Tony


13 Reasons Why, expressão de gênero e o gay ordinário

Durante as últimas duas semanas, em algumas horas vagas, reservei meu tempo para assistir o seriado da Netflix “13 Reasons Why”, história sobre bullying e sobre a realidade de parte da juventude norteamericana na faixa dos 17 anos.

Assim como em “Moonlight”, produção que ganhou o Oscar de melhor filme em 2017, vem acontecendo um fenômeno curioso nos últimos tempos – movimento que ao meu ver é recorrência natural da emancipação homossexual perante a sociedade – que tem se esparramado, fundamentalmente, em diversos centros urbanos nos países ocidentais.

A despeito dos rótulos e estereótipos que infestam nosso imaginário, a expressão de gênero masculino associado a um homem gay tem ganhado alguns holofotes. A exemplo de Moonlight, quem antes diria que um homem, masculino, com perfil de rapper, atuante com o tráfico de drogas em Miami e quase que um líder de sua área, poderia ter um envolvimento afetivo e romântico por um cozinheiro de uma lanchonete, igualmente masculino e que outrora estivera casado com uma mulher?

O mesmo acontece em 13 Reasons Why quando Tony, amigo e “protetor” do personagem principal (Clay), revela sua homossexualidade e nos leva a pensar sobre a verossimilhança daquele perfil: gay, integrante de um gueto latino da cidade, masculino, adorador de carros e mecânico.

A naturalidade das relações de Tony com o namorado, com o amigo Clay, um ex-namorado chamado Ryan e as demais personagens, remete a uma fluidez de relações estabelecida em “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” – filme brasileiro que naturaliza suavemente a homossexualidade entre jovens – e sugere que a expressão da homossexualidade tem transcendido cada vez mais seus próprios rótulos: gays podem ser rappers? Gays podem ser mecânicos? Não só podem como os gays são rappers, mecânicos, advogados, médicos, jogadores de futebol, skatistas, engenheiros, surfistas e podem seguir qualquer outra profissão ou estilo de vida que, em tempos anteriores, eram tidos taxativamente como de perfis heteronormativos. Se revelam o fato de serem gays a todos (ou não) de seu entorno social, é outra história.

Essa tendência atual de normatizarem as diversas expressões da homossexualidade, tem muito de encontro com a vida real. Há verossimilhança. Gays não são e nunca foram somente de um tipo. Não são apenas femininos ou aqueles com alguma disposição para fantasiarem-se de drag queens. Não são apenas os sarados, descamisados em baladas, usuários de determinadas drogas e possuidores de certa neurose narcisista/estética. Não são ursos, peludos e por vezes um pouco acima de peso. Não são os enrustidos, casados com mulheres, ou homossexuais que não gostam da nomenclatura “gay”. 13 Reasons Why e Moonlight são fontes culturais que começam a dar um tipo de luz ou um “next step” para o nível de esclarecimento das pessoas – aos próprios gays e heterossexuais – sobre a própria homossexualidade e a expressão de gênero, no sentido de que ser gay e a maneira que cada um se expressa são assuntos diferentes, desprendidos.

Estamos falando de pessoas ordinárias, de algo médio, embora não mediocre. De gays que se caracterizam como tal não por causa de um tipo de música que ouve, ou algum modelo de roupa que veste, algum sotaque específico ou gíria, algum movimento do corpo, alguma profissão que se escolhe, leituras que faz ou lugares que frequenta. Pode ser dessa forma, mas a real – também e talvez – é que por décadas ou séculos o gay precisou acenar para esses modos, dentre outros, não somente por afinidade, mas também para um importante exercício de encontro entre semelhantes.

Os tempos são outros e tudo me parece cada vez mais claro. Para não dizer fluido. Hoje, muitos gays tem mais de treze razões para dizer que não precisa ser apenas de meia dúzia de jeitos. E isso é tão… saudável! Para não dizer libertador.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

1 comentário Adicione o seu

  1. Fred disse:

    Adorei o post!
    Asissti a série e ao filme. É realmente surpreendente personagens tão masculinizados gays, foge completamente do gay caricato que é muito exposto.
    É uma realidade essa diversa expressão de ser gay, mas no meu “mundo” é difícil encontrar homens desse perfil bem resolvidos..

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