Sapiens


Homossexualidade e Biologia

Desde o final do ano passado resolvi me afastar (drasticamente) do meu Facebook. Como alguém afeito as diferenças/diversidade, cheguei a “preguiça extrema” ao me deparar, todos os dias, com o clima de polarização política que tinge a minha timeline de pequenas guerrilhas. Meu pequeno grupo diverso, que abarca direitas simpáticas aos discursos trivais da ala, esquerdas pró-feminismo e expressão gay e centros convictos, resolveram encostar e ficar na fase “a culpa dos problemas do Brasil é todo seu”. E assim, acumulamos mais de 14 milhões de desempregados, uma libertinagem e permissividade no Planalto Central e, mais recentemente, certa ruptura no STF. A “última trincheira” que é o jurídico do país está rachada.

Tive que ler, por exemplo, expressões acaloradas e ofensivas de amigos gays pelo simples fato de eu, no momento, me sentir apático em relação às expressões de Jean Wyllys que, ao meu ver, se tornou um ícone “socialista”, conveniente e encaixado ao contexto maniqueísta, e deixou em segundo plano ou sabe-se lá em qual esfera a divulgação de seus temas e projetos.

Gastei muita saliva, ou melhor, dedos, em 2015 e 2016, quando toda balbúrdia começou. Cansei de tentar levar aos meus amigos a ideia de que o embate em nível popular não nos traria nenhum fruto próspero apontando para saída da crise, embora um sentimento de frustração de ver pessoas queridas se engalfinhando nas redes sociais, se estabeleceu. Cansei mais um pouco.

Com 40 anos a gente sabe o que quer, sabe o que não quer e sabe o que tanto faz. Mesmo sabendo que a crise nas amizades por causa de “idelogias” não cheirava à indiferença, resignei.

Nesse ínterim tive o privilégio de curar minhas ânsias sociais, culturais e políticas em um livro recomendável: “Sapiens” de Yuval Noah Harari, um historiador palestino que leciona em Oxford. Um best-seller que é um bálsamo para aqueles que buscam pelos sentidos da existência, da homossexualidade, das religiões, dos impérios, sociedades e tudo que nos fazem assim, humanos.

O fato é que a leitura reforçou a sensação, já conhecida, de que somos muito pretensiosos. Principalmente pelo fato da maioria de nós não entender o contexto social, político e cultural para além do confortável e imexível umbigo, seja o “grupo” que for.

Estamos neste planeta há apenas 200 mil anos e podemos dizer que somos humanos – Homo Sapiens – com a conhecida consciência, há nada mais, nada menos do que 40 mil anos. Podemos dizer que a sociedade moderna, que conhecemos hoje e que nos confere as batatas fritas do Mac Donald’s, a produção de bolsas de palha em uma instituição do tipo Waldorf, os bons homens do combate ecológico, a inclusão dos gays em sociedade, as benesses dos stakeholders capitalistas e o manifesto a favor dos transexuais e transgêneros foram consequências de um olhar europeu (particularmente britânico) que se estabeleceu há pouco tempo atrás, entre 1.500 e 1.750, por meio das grandes navegações. Em outras palavras, toda cultura, senso de direitos humanos, modelos políticos, econômicos, religiosos, culturais e filosóficos foram determinados, e carregamos até então, por pura influência da terra da rainha.

Ao passo em que no Brasil se confronta o humanismo liberal VS. humanismo social, o debate entre Donald Trump, Putin e Kim Jong-un é a pura expressão do imperialismo, com tom de humanismo evolutivo, que é assim desde a formação das maiores sociedades, denominadas culturalmente de impérios.

Yuval Noah Harari trás em suas linhas um compilado das provas, teorias e resquícios atualizados e validados pelas mais altas cadeiras científicas da atualidade. Trata a questão da homossexualidade, dessa coisa de sermos ou não gays, de uma maneira banal e corriqueira, como se dissesse: “por que as pessoas perdem tanto tempo criando caso com o fato de fulano ser gay? A natureza apresenta provas do interesse sexual entre outros do mesmo sexo, em diversas espécies, há milhares de anos. Não tem nem o por quê de ficar perdendo tempo com essas construções culturais e religiosas de repúdio aos gays”.

Outro ponto alto do livro – que me fez gargalhar por alguns minutos – diz respeito ao tipo de impulso que fez nossos últimos ancestrais se tornarem humanos, o “toque divino” segundo o criacionismo ou o elemento internalizado que proporcionou o salto evolutivo, segundo a ciência. Primeiramente, saber que a evolução veio ao acaso, como uma falha genética em todo processo, me fez – no mínimo – questionar sobre nosso egocentrismo. Em segundo, a classe científica tem determinado, hoje, que o Homo Sapiens teve dois grandes estímulos para o “clique” definitivo, quando os últimos acentrais não-humanos tornaram-se humanos: (1) há teorias validadas de que a necessidade de alertar uns aos outros sobre os perigos dos predadores, tais quais leões, tigres e mamutes foi a fagulha para a evolução; (2) porém, a grande maioria da classe científica aponta para outro motivo: nossa espécie acenstral e direta tinha uma necessidade (intensa) de comentar e julgar uns aos outros. Ou seja, fazer fofoca.

Não é curioso pensar que, quando estamos em rodas de familiares ou amigos e comentamos sobre um terceiro que não se encontra no local, estamos exercendo o que é de mais primitivo e, ao mesmo tempo, aquilo que foi a fagulha definitiva que nos fez humanos?

Por fim e não menos importante, Yuval expressa de maneira bem didática que o Homo Sapiens nunca fez parte do topo da cadeia alimentar. Nossos últimos acenstrais não-humanos formavam uma espécie que, ao sinal de qualquer predador ou ameaça natural, partia em disparada, desespero e aflição. Carregamos até hoje em nossa essência o sentimento de medo ou pavor que, por vezes nos coloca em um estado de rigidez, outras de reatividade, quando não de mentira, traição ou ganância. Não seria a vontade de poder a consequência do medo da perdição ou inferioridade?

Talvez “Sapiens” não seja o melhor termo designado a nossa espécie, embora o livro nos alimente com um pouco mais disso. Entender melhor sobre o que somos confere – a mim – paz de espírito, embora espírito, do ponto de vista científico-biológico, seja uma ficção humana…


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Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

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