Quando um gay é mal resolvido?


Gays, HSH e Homossexuais. Quem é mal resolvido?

Afinal, um gay mal resolvido é aquele que gosta de se relacionar com mulheres mas também transa com homens? Ou é aquele que tem experiências homossexuais mas não aceita a ideia de ser gay?

Há 6 anos atrás, quando comecei o Blog Minha Vida Gay e era um mero “blogueiro” (e 6 anos mais jovem), tinha quase como determinante – como valor, certeza e conceito – que todo homem que assumia relações sociais, afetivas e sexuais com mulheres e que se interessasse em algum nível por outros homens, poderia ser mal resolvido. Há 6 anos atrás eu ainda tinha 34 e uma necessidade autoafirmativa para determinar minhas próprias resoluções como gay. Era importante me apegar e esses tipos de verdades.

De lá para cá, o Minha Vida Gay foi uma “universidade” ou um universo associado a novas experiências pessoais, troca com leitores, a um olhar cada vez mais aprofundado sobre os temas do MVG, às relações com a minha terapia e à minha formação como Coach. A visão do blogueiro se ampliou e, quando o assunto tange a sexualidade e a diversidade humana hoje, a ideia de “matiz” ou “degradê” sugere algo mais amplo do que a mera dualidade de “bem ou mal resolvido”.

Quando o gay é mal resolvido.

Mal resolvido, do ponto de vista de um Coach, é aquele que sofre, se aflige ou teme determinado estado, limitando-se. Não se sente satisfeito e sente (com alguma consciência ou não) algum tipo de bloqueio por ser de determinado jeito. De tal maneira, um gay que é mal resolvido é aquele que, em alguma proporção, sofre ou se limita por ser gay. Em suma, é um sentimento de falta de felicidade por algum motivo que existe e não se resolve. As vezes, leva um tempo – inclusive – para se identificar.

Agora, é importante reforçar que existe uma diferença entre ser gay e homossexual. Tal ideia é relativamente nova e cada vez mais discutida entre profissionais da psicologia, sociologia e medicina. Perante o último, a classe dos médicos, há algum tempo está convencionado o conceito de HSH, homens que fazem sexo com outros homens. HSH são todos os homens que, em algum nível, se propõem a realizar algum tipo de relação sexual com outro homem. O termo HSH refere-se a estímulos biológicos e fisiológicos e não se determina ou condiciona a valores culturais, sociais ou políticos.

Os homossexuais são todos aqueles que, em alguma medida, possuem desejo sexual (e afetivo) por outro do mesmo sexo. É igualmente fisiológico e biológico e, em essência, o conceito “homossexual” não deveria sofrer influências de repertório cultural, social e político.

Já o gay, aquele que se afirma como tal, está imbuído – sim – de valores culturais, sociais e/ou políticos e além de afirmar o envolvimento sexual e afetivo por outro do mesmo sexo (homossexualidade), lança tal realidade ao contexto, em alguma proporção. Em outras palavras, assumir para amigos ou familiares, se apresentar em ambientes públicos com um namorado (seja demonstrando afetividade ou não), não caracteriza propriamente um homossexual, mas sim, um gay. Assumir gera em maior ou menor grau uma influência sócio-cultural e a despeito de posicionamento ou partidarismo, de intenções diretas ou não, é um gesto do ser político que todos somos, essencialmente.

Persona 1: um indivíduo que levanta a estranheza – em relação a si ou a outras pessoas – quando está caminhando ao lado de um homem em um espaço público, seja em um parque ou shopping – sabendo que há um relacionamento homossexual com o mesmo ou algum interesse afetivo ou sexual – está vivendo um tipo de conflito com o fato de ser gay. Tal conflito pode ser interior, de não se sentir a vontade na companhia de outro homem em ambientes públicos, ou exterior, de fantasiar o que os outros vão pensar. Neste caso, homossexuais podem viver com mais segurança suas relações afetivas e sexuais em ambientes fechados e restritos (ou virtuais), mas conflitam com a ideia de alguma exposição. O incômodo com isso é de qualidade social, cultural e política. Existe uma dificuldade de aceitar-se como gay. Do ponto de vista biológico/fisiológico, o desejo de fazer sexo e ter interesse por outro do mesmo sexo é tido como homossexualidade e independe das regras e convenções sociais e da velha neura: “o que os outros vão pensar”.

Persona 2: um homem pode construir uma vida heteronormativa. Pode namorar uma mulher, casar, ter ou não filhos e seguir a cartilha tradicional da vida de um heterossexual. Pode ter afinidades ou não pelos hábitos ditos “de homem”, entrando em maior ou menor grau nas “redomas” da identidade de gênero (futebol, carros, mulheres das propagandas de cerveja, etc.). Além dessas características, este mesmo homem pode, de vez em quando, procurar por outro homem em aplicativos ou sites de relacionamento e praticar atos homossexuais. Esse homem é um gay mal resolvido? Nem sempre. Se ele lida e convive bem com este mix de hábitos, sem sofrimentos, crises, medos ou incômodos, não há como afirmar que ele seja gay ou mal resolvido. Não é gay porque ele pode não ter a necessidade de levar suas vontades biológicas e fisiológicas para um plano social, cultura e político. Não é mal resolvido porque deixa os desejos irem e virem com naturalidade, sem culpa.

Vale abrir um parênteses: claro que um gay (assumidamente gay), pode julgar este homem sob o aspecto moral; e normalmente o faz, vide o quanto os g0ys foram ridicularizados quando tomaram as mídias. O faz não só porque os gays acreditam fortemente que a resolução está na dualidade hétero-gay, mas também porque – convenhamos – muitos gays acabam por se envolver por homens com este perfil (eles estão nos aplicativos e nos sites) e, normalmente, as relações com tais homens não avançam da maneira que os gays idealizam. É até cômodo responsabilizar tais perfis de homens pelo insucesso ou falta de resolução, porque é mais fácil projetar – neles – a ideia do fracasso. Mas, talvez, a verdade é que o gay tem dificuldade de se relacionar até mesmo com outro gay e este contexto (moderno), de relações que não se estabilizam e nem duram, é um problema geral, muito mais traduzido por teorias de Bauman do que de responsabilidade das personas sugeridas neste post. Em suma, para concluir o parênteses, a Persona 2 é mais facilmente culpável por não ser “nem gay e nem hétero”, portanto, “mal resolvido”.

Na prática, quem deve saber lidar bem ou não com este posicionamento é o próprio indivíduo que o vive, seja ele homossexual ou HSH, ou aquele que um dia se entenderá como gay. O fato é que o trânsito em si, entre heterossexualidade e homossexualidade, nem sempre caracteriza sofrimento.

Resumindo: todo gay é homossexual e HSH. Todo homossexual é HSH. Mas nem todos HSH ou homossexuais são gays. Gay é uma classificação específica, cultural, social e política que transcende os aspectos da atração física ou de algum tipo de envolvimento afetivo por outro do mesmo sexo.

Nesses anos de experiência notei um fato curioso e importante que, em alguma medida, embasa ideias anteriores descritas neste post. O embasamento vem do cenário nacional (e talvez mundial): vivemos ainda em um contexto de tempo e espaço onde a necessidade e o desejo do gay se autoafirmar como gay são muito enfáticos pela busca de aceitação e igualdade. E essa energia é política, mesmo que não se vincule ao ativismo ou mesmo que se assuma apenas para amigos. É política, no sentido da importância de sugerir mudanças, afirmar diferenças ou remodelar a sociedade. O fato de um jovem assumir para amigos ou para os pais já se caracteriza como um manifesto político de intervenção social, mesmo que a intenção não tenha claros contornos transformadores.

O enfrentamento contra as limitações e preconceitos vindos de homofóbicos, das famílias tradicionais, de alguns ideais religiosos e de radicais heterossexuais, ajuda a fortalecer o imaginário de que existe apenas heterossexuais e homossexuais, esta reduzida dualidade. Ficamos presos a polaridade, a rivalidade e ao maniqueísmo, pois precisamos nos apegar mais a nossas certezas e garantias. Por um lado, é sabido que a causa tem a devida legitimidade pelo próprio contexto transformador e atual. É ainda um tempo no qual é necessário lutar por um “lugar ao Sol” para que a liberdade de ir e vir se nivele. Obviamente, como consequência do exato contexto, o gay tem se esparramado muito mais hoje do que ontem. Está aí um bônus.

Mas é neste mesmo cenário cultural, social e político em que se cria essa rivalidade entre “gays e heterossexuais”, “Wyllys e Bolsonaro”, que assumimos uma miopia: a base biológica que, muito antes de qualquer construção social já ditava suas regras, tem um menosprezo e fica a mercê de crenças e regras da atual sociedade. A biologia sabe que a sexualidade é uma matiz variada e não se resume a cor branca ou preta. Não se concentra nas ficções culturais, religiosas e políticas criadas pelo homem, mas parece que o humano quer fazer valer – acima de tudo – suas “fantasias sobre a verdade”. Está aí o ônus.

Talvez, assim, seja possível finalizar este post sugerindo que – mal resolvido mesmo – é aquele que entende a sexualidade sobre esta bipolaridade. Se descolar dos pensamentos óbvios está longe de ser fácil, principalmente porque os pensamentos óbvios nos levam aos posicionamentos óbvios que, por consequência, nos trazem a aceitação daquele grupo o qual nos sentimos mais identificados e confortados. Mas apesar de não ser fácil, não quer dizer que, se descolar dos pensamentos óbvios seja propriamente ruim.

Pelo contrário, pode ser muito bom.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

5 comentários Adicione o seu

  1. Texto ótimo, muito explicativo, elucidou muitas coisas. Bom, continuo a pensar em mim. Sempre fui homossexual e, portanto, HSH. Porém, em alguns momentos negava a cultura gay. A partir do momento que assumi para os meus familiares algum pisca-alerta já se ligou. Não me considero totalmente resolvido, nem mal-resolvido. Eu diria que sou um ex-homossexual mal resolvido, atual gay tentando e se dispondo a cada dia mais a se resolver. Tenho aceitado a cultura gay, ao mesmo tempo em que nego alguns dos seus aspectos. Não é por pertencer e aderir a uma determinada cultura que eu tenho que compreendê-la e aceitá-la totalmente, vejo isso como os degradês que você mesmo cita, um pouquinho mais, um pouquinho menos, em alguns aspectos mais aberto em outros nem tanto, Vejo que seus textos, querendo ou não, tem sofrido influências da leitura do SAPIENS e também de nossas sessões de mentoria. Estou enganado? Abraços querido!

    1. minhavidagay disse:

      Exato! Da cultura, que é bastante ampla (e inclusive se cria), o que você quer pegar pra você?

      Não tenho dúvidas que Sapiens é um referencial para o meu momento. E as nossas sessões também, claro! O aprendizado é mútuo é isso é uma das características do processo :D

      Abraço!

  2. anonimo666 disse:

    Não querer ter vida sexual é ser mal-resolvido?

    1. minhavidagay disse:

      Depende! Não querer praticar pode ser sintoma de muita coisa…

    2. O fato é não querer ter ou ter medo de ter….

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