Eu te amo


Obliteração do conceito?

As expressões “eu te amo” e “amo você” tem um poder que, segundo espíritas, monges e outros indivíduos que carregam a espiritualidade como parte integrante de suas vidas, trazem benefícios para as relações, para o corpo e para a mente. Muitos psicólogos não diriam o contrário: a expressão é poderosa. Desarma, acolhe, assegura e fortalece.

Mas o que tem acontecido ultimamente? Embora existam grupos, instituições e um senso de justiça e humanidade mais acentuado pelo mundo – como os abraços gratuitos que ganharam a mídia recentemente – a expressão, em si, parece se obliterar quando dois indivíduos com algum interesse afetivo e sexual estão numa relação. No caso, me refiro a gays, tema central do Blog Minha Vida Gay.

Gestos afetuosos, carinhosos e amorosos podem substituir a expressão?

Será que existe o receio de se expressar e não ter a correspondência do mesmo verbo? Será que ao se expressar, assim como quando se assume um namoro em alguns casos, teme-se que a pessoa vá mudar e o relacionamento vá minguar? Ou será, apenas, que este conceito, definido pelas escolas românticas há séculos atrás, tenham perdido o sentido com a modernidade?

Se eu te amo, subentende-se direito de condições ou controle perante o outro? Se eu te amo, será que existem exigências?

“Eu te amo”, a priori, deveria representar apenas os sentimentos de amizade, afeto e tesão pelo outro. O respeito à individualidade, o bem-estar de passar momentos juntos e, nestas situações, haver trocas mentais, físicas e o aceitar da pessoa como ela é, provida de qualidades e defeitos. “Eu te amo”, a priori, tende a nos levar a lidar com o máximo de serenidade as questões mais difíceis.

Mas acontece que o “eu te amo”, pelo menos no contexto gay masculino, talvez signifique “eu te controlo”. “Eu entendo que as coisas funcionam de determinada forma e você, para me dar segurança, deve fazer como eu acredito”.

No caso, estamos falando de dois homens gays. Poderia ser (também) duas mulheres. E quando o assunto são dois homens – seja por orientações biológicas ou culturais – pode existir o ímpeto da competitividade, do ego masculino clamando para que as coisas aconteçam do jeito que se quer. Existe em nosso imaginário, muitas vezes, a ideia deturpada de que a mulher detém o “sexo frágil” e, assim, o homem é dotado de algumas prioridades. O quanto tais valores, culturais e/ou biológicos, estão sultimente internalizados, naquela área inconsciente e acaba por fazer o “eu te amo” entre dois homossexuais, subentender o “eu te controlo”?

Há de se construir um sentido interno de segurança, diferente do que se estabelece hoje. O controle, a despeito de fatores biológicos e/ou culturais, é a manifestação da insegurança. Homens, há milênios, atuam por intermédio do controle (de impérios, sociedades, comunidades e indivíduos) para a construção de uma zona de conforto e poder imaginários.

O amor, talvez, se diferencie de outros sentimentos no momento em que o primeiro carrega muito da crença de confiança depositada no outro. Tal confiança nos preenche de um sentimento libertador. É a manifestação do amor próprio. Assim, aqueles que pensam “homens gays são todos safados” ou vivem demasiadamente das fantasias do ciúmes, tendem a ter dificuldade de amar. Dizem que pessoas assim sofrem por amar demais. Ou seja, até amor em excesso nos tira a paz e, talvez, deixe de ser amor.

O amor, talvez, se diferencie de outros sentimentos no momento em que o primeiro nos permita exercer um papel que aceite a falibilidade humana, acima das regras estabelecidas. Assim, se a sociedade diz que “o certo” é de determinado jeito, ou se o “contrato” do casal diz que é “assim ou assado”, e se por acaso exista a infração ou deslize, o perdão é uma consequência final. O “ego orgulhoso” do susposto lesado abaixará e haverá um encontro com o perdão. E normalmente, os efeitos do ato de perdoar é cura para aquele que perdoa (e, depois, o alívio de consciência para aquele que é perdoado).

O amor, talvez, se diferencie de outros sentimentos no momento em que o primeiro aceite a hora de parar, pegar mais leve e deixar fluir. O melhor as vezes é estar junto, mas as vezes não é.

Este post poderia ser de um cristão se expressando. Mas é apenas, humildemente, um ensaio sobre a subjetividade deste sentimento, o amor, de alguém que teve uma soma de vivências. Daqueles altos e baixos que configuram as relações afetivas e sexuais, quando há interesse por elas e, da melhor maneira, não se deixou abater ou se restringir pelas dores, decepções, rancores ou arrependimentos daquilo que já foi.

O amor nos leva a superação e tira o fardo de nos tornarmos juízes daqueles valores que, no passado, foram abalados por aqueles que – supostamente – amamos.

Bom final de semana.


 

coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

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