Tribos de consumo


Como nos relacionamos hoje

Não faz nem 200 anos que o indivíduo construía relacionamentos afetivos por meio de afinidades ou proximidade familiar. Normalmente, era a “lei do dote” ou o contato com alguém da vizinhança, tudo decorrente de muita proximidade e expectativas do tipo “fulano ou beltrana parecem homens ou mulheres de bem”. Lembram do discurso da vovó ou da bisa? Pois bem, até bem pouco tempo atrás – para uma grande maioria – as relações se concebiam desta maneira. Não que hoje alguns núcleos familiares não adotem o mesmo “esquema”, filhos de empresários casando com filhos de empresários, sobrenomes tradicionais das cidades casando com outros sobrenomes tradicionais e assim por diante.

Naquele contexto das antigas, os gays se restringiam a becos ou encontros sorrateiros em residências de figuras emblemáticas ou locais “secretos” reservados para tais encontros. De alguma maneira, o “meio gay” ainda inspira essa cultura sorrateira para alguns homossexuais, principalmente aqueles que optam hoje por não acessar tais lugares, justamente por acreditarem neste imaginário, de algo muito obscuro.

Acontece que nos tempos atuais a regra é ditada por “tribos de consumo”, como define Yuval Noah Harari em sua obra “Sapiens”, já citado por aqui. A grande maioria das pessoas constrói um sentido de afinidade por aquilo que consome. Se alguém pratica esportes, segue uma dieta alimentar saudável, não bebe e não fuma e prefere filmes comerciais, tende a se relacionar com outra pessoa com mesmos hábitos de consumo. Se outro indivíduo compra ideias ecológicas, lê livros sobre Cabala e cultua terapias holísticas, talvez prefira se relacionar com outras que tenham a mesma predileção. E aquele jovem fissurado em eletrônicos, cursos de empreendedorismo, línguas e música alternativa, possivelmente prefira por se relacionar com alguém de hábitos semelhantes.

Ao refletir tal conceito de “tribos de consumo” ao universo gay, é igualmente possível notar que o homossexual faz o mesmo. Se um indivíduo prefere ir na Yatch Club e Lions, viajar com uma certa frequência para o exterior, gostar de se exercitar com certa periodicidade no Parque Ibirapuera, se depilar uma vez a cada duas semanas e manter um hábito alimentar saudável – consumindo produtos integrais, ovos cozidos e carnes magras – tende a se envolver por outra pessoa que matenha a cultura de consumo semelhante. Outro, pode gostar muito de doces, comer de tudo, não se importar com pêlos nem peso, tomar uma cerveja todos os dias e, talvez, se interessar por alguém que cultue o mesmo. Ainda, o gay pode adorar viagens ecoturísticas, consumir conteúdo sobre preservação ambiental, ser vegetariano ou vegano, frequentar uma escola de Ioga, ter uma playslist completa de música indie e pop alternativo no Spotify e, possivelmente, se interessar por outro com os mesmos hábitos. E por fim – e bastante comum no meio gay – a necessidade de se assemelhar em hábitos de consumo é tão grande, que é comum ver casais gays fisionomicamente parecidos, com mesmos cortes de cabelo e tipos de roupas que vestem.

Inclusive, sejam os gays ou heterossexuais, nos “vendemos” ao pretendente recém contatado apresentando – exatamente – nossos hábitos de consumo para “ver se tem liga”.

As tribos formam uma realidade que determina as relações das pessoas, incluindo os homossexuais. Há 10 anos atrás, lembro de um ex-namorado o seguinte discurso: “não me interesso por pessoas que não fumem maconha”. Ou de um colega gay que falou assim: “não tem como me relacionar com alguém que use celular pré-pago”.

Quantas oportunidades não deixamos escapulir pelos dedos quando, seja em um processo de autossabotagem (autopreconceito por ser gay) e/ou de um estreito colamento com a cultura de consumo, encaixotamos as outras pessoas com hábitos diferentes e nos esquivamos das mesmas? Gente que tem iPhone e usa roupas da GAP é mais legal? Pessoas que frequentam os bares e baladas da Augusta são realmente estranhas? Pessoas que participam de aulas de meditação e não se alimentam de carne são necessariamente mais espiritualizadas?

O quanto você é colado a sua cultura de consumo – julgando ou reagindo a quem é diferente – e não se dá conta?

E mais: o quanto o fato da outra pessoa não seguir seus mesmos hábitos de consumo, te parece o mesmo que desinteresse ou até mesmo rejeição?


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

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