padre próximo a família que conduziu o enterro de Matt, foi questionado se dentro daqueles dois assassinos poderia existir alguma coisa boa. Ele parou, pensou um pouco e respondeu: “provavelmente há alguma coisa de bom neles. Ninguém é todo mal e todo bem”. E ainda comentou a amiga de Matt, idealizadora do documentário: “mas vocês tem o direito da raiva. Continue com a raiva pois é a maneira para vocês mudarem as coisas”.

Achei tão distinta e filosófica a postura do padre. Ele, como um dos milhões de condutores do Cristianismo, assumiu sua posição, aquela que tem a inerência de enxergar a completude do indivíduo, da sociedade e ser capaz de acreditar em algo bom em dois assassinos tão cruéis. E, ainda, legitimar a raiva existente em todos aqueles que buscassem reinvidicar por mudanças de consciência diante ao fato. Pensei comigo: “nem todos interlocutores do Cristianismo são de todo parciais, quando sobressai em seus valores a legítima filosofia”.

Será que nós temos algum papel, seja em nosso entorno familiar, profissional e como parte de uma sociedade? O que efetivamente trazemos de bem e mal a todos que nos cerca? Qual é nosso posicionamento perante a própria vida?

E mais: o que é bem e mal dentro de cada um de nós? Temos consciência disso ou estamos mais preocupados em achar o mal nos outros para, inclusive, justificar as benesses de nossas vidas? Será humana a necessidade de se alimentar da “queda” de algumas pessoas para valorizar nossos “bem feitos”?

De fato, não somos apenas anjos e os demônios, sim, são os que habitam por dentro. É nessa integração, da natureza dual universal, que as pessoas conduzem a maioria de seus atos. Acontece, as vezes, que opiniões políticas que serão eternamente partidárias pela natureza da política, entrarão na mesma discussão para dizer, por um lado, que “bandidos como esses tem que morrer!” e, por outro, de que “as questões são mais profundas e exigem mais discussão!”.

Seríamos capazes de transcender os mesmos velhos discursos ou até mesmo a dualidade que dá a sustentação ao discurso? A dualidade é real ou é fruto de uma cultura construída?

Se posicionar num dos pólos, seja lá qual dualidade esteja em pauta, sugere rigidez, concentração e conservação. Sugere também a dependência da existência do pólo oposto para afirmar a própria existência. Por exemplo, o sentido de bem só ganha contornos palpáveis quando se entende o sentido do mal. E só há clareza de percepção do que é mal quando existe a referência do sentido de bem. Essa interdependência parece fazer sentido em qualquer tipo de oposição e uma justifica a outra.

Um post hoje dedicado a “vã” filosofia que por essência pode ser inconclusiva e acompanha as dinâmicas sociais durante os tempos.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s