Expressão de gênero


Nós gays: reflexões sobre a expressão de gênero

Minha sobrinha complentou dois anos no começo do mês e teve festinha lá no Rio de Janeiro, cidade onde meu irmão, minha “cunha” e a pequerrucha se instalaram. No primeiro ano de aniversário não pude ir, sei lá por qual situação da vida estava passando, mas fiz questão de celebrar esse segundo ciclo.

Com apenas dois anos, é impressionante como o sentido de “gente” já se estabelece nessas “mini-pessoas”, embora ainda livres do poder agudo de julgamento.

Uma festinha desse tipo, simples porém digna, foi realizada basicamente para os pais, muitos deles cercados de suas respectivas proles com a mesma faixa de idade de minha sobrinha. Meu barato, entre alguns comes e papos com meus pais, foi passar horas vendo como essas crianças se comportavam.

Com dois anos, embora a minha sobrinha entenda praticamente tudo, o sentido de mundo é ainda bastante restrito e a natureza livre de julgamentos mais elaborados, tabus, regras sociais, ética, malícia, moral e etc. se faz presente.

Eram crianças na mesma faixa de idade, meninas e meninos. E o mais interessante de tudo – no ponto da expressão de gênero – é que ficou evidente o quanto a minha sobrinha é delicada, por exemplo, em relação ao João, 3 ou 4 meses mais novo. Feminina, assim como outra pequenina que estava por lá. São os gestos, a velocidade dos movimentos, a intensidade de gritos e as tentativas de palavras.

É claro que a ideia de gênero, do tipo “banheiro para mulheres e banheiro para homens”, é algo determinado pela cultura e não tem nada de inato ao ser humano. Mas arrisco a dizer que se as coisas se estabeleceram assim é que essa natureza primitiva, evidente em crianças de dois anos, sugeriu a sociedade tais construções normativas, como a divisão de banheiro.

Não faço aqui uma defesa aos modelos pois, a minha sobrinha poderia ser muito menos delicada do que é. E o João, que cruzava esfuziante o salão de festas, poderia ser diferente daqueles trejeitos de menino. E ambos, ainda, podem mudar com o tempo, acreditando-se que a expressão de gênero é construída por anos e não tem correlação direta com a sexualidade.

O que eu quero dizer é que, com a evolução da sociedade e com pais cada vez mais conscientes sobre tais naturalidades de gênero, se a minha sobrinha fosse como o João, existiria muito mais permissão para ser, sem aquela necessidade (antiga ou conservadora) de rotular comportamentos de uma criança de dois anos e colocá-la em moldes porque “uma menina agir como menino é feio” ou “o que os outros vão julgar”. O “feio”, neste caso, já é a culpa martelada precocemente e que tem tudo para virar transtorno no futuro.

É bonito de ver essa naturalidade, mesmo ciente de que a maioria dos meninos se portam como meninos e o mesmo acontece com as meninas. É da naturalidade também encontrar pequenas crianças de dois anos cuja expressão de gênero não seja a mais óbvia, menino agindo como menina ou menina agindo como menino. Igualmente bonito, pela natureza que os fazem. E o mais relevante é entender que, embora essas últimas façam parte de uma exceção a regra, tudo faz parte da originalidade de um indivíduo. Da impressão pessoal, da beleza do uno.

No final, quem julga, define ou estranha é o adulto que, como adulto, está mais ou menos preso as suas caixinhas, ao juízo de valor e ao julgamento. A ideia de “o que os outros vão pensar” e o quanto isso incomoda ou não, determina e define o quanto um indivíduo depende da aprovação dos outros.

Uma criança de dois anos é livre e ela é o que é não importando muito o nome. Não tem jeito mais imbatível (e divino) de dar um tapa na sociedade.

Você já parou para pensar o que fez com essa criança? O que você, por você mesmo, fez a ela?


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

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