A cor da sua luz


Vida gay, minha vida, sua vida. É da maneira que a gente acredita.

Nunca livros de autoajuda, instituições familiares e religiosas, sites de “elevação mental, emocional e espiritual” e redes sociais com frases de esperança, ou até mesmo músicas com essa conotação de “dias melhores” fizeram tanto sentido. Quer dizer, nunca para quem nasceu a partir dos anos 90, quando o assunto é o território Brasil e diversos dos paridos ao final do século XX têm, pela primeira vez, a sensação prática de um país “do avesso”.

É natural para a maioria da humanidade – seja o gay, heterossexual ou variantes – recorrer (ou agarrar-se) a tais recursos terceiros (para a nossa salvação ou para justificar nossas angústias) quando o contexto parece tão sem esperança, bagunçado, polarizado e sem um caminho claro a percorrer. A necessidade de pertencimento, aceitação e vontade de compartilhar nossas dores se intensifica.

A estranha sensação do “cada um por si e Deus por todos”, no final, ajuda a formar a névoa da falta de esperança e, assim, o pavor dessa perdição nos confunde e turva a clareza do pensar.

O justiceiro

É humano também ver uma maior incidência de pessoas querendo resolver suas mazelas com as “próprias mãos”, apontando rapidamente para um “bandido”, numa intenção frágil de descarregar as próprias faltas naqueles que, hipoteticamente, parecem mais fortes ou se configuram como vilões em nosso imaginário. Floresce, assim, o estereótipo do justiceiro, que pode ser um “Zorro”, um “Robin Hood” ou um integrante de um grupo homofóbico ou um indivíduo de aparência ordinária; vai depender da ótica do lado em que se está, nessa realidade maniqueista. De qualquer forma, justiceiro sempre foi personagem de destaque nos mais diversos contextos de depressão e de intolerância às diferenças.

As pessoas passam a valorizar mais certa ideia do bem e do mal: “O ‘bem’ sou eu. O ‘mal’ é aquele que de alguma maneira pensa, age e autoafirma diferente de mim”. A grosso modo, nos tornamos donos da meia-razão e detentores da verdade-total que, “qualquer coisa que for diferente daquilo que se estabelece como meu hipotético porto seguro atual, está errado”. O que é diferente dá medo.

Assim, por um lado, a ideia do “homem é o lobo do homem” fortifica-se e, no caos, “salvem-se quem puder”. Existe a sensação de 1.000 boias para 5.000 pessoas. Há a necessidade de se provar que “uma boia tem de ser minha pelo meu exclusivo juízo de valor”. “Eu estou certo porque tenho aprovação da minha bolha”.

Na aflição contextual, tudo que soar aprazível aos nossos ouvidos, olhos, nariz e mãos, vem com mais intensidade. Estamos a flor da pele.

O ereto

Por outro lado, “tudo é questão de ter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. Pode-se ter consciência ou não de contexto. Pode-se estar a par ou não do exato momento do país e de mundo e sobre as situações de nosso entorno familiar ou social. Pode ser gay, heterossexual, bissexual, g0y, gouine, trans ou demissexual. Pode sentir ou ressentir algo ou não, relacionado ao nosso momento de vida, de sociedade ou de mundo. Haverá uma margem suficiente de mente quieta (foco, resiliência, de olhar para frente), de espinha ereta (honra, firmeza e disciplina) e de coração tranquilo (em paz consigo, numa busca daquilo que torna a si perfeito e imperfeito) sem precisar apontar o dedo da culpa para um terceiro, sem precisar autoafirmar exageradamente a satisfação sobre um grupo ou instituição a que se pertence, assumindo as pétalas e os espinhos que estão contidos por dentro.

Aceita-se que o indivíduo é feito dessas pétalas e espinhos. E muito mais do que isso.

Sejam mulheres, homens, gays, heterossexuais, trans, gouines, g0ys, bissexuais, demissexuais. São agentes, responsáveis pelos lugares, situações e pessoas que entram ou entraram e saem ou saíram de suas vidas. Não há um ímpeto – de propósito manipulatório ou não – de criar embates ou fazer vingança. Permitem-se a viver a transitoriedade das coisas, das pessoas, da vida. Cortam com mais facilidade os cordões umbilicais presos ao passado.

Supera-se.

Por meio das próprias escolhas (e fatalmente serão próprias), sustentam-se no orgulho pelos acertos e resignam-se perante os próprios erros. Sentem-se empoderados o suficiente, as vezes até mesmo infringindo certas leis para – justamente – transformar a maneira que as coisas funcionam. São ingênuos com isso, mas não deixarão de ter fé nas próprias crenças, nas pessoas, mesmo aquelas que – hipoteticamente – os fizeram ou fazem um tipo de mal. Por que o juízo de “bem ou mal” é do justiceiro. Poderão passar por maremotos e avalanches e o ideal de gratidão permanecerá inabalável.

Gratidão por até sermos falíveis.

Talvez, a verdadeira força não esteja no combate moral, mas na segurança de que a consciência sobre os próprios princípios e intenções é imbatível pois povoa a alma. E é pessoal, intransferível e, normalmente, se sustenta no silêncio. Não depende de aprovação.

Por um lado ou por outro, neste rompante do ser humano em bipolarizar os sentidos das coisas, ambas formas – do justiceiro ou do ereto – estão contidos dentro do indivíduo.

A dúvida é saber qual deles deixaremos conduzir os nossos atos. Enquanto um acredita que terá paz por fazer a justiça mediante o ambiente e a frente do tirano, o outro trabalha para encontrar a paz consigo. Somente.

Ao justiceiro cabe o aprisionamento. Ao ereto, o libertário, dos mais diversos campos de rosas e espinhos.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

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