Eu só quero ser feliz


Felicidade ao gay. Há diferença?

Dando um apoio para um amigo heterossexual, aquele mesmo o qual relatei recentemente em um post, sobre um término de namoro / casamento de 8 anos e de outros problemas que pintaram na sequência, tive um “brilhante” insight enquanto conversávamos: “a gente precisa entender que felicidade é um estado e não é constante. Se a gente parar de tentar ser feliz toda hora, correr atrás de situações que maquiam as chateações, inconvenientes e tristezas, parar de vender essa ‘pseudo imagem’ de estar sempre feliz para as pessoas e aceitar que a felicidade é um estado transitório, que hora vem e hora vai, curiosamente, temos a chance, aí, de sermos mais felizes”.

Sem querer, ditei a ele uma das diretrizes do Budismo sem ao menos, até dias depois, saber que tratava-se de uma filosofia dessa linha religiosa.

Em tempos de redes sociais e da alta exposição que a mesma possibilita, temos uma tendência (ordinária) de vendermos uma micro-faceta de nós mesmos, aquela partícula de verdade (feliz, intelectual, amorosa ou positiva) que não representa nem 1/20 avos do que somos na totalidade. Lembrando também que, normalmente, “aquilo que autoafirmamos demais, é aquilo que nos falta” – diria um bom psicólogo.

Se estamos passando por momentos ruins, sentimentos de altos e baixos, crises, dúvidas e ansiedades, não queremos nos expor aos outros achando que – pessoas como eu ou como centenas de outras – não vão se dar conta que, igualmente, temos nossas infelicidades. É como se fosse ruim expor que somos humanos e, se expomos, criamos conteúdos tendenciosos para que – de alguma maneira – os seguidores “passem a mão na nossa cabeça”, lancem uma frase positiva como comentário ou marquem um “coraçãozinho” no intento – novamente – de brilhar alguma felicidade.

Não vejo possibilidade de existir felicidade quando estamos reféns da necessidade de estar constantemente feliz. De tal modo, possivelmente, vivemos em um disco que gira e volta sempre ao mesmo ponto, ao passo que, se aceitamos o vai e vem das emoções internalizadas, podemos, talvez, sermos um pouco mais felizes.

Em termos práticos, muitos dos homossexuais ou gays que buscam por reflexões e referências no MVG, abdicam-se de desejos afetivos e sexuais com outros do mesmo sexo pelo receio, medo ou pavor de potenciais reações das pessoas de seu entorno social. Igualmente em alguma proporção, pelo medo do desconhecido, pela exposição e pela incerteza do que é isso, de ser gay ou homossexual. A felicidade, talvez, não se encontre no aspecto íntimo, afetivo e sexual já que esses perfis não dão vazão prática a tais desejos. Talvez vivam certos impulsos de êxtase em sonhos ou fantasias. São capazes de encontrar momentos de felicidade em outros âmbitos, tais quais nas relações familiares, amigos e trabalho. Talvez, entre altos e baixos, certezas e incertezas, encontrem – as vezes – algo de felicidade em uma relação com uma mulher. Ou quem sabe na expectativa ou vivência com filhos.

Ao mesmo tempo, a tendência para esse perfil é de demonizar o “meio gay” e alguns dos comportamentos ditos “de gay” ouvidos (e não vividos). Seria a manifestação da autossabotagem? Se este gay não se dá a oportunidade de, de vez em quando, dar vazão para suas vontades, provavelmente sim, pois o preconceito é uma das manifestações da autossabotagem, do afastamento daquilo que – de vias práticas – não se conhece e se teme. “O meio é podre, o gay é podre” e, assim, o homossexual ou gay que se priva, se mantém no “lugar” estabelecido até agora, cuja maioria de prazeres e dores é repetidamente conhecida.

Outros, manifestam interesse em matar algumas das curiosidades e realizam. Entre sentimentos de culpa e vontade de repetir a façanha, tentam preencher a falta com encontros furtivos, “patoladas”, saunas, banheirões e afins. E o igualmente importante é que o julgamento depreciativo não ressoa do MVG. Talvez ressoe daquele que lê por desgostar deste ou outro comportamento.

E quem disse que o indivíduo que se assume gay e parte para uma prática afetiva, sexual e social é plenamente feliz? Muito provavelmente, uma fantasia de plenitude se dará nos primeiros anos “fora do armário”. Tanto desejo contido e pontecializado, agora passível de prática, leva a pessoa a uma natural intesidade e êxtase. Transcendemos os mecanismos autossabotadores iniciais, aceitamos iniciais rejeições para posteriores resoluções, nos permitimos a conhecer pessoas iguais mas diferentes, investimos rapidamente em relações com interesses afetivo, sexual ou de amizade e nos permitimos a conhecer determinados lugares. Mas, depois de alguns anos, o gay que resolveu sair do armário, a moça que fraturou a perna e voltou a andar, ou seu irmão, que na mesma época em que ela se acidentou, ganhou na loteria, encontram-se – hoje – em uma mesma média de felicidade*.

E mesmo assim, como garantir a saída do armário com uma resposta externa favorável e aberta? Como garantir que no primeiro encontro com alguém que se está interessado a relação vai tomar corpo? Como saber se, naquela balada esperada, aquela pessoa interessante vai dar bola? Como garantir que o namoro ou casamento, que começou totalmente idealizado e apaixonado não confrontará uma grande crise ou mais?

A verdade é que independentemente de onde nos encontremos hoje, naquelas condições as quais optamos por estar, ou naquelas que idealizamos com boas expectativas, não há garantias para a nossa felicidade ou a perpetuação da mesma. O que é mais provável é que, de tempos em tempos, uma força interior nos move para mudanças, algumas peças a nossa frente descolam-se das posições e nos sentimos motivados a nos movimentar de alguma maneira, acreditando – supostamente – que tais mexidas no levem à felicidade, mas sem a garantia determinante. É quando, de repente, deixamos de olhar para os mesmos problemas, as mesmas aflições e as mesmas incertezas e abandonamos a resposta pronta e o comportamento evasivo que apenas nos acomodaram até agora. Passamos a olhar para os mesmos problemas, as mesmas aflições e as mesmas incertezas com a intenção de resolvê-los.

A felicidade, talvez, não seja um propósito a ser alcançado, mas um possível resultado de uma sequência infinda de atos.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

*Conceitos e exemplos extraídos de “Sapiens”, de Yuval Noah Harari, no capítulo que o autor discorre sobre “Felicidade”.

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