Essa tal da masculinidade


Para o gay, masculinidade – seja coberta de rótulos e polaridades – ou impressa nas situações mais sutis e discretas, faz parte das relações cotidianas.

Podemos pensar muito a respeito. Ou quase nada. Podemos colocar o tema no tradicional e conservador duelo entre “masculinizados VS. afeminados”. Podemos associar o assunto a algum outro pressuposto relacionado ao feminismo. Ou machismo. Podemos relacionar à sexualidade, expressão de gênero ou identidade.

O fato é que a ideia da masculinidade, sejamos homens gays ou heterossexuais, está contida em nós em algum espaço ou lugar, dentro de nossa mente (consciente ou inconsciente, velada ou exposta), estimulando nossas sensações em alguma proporção. Qual a abrangência, que formato e qual a predominância, varia como um degradê, assim como a própria sexualidade e a expressão de gênero.

A masculinidade representada em um homem assume muitas formas diferentes. E em tempos do politicamente correto pode ser um ultraje dizer isso, mas arrisco: masculinidade – desprovida dos valores tradicionais, coloniais e machistas – é tema de interesse a todos em algum nível.

A masculinidade está longe de ser deliberadamente a vilã da sociedade. É bom não confundir a ideia de ser masculino com ser “machão”, embora para algumas pessoas seja tudo a mesma coisa.

A par das percepções feministas ou machistas, há quem entenda como masculinidade o uso de palavrões e um jeito rude de falar. É a barba e o bigode. Há quem entenda como masculinidade um estilo largado ou desorganizado, a barriga de cerveja ou o próprio hábito do consumo da bebida. Há quem entenda como masculinidade a presença de pêlos, não somente no rosto como já citado, mas no peito, na barriga, nas pernas e – quem sabe – nas nádegas. Masculinidade pode estar associada à beleza.

Carecas podem inspirar mais maculinidade. Usar somente sapato ou sapatênis também pode sugerir essa ideia. Carregar um humor mais escrachado, falar alto e usar gírias. Masculinidade pode estar relacionado a músculos, a altura e/ou extremidades longas e largas. Ao tom de voz, gestos, maneira de andar e como se apresentar publicamente.

Antigamente e em algum lugar de nosso imaginário ainda hoje, mesmo que sem querer, a masculinidade tinha uma relação com um sentido de força. Esta masculinidade, certamente, confrontaria o feminismo.

Há quem encontre traços de masculinidade no gesto de abrir a porta do carro, de pagar a conta do restaurante e, as vezes, no preparo de almoço de domingo para o afeto, família ou amigos.

Tocar guitarra inspira mais masculinidade do que tocar piano? Beber whisky mais do que degustar um licor? A masculinidade pode transitar por ideias de hábitos.

O cuidado dos bebês e o passeio frequente com o cachorro, sugerem e inspiram masculinidade. Servir o café da manhã na cama, idem. Nestes casos, associam a ideia da masculinidade com algo de gentileza, de companheirismo e da atitude. Atitude: talvez, masculinidade tenha um sentido interessante da manutenção e cuidado com o outro ou com algo. É quando masculinidade sugere algo de proteção. Pode até ser uma projeção do arquétipo do pai.

Há ainda quem associe a masculinidade com o sentido de homem-objeto.

A você, quem inspira seu sentido de masculinidade? Rodrigo Hilbert, que vira e mexe ganha um destaque como o homem moderno de atitude (embora nos tempos atuais tenha recebido críticas negativas), ou Chris Hemsworth no papel do abrutalhado mas sensível Thor? Wagner Moura ou Cauã Raymond? Denzel Washington, Caio Castro ou Malvino Salvador? Príncipe William?

Estão aí tipos tão diferentes, mas que em alguma medida, perante inspirações e repertório, são exemplos que materializam a ideia subjetiva da masculinidade. Em tempos de politicamente correto e do feminismo em alta, fazendo valer a ideia de igualdade de direitos, é bom lembrar (também) que a masculinidade de um indivíduo – notória ou subjetiva, do sentido de força, atitude ou resguardo – em essência, faz também parte de construções culturais orgânicas e mutáveis, influenciadas em maior ou menor grau por sensações, instintos e desejos biológicos. A cultura pode ter lançado camadas ficcionais sobre a ideia da masculinidade durante os anos, séculos ou milênios, oferecendo um privilégio aos “machos”. Impérios e sociedades, em tempos diferentes, podem ter se apropriado do “poder do homem” para fomentar jogos tirânicos, abusos e culminar em toda a nossa cultura atual.

Mas é inegável que a ideia da masculinidade mexa com o imaginário de todos, homens, mulheres, gays, homossexuais, bissexuais, trans e etc. É um mito, é um mistério, é um tipo de magnetismo e atração. É o que tem Rodrigo Hilbert, Chris Hemsworth, Denzel Washington e Malvino Salvador. É o que há em alguma gradação em todos os homens, até mesmo aqueles que se entendem como “fora dos padrões midiáticos”.

Masculinidade, a despeito das caixinhas morais de hoje, ontem e amanhã, parece apontar para a pluralidade. Algo que está por aí, todos fantasiam um pouco e que, no final, introjeta há milênios um sentido humano para a nossa percepção sobre homens.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

5 comentários Adicione o seu

  1. Adorei o texto. Acredito que convém me perguntar (e nos perguntarmos): qual é a minha masculinidade? Eu sempre tive algo de feminino dentro de mim, mas nunca neguei meu lado masculino. Tenho muito pensamento do homem, do papel do macho, acho que algo herdado da biologia. Só que sabemos que ser masculino ou feminino é questão de assumir papéis sociais. Eu não escolho nem ser feminino ao extremo, nem masculino ao extremo, eu sou eu. Homem-mulher em mim. Tenho até um poema sobre isso, depois te mostro.

    1. minhavidagay disse:

      “Homem-mulher em mim”. Me soa muito como resolução! :)

      1. Como assim resolução?

      2. minhavidagay disse:

        Descrever assim, o “homem-mulher em mim” mostra uma desenvoltura para tratar do assunto! Foi isso que quis dizer com resolução, heheh

      3. Você quis dizer que a partir do momento que me defino como “homem-mulher em mim” estou me resolvendo e desatando algumas amarras? Ou o contrário?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s