Cri-cri


As vezes é difícil aceitar e, na prática, é difícil não querer mexer. Mas a realidade é que em relacionamentos afetivos, raramente as críticas diretas ao jeito da pessoa mudam a mesma. Existe uma ideia romântica de que “o amor transforma”. Na realidade, me parece que quando duas pessoas entram em um tipo de sintonia íntima, saudável e positiva, uma pode aprender bastante com a outra. Mas é necessário uma química meio que “mágica”, subjetiva e particular (ao específico casal) associada a um punhado de pré-disposição das partes e, talvez, para esta química e pré-disposição os filósofos românticos – atentos as relações durante os séculos – tenham concedido o nome de amor.

É possível afirmar que alguns encontros geram transformações. Mas tais relacionamentos só apontam para crescimento e mudanças aos envolvidos quando ambos estão dispostos a sair da zona de conforto, a tirar o eixo do próprio umbigo e das 360 coisas que interessam as individualidades. Não adianta apenas uma das partes estar disposta neste tipo de caso. Há quem nomeie relações transformadoras como encontros de almas gêmeas ou almas afins. Tais ideias são igualmente de filosofia romântica e me parece estarem em alta novamente.

A pergunta poderosa para clarear este assunto, do tipo de relação que se deseja é: “o que eu espero de um relacionamento?”. É para confortar as noites frias ou momentos de solidão? É para tirar o sentimento de carência? É para garantir os lampejos hormonais? É para ter uma amizade para todas as horas? É para ter uma companhia certa e segura? É para ficar despejando frustrações e medos?

É tipo uma loja de conveniência, para obter alguma coisa ou outra quando bate a necessidade ou é para topar o pacote completo, de pétalas e espinhos? Até onde está escrita a história, não há um indivíduo sequer capaz de oferecer somente louros.

O fato é que a crítica não aponta necessariamente para a transformação e não costuma mudar nem melhorar relacionamentos. Criticar não é amar.

Pessoa cri-cri

Criticar constantemente a pessoa com quem está se relacionando raramente a fará mudar para moldar-se as próprias críticas (ou o que significa o jeito que você quer dela). Conversas e reuniões para avaliar pontos fortes e fracos em relacionamentos profissionais ou metas são ótimas e normalmente trazem resultados, mas não costumam funcionar no aspecto pessoal, quando emoções predominam entre os envolvidos. Críticas diretas normalmente estimulam atritos de egos. As pessoas se ofendem, se fecham ou se ressentem, podendo desenvolver inseguranças. Não é bom nenhuma dessas ocorrências.

A verdade é que lidar com pessoas cri-cris, que adoram criticar e julgar a todo momento alguma coisa da relação ou de quem se está relacionando é bem difícil. Na maioria das vezes as pessoas cri-cris não percebem que são assim e o ideal, para lidar com elas, é não dar muito importância às críticas. As vezes, se você está se relacionando com uma delas e a ama, vai entender que as críticas são insatisfações com ela mesma ou recorrentes no intento de criar um contexto seguro e (talvez) egoísta. Mas nem sempre é possível relevar. Por exemplo e por conhecimento de causa, tenho um pai bastante cri-cri, que não é assim somente por ter ultrapassado os 70 anos, mas por aflorar tal característica da própria personalidade. A família releva na maioria das vezes. Mas as vezes, simbolicamente falando, o colocamos em seu quadrado de castigo.

Alguns dizem que os cri-cris são verdadeiros vampiros. Acho essa adjetivação excessiva, excludente e muito depreciativa. Existem muitas posturas, corriqueiras, que nos fazem vampiros; até “anjos” tem seus momentos sanguessuga. Cri-cris, talvez, sejam carentes, de uma natureza mais infantil e – talvez – morram de medo de se sentirem sozinhos ou serem abandonados.

Não creio que seja regra, mas muitas pessoas cri-cris são acompanhadas de outra característica comum: costumam ser mandonas-domésticas:

  • “Pode trazer um copo d’água pra mim?”;
  • “Vai ligando o chuveiro?”;
  • “Já que você está de pé, pendura a toalha pra mim?”;
  • “Enquanto eu tomo banho, você esquenta tal coisa no microondas?”;
  • “Pode levar tal coisa enquanto me apronto?”;
  • “Faz isso, assado ou cozido pra mim?”;
  • (…)

O fato de vir em tom de pergunta não isenta a relação de um contexto mandatório. Atender a esses favores é, para elas, uma maneira de demonstrar o gostar? Muito provavelmente. Mas depois de meses de convívio, como é manter esta função de servir a pequenos comandos domésticos e frequentes? A sutileza vinda na forma de pergunta, “pode fazer isso ou aquilo?” as vezes é uma “vilã” enrustida em docilidade. As pessoas respondem com gentileza a tal sutileza, quando – de repente – já estão atendendo e, assim, mal acostumando. Relação meio maternal/paternal não seria mera coincidência.

Depois de um tempo, essa rotina pode virar uma dependência não muito saudável pois gera uma comodidade unilateral. Existe uma diferença entre fazer agrados, espontâneos e tais atitudes virarem hábitos, não é mesmo?

Já parou para pensar se você é uma dessas pessoas? Se você se identificou com essas características, não se sinta ofendida. Existem toques importantes por aqui, caso sua intenção seja obter ou melhorar seus relacionamentos! :)

Cri-cri-cri.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

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