Gays e os novos prazeres aos 40 anos

Relato: novos prazeres aos 40 anos

Vire-e-mexe transcrevo alguns relatos pessoais (antigamente fazia muito mais) para funcionar como referencial ao público gay que busca por isso. Hoje vale a pena trazer algo assim.

(Este post não tem romantismo nenhum e falará de alguns tabus de maneira bastante direta. Se você procura por romantismo, este texto não vai cair bem!)

Estou prestes a virar a curva dos 40 anos, como indivíduo gay e, ao contrário do que se estabelece quando temos 20 e poucos anos e imaginamos – no geral – os 40 como “coisa velha”, chego nessa marca dizendo aos companheiros “40tões” que a vida pode nos proporcionar boas novidades a cada fase.

Resumidamente, o cenário pós-moderno nos oferece opções: técnicas de alimentação e controle de peso, cultura de academia e esportes, informações cada vez mais amplificadas e diversificadas sobre como manter a juventude ao passar das gerações, medicamentos mais eficientes, produtos de beleza voltados para homens, terapias ortodoxas e holísticas, a cultura da moda cada vez mais pulverizada e, assim, a ideia de ter problemas aos 40 anos para quem adquire um hábito de prevenção, vai ficando distante, seja a voltada para a mente, corpo ou alma. Neste contexto ainda, citei recentemente meus pais em outro post: na média dos 73 anos, ambos continuam vigorosos e passaram o Reveillon sozinhos dentro de um navio no Caribe. A diferença é que parece que ultrapassar os 60 com vigor é culturalmente motivo de orgulho e, as vezes, estar nos 40 é um “limbo”, nem jovem, nem maduro. Sigo com este texto para brigar com tal olhar para quem, na intimidade, o tiver.

Referências aos gays de 40 anos

O gay de “meia idade”, de fato, tem pouca referência para poder se espelhar ou, como a palavra já diz, se referenciar; principalmente quando o assunto é Internet. A maioria dos portais e sites destinados aos homossexuais traz temas e conteúdo que alimentam a cultura gay para o jovem de 16 a 30 anos, mas não costuma construir com dedicação assuntos correspondentes a quem já passou dessa idade. Um dos pontos positivos do MVG é que ele narra vivências dos meus 33 anos para hoje e, quase que inevitavelmente, pelos anos a frente. Em parênteses, fica e ficará assim a trajetória de um gay cujo referencial será também as décadas vividas.

Como sexo é muito tabu e sexualidade (dentre outros temas), aqui, são descritos da maneira mais filosófica (abrangente) possível e não política (partidária), é notável que não tenho muitos dedos ou fatores de julgamento que possam restringir o assunto. Salvas exceções como a pedofilia – tipo de desejo que a mim cai na classificação proibitiva pois o jovem abusado, que não tem consciência dos atos, é (tristemente) manipulado e invadido sem consentimento – os prazeres sexuais realizados de comum acordo / consenso e consciência do ato, a mim, devem ser seguramente vividos.

Com quase 40 anos, tenho chegado a determinados prazeres anais nunca antes sentidos. E já aviso que qualquer julgamento a respeito sugere uma possível autocensura. No último final de semana consegui ter um tipo de orgasmo contínuo, que durou minutos, sem ejacular. Foi uma sensação nova e, como os homens possuem a próstata que é sensível a estímulos, são todos passíveis de alcançar tal prazer.

Eu não sabia o que estava perdendo.

Costumo dizer que, sim, existem alguns homens gays/homossexuais, jovens ou adultos que possuem uma predisposição a passividade no ato sexual. É incrível e confesso uma certa admiração. Assim como existem os hábeis ativos. No meu caso, ser ativo, a despeito de meus bloqueios psicológicos que foram se reduzindo durante os anos, sempre foi fisicamente e anatomicamente mais fácil.

E foi no meu interesse em ser hábil na versatilidade durante os anos (e interesse subentende propósito, vontade e querer) que fui treinando e praticando com meus namorados e, as vezes, com relações passageiras.

Foi um exercício de persistência, resiliência e desejo, no meu caso. Razão e emoção misturados. Independentemente dos caminhos e das formas que cada um busca encontrar prazer – no caso o sexual – chegar aos 40 anos, como gay, e me deparar com novas sensações prazerosas, é me autoproporcionar possibilidades. Quebra com qualquer crença limitante que eu poderia estabelecer à minha idade.

Uma coisa é eu fazer “charme” entre amigos, em rodas sociais e querer algum confete por ter 40 anos. Outra coisa é o real, como eu me sinto nessa idade e da maneira que eu “confidencio” no Minha Vida Gay.

O Rafa, meu namorado, ficou contente em saber sobre esse prazer que ele me ajudou a chegar, claro, e tal situação deu abertura para que falássemos sobre outros assuntos tabus, pontos a mais para a construção de uma intimidade e, mais do que fidelidade, a lealdade. De qualquer forma, a ideia aqui não é ostentar o meu namoro.

Há um mito internalizado e na maioria das vezes inconsciente – criado provavelmente pela cultura heteronormativa / machista e enraizado em cada ser masculino do Brasil (gay ou heterossexual) – de que homem não compartilha certas intimidades; não mostra seu lado sensível; “não chora”. Isso também está mundando, ou melhor, não tem que ser o único modelo de conduta. Temos medo de trazer certos assuntos e – medo – é a expressão do bloqueio. Homem, a bem da verdade, é tanto quanto senão mais refratário a dor do que a própria mulher.

Outra conquista que se tem, pelo menos eu que estou próximo dos 40 anos, é de enxergar tudo ou quase tudo com mais desprendimento, desapego e naturalidade, em um processo trabalhoso e constante de me livrar de meus julgamentos e comparações. Sem neuras, sem regras que visam a conservação de alguém ou algo a si, num exercício consciente de que somos humanos e passíveis de fazer cagadas; somos falíveis.

Rafa e eu falamos sobre a possibilidade de, um dia, experimentarmos o relacionamento aberto. O fato do assunto ter vindo dele (e não de mim, que tenho certa expectativa de viver deste consenso em alguma fase da vida) me deu uma tranquilidade. Me deu um alívio de poder falar do assunto desarmado, sem que o discurso caísse nos tradicionais adjetivos, dos julgamentos, do apego, da posse, da normatividade, do sentido Cristão internalizado, da monogamia acima de todas as formas e etc.

Chegar aos 40 anos e finalmente encontrar alguém que, também, entenda essa possibilidade consensual no futuro, dentre tantos detalhes presentes e sutis na construção de afetividade, do companheirismo e da lealdade entre duas pessoas que se predispõe a estebelecer um namoro, é também uma conquista que associo a energia e vibração que estou hoje, aos 40 anos.

Então, vou concluindo o post afirmando que os 40 anos pode apontar para um novo mundo e, se é para comparar, com mais autonomia e segurança de quando se tem 30. A questão, de novo, é para quais trajetos orientamos a nossa própria vida e quanto tais trajetos são determinados, invariavelmente, pelas nossas crenças (as coisas que a gente pensa e acredita; as coisas que a gente compra como certo ou errado, bem ou mal).

Somos todos capazes de transformar os caminhos os quais, aparentemente, estamos fadados. Somos todos capazes de construir trajetos, daqueles que queremos. Acontece que com a bunda na cadeira não tem como dar certo. E esta é uma verdade absoluta, das poucas que me fazem sentido como absoluto.

PS: vou para Minas Gerais no final de semana e subirei um pico de 2 mil metros de altura. São 4 horas em direção ao topo e mais 4 para descer. Fiz esse trajeto aos 29 anos. Tenho certo que estou muito mais bem condicionado hoje, aos 39.

“Não deixe para amanhã o que você quer ou tem que fazer hoje. Tire sua linda bunda da cadeira”.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

6 comentários Adicione o seu

  1. RO Fers disse:

    Interessante o post.
    Infelizmente para os gays, 30 anos já é considerado velho, uma tremenda ignorância.

    Confesso que morro de medo da velhice !

    1. minhavidagay disse:

      Você tem quantos anos hoje, Ro Fers?

      1. Ro Fers disse:

        Casa dos 30….snif snif snif….

      2. minhavidagay disse:

        Ahhh… é já tá chorando? =P

  2. Acompanho seu blog já faz uns três anos. Parabéns, você contribui para o fortalecimento da autoestima de muitos homossexuais. Todo o sucesso e felicidade a você, caro autor do Minha Vida Gay !

    1. minhavidagay disse:

      Oi Fládson
      Um pequeno depoimento de enorme valia para mim. Obrigado pelas palavras!

      Um abraço,
      Flávio

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