Aos 40 e avante!


Mais um tanto dos 40 anos de um gay, assunto que muitos tem buscado por aqui

É interessante como o perfil de leitores do Minha Vida Gay tem mudado nos últimos anos e naturalmente acompanhado as minhas próprias mudanças. O MVG dialoga com um público gay de 20 e poucos anos, adolescentes e creio que fará assim "para sempre", mas também tem abrangido pessoas com 30, 40 e 50 anos +.

A maioria dos posts que trata de temas sobre vivências na faixa dos 40 tem sido os mais lidos ultimamente. E um outro detalhe importante é que mais de 40% dos leitores do Blog são mulheres. Santa diversidade (!) que, particularmente, gosto muito. Postarei as estatísticas dos públicos qualquer dia.

Inspirado em um outro site sobre comportamento, cultura e filosofia, deixarei 40 pensamentos, atitudes e realidades de alguém que atingiu esta "marca".

Mais referências de um gay de 40 anos para quem quiser tirar ideias e inspirações:

1 – estar aberto a mudanças. Apesar de trabalhar a vida toda com comunicação, o que estimula a expressão oral e escrita, tenho/tive um valioso relacionamento afetivo (recente) onde a aquisição de confiança e segurança não se deu por muitas ideias trocadas nem experiências divididas verbalmente. A confiança e a segurança se estabeleceram de maneira muito subjetiva, vindas muito mais de um relacionamento intuitivo e sensorial do que por meio de diálogos constantes. Foi uma experiência nova e é muito interessante estar com 40 anos e estar aberto para esse tipo de relação intuitiva e química. Sempre apostei na comunicação. Desta vez a vida apresentou diferente;

2 – a partir do primeiro ponto vem este segundo: ser muito mais flexível e desprendido de meus padrões e caixinhas. Parece até contraditório, quando existe uma ideia cultural de que a medida que a pessoa vai ficando mais velha, mais apegada aos valores ela fica. Por um lado faz sentido e não nego: meus focos de diversão, hoje, são muito mais selecionados. Não é qualquer festinha e bebedeira que me animam, ou melhor, os atratativos do exterior e do mundo – seja uma balada, um restaurante, um show, uma música, um evento popular, uma exposição, um passeio ou a ideia de um formador de opinião – não me inebriam nem me confortam mais como antigamente. Seletivo sim com uma boa dose de autosuficiência sobre aquilo que quero para mim ou acredito me satisfazer. Mas por outro, a disposição para trazer para meu íntimo pessoas e experiências íntimas diferentes nunca foi tão alta (ou consciente, ou segura, ou tudo junto e misturado);

3 – o gosto ficou mais restrito, não por causa do "status alcançado", ideia que a sociedade e a publicidade teimam em embutir, algo como "subir de vida" ou adquirir "gostos refinados". Mas porque o tempo – provavelmente – faz o ser humano apurar seu gosto naturalmente, a despeito do rótulo social. Seletivo sim, de novo. Por exemplo: tenho preferido vinhos, cervejas não convencionais e cafés. Ando degustando de um pouco de tudo isso sem a ostentação. Este tipo de "filtro" tem funcionado inclusive para as relações;

4 – me desprender de vícios antigos. Parei de fumar pela terceira vez. Na primeira e na segunda, em anos anteriores, eu havia parado com o propósito de ser mais saudável. Mas a vontade de fumar vinha com força nos momentos clássicos: ao acordar, depois das refeições, após o banho e após o sexo. O desejo por esse "amante" me acompanhava sensivelmente. Desta vez o cigarro mudou de lugar dentro de mim. É até estranho e esquisito, mas estou o procurando por dentro há um mês e não sei onde foi parar. Não sei dizer se, de repente, ele vai me pregar uma surpresa e dizer: "Ei! Estou aqui! Me trague com louvor!" ou se nosso longo romance realmente findou. O fato é que não ando com saudades e não lembro dele em situações habituais, quando era óbvio lembrar;

5 – não me fazer promessas absurdas; como alguma relacionada ao item 4, acima. Jamais vou me prometer "nunca mais fumar" porque sei que das vezes que fiz coisas deste tipo a mim e a terceiros próximos, acabei dando com a língua nos dentes. "Nunca", "total", "certeza absoluta", "pra sempre", são daquelas ideias e valores que perderam sentido;

6 – continuar amando sem ter medo de amar. Ninguém sabe traduzir, na real, tal sentimento e, fora artistas e filósofos – pessoas que me parecem mais apropriadas para traduzir essa energia – alguns de nós somos pedantes quando queremos ter convicções sobre o amor, principalmente quando o tratamos como algo tão enorme, de nível de exigência e de especialidade que, no final, quase não amamos ou quase não nos permitimos amar tamanha a grandeza do troço. Puta troço! Não acredito assim. Eu estou amando ainda, embora as atuais circunstâncias tenham criado afastamentos e a outra parte tenha medo deste sentimento vindo de mim. Respeito.

Com 40 anos, bem antes dessa idade até (como tem registro por aqui) descobri que viver o amor por dentro – que se desenvolve por outra pessoa – as vezes é mais importante do que as circunstâncias, comentários, impressões e aprovações de terceiros. O sentimento, que é meu, é suficientemente essencial para ser meramente afetado por julgamentos ou dúvidas de outras pessoas. É uma ideia romântica, sim, embasada na expressão da autoconfiança: quando a gente tem amor próprio, talvez, sejamos capazes de ter o amor pelo outro sob menor influência de aprovação (ou idênticas retribuições);

7 – lidar com frustrações, decepções e traições sem ficar querendo arrancar razões de terceiros ou quartos. Sem lançar tais emoções em quintos. Normalmente quando nos frustramos, decepcionamos ou nos sentimos traídos, precisamos construir uma ideia de culpados e bandidos. Precisamos compartilhar nossa versão para pessoas ou grupos e autoafirmar razões para justificar nossas certezas. Sob o efeito destes sentimentos, as vezes precisamos nos prender à ideia de pessoas (passado) e ficar vinculados a situações imaginárias (passado) até que possamos soltar e deixar ir mas sob o crivo de nossa razão. Isso enruga, possivelmente adoeça e certamente não amadureça;

8 – não temos controle. É bom chegar aos 40 anos mais solto, flexível e livre de tantas "verdades próprias". É bom chegar aos 40 anos muito mais a favor da transitoriedade das coisas, das pessoas e das razões que são mais dinâmicas do que rígidas;

9 – é diferente brincar de adulto sendo adulto de ser jovem querendo brincar de adulto. E isso diz respeito a saber medir as consequências dos atos a curto, médio e longo prazos. Uma pedra que a gente joga no lago vai reverberar de 10 ou 15 ondas depois. E isso pode equivaler a semanas, meses ou anos em nossas vidas;

10 – embora o Minha Vida Gay especifique e segregue os conteúdos para o "nicho de público gay", classificando assuntos como "estilo gay", "comportamento entre gays", "vida gay", "meu amigo gay", "namoro entre gays" e etc., ainda numa necessidade de encontro de pessoas que tenham curiosidades ou dúvidas sobre o tema específico, eu, com 40 anos, quase não me lembro mais que sou gay. A verdade é que hoje eu me recordo que sou gay mais pelos outros (amigos gays, relacionamentos, coachees/aprendizes) do que por mim.

Quando conseguimos ser gay em todos ambientes e lugares – sozinhos ou acompanhados - a qualquer horário (mesmo dormindo, sem viver sonhos simbolicamente punitivos), sozinhos ou acompanhados, ao lado de qualquer pessoa e – principalmente – com um honesto aceitar interior, o esquecimento se manifesta e não se ressente a perda deste referencial. Aliás, perder o referencial é a manifestação da neutralidade do assunto dentro da gente. Não se destaca e não bate um sentimento ou pensamento nem por um motivo, nem por outro;

11 – depois de poder considerar 9 relacionamentos como "namoros sérios, duradouros e íntimos", as dores dos términos ficam mais suaves, mas não porque as pessoas tornam-se menos significantes. Aprende-se a viver as fases do luto sem "arrancar cabelos" ou "achar que vai morrer". Sem beber até cair ou catar o primeiro que der mole no aplicativo. Sem derreter debaixo das cobertas, escondido no escuro. Em suma, sem os excessos das "sofrências". Assim, se eu começo uma relação, não costuma ser para curar algo do passado ou para realizar algum tipo de ideal que ainda não vivi com alguém. Hoje, quando bate aquele desejo, vontade e inspiração para me relacionar, é para olhar e perceber muito mais o outro, viver a relação no presente e deixar passado e futuro em seus respectivos lugares. Claro que boas referências virão do passado e inspirações me apontarão para o futuro, mas não existem grandes expectativas com um relacionamento a não ser viver o presente, aprender algo e estar bem acompanhado;

12 – a cada encontro incrível, que me dá aquela vontade de construir uma nova história, eu passo a entender a pessoa como um mundo inteiro. Tem sido assim desde meus 23 anos e não mudou aos 40. As pessoas são verdadeiros mundos;

13 – trabalhe para estruturar a vida, mas não deixe de desfrutar um pouco pela vida toda;

14 – eu estendi a mão para muitas pessoas, a perder as contas nos dedos. Dessas, algumas se impulsionaram e alçaram seus próprios vôos, criando novos espaços. Outras, inversamente propocional, cobiçaram e, como no clichê-medíocre-conhecido, além da mão quiseram o braço e, se pudessem, trepariam nas costas para me aterrar junto a elas. Vivem autoafirmando seus feitos, repetidamente, o que mostra a ausência daquilo. Em 40 anos posso afirmar que algumas pessoas realmente olham com muita inveja as luzes dos outros, algo que coincide – as vezes – com a dificuldade que determinadas pessoas têm em cortar vínculos. Mas são minoria (o que não dá margem a um pensamento maniqueísta) e, possivelmente, tais pessoas aprenderão cedo ou tarde, com mais ou menos perdas da alma, fazendo valer o item 7 deste post;

14.5 – importante aqui um adendo sobre a inveja que aprendi "ontem": muito recentemente, uma pessoa muito, muito querida que mantinha uma relação incrível comigo, de afeto + carinho + tesão da minha parte, declarou ter inveja de mim. Foi a primeira vez que alguém tão próximo e íntimo declarou a realidade da inveja com simplicidade e objetividade, sem rodeios, mentiras ou atitudes duvidosas comuns a quem tem inveja. Foi inédito. Daí que descobri que a inveja pode ter algum poder quando é velada, subentendida e indireta. No momento daquela declaração, a inveja virou respeito e um pouco mais de admiração. Amor, para quem puder entender assim;

15 – eu provavelmente continuarei a acreditar num "mundo cor-de-rosa" e será difícil ressignificar essa crença, independentemente de possíveis decepções. O que tem variado é a tonalidade da cor durante os anos, mas ainda rosa;

16 – Nova Iorque não tem nada de glamuroso, chique e de "primera classe". Mas a cabeça de parte do povo brasileiro quer acreditar assim, é uma ideia fixa, tanto para Nova Iorque como para outros lugares. Vale também para alguns bens materiais. A cultura exacerbada de classes faz parte da nossa dimensão. Não é uma realidade compreendida, por exemplo, pelos escoceses ou aborígenes australianos;

17 – não há nada mais poderoso do que as nossas próprias crenças. E não há nada mais desafiador do que a superação de nossas crenças limitantes;

18 – a priori, ninguém muda ninguém. Mas há encontros cujas conexões e disposição são tão fortes que as pessoas naturalmente se transformam;

19 – a felicidade não está no passado e nem no futuro;

20 – é possível ser/estar feliz sozinho e ser/estar feliz acompanhado. Pouco me interessa aqueles conteúdos, artigos e textos motivacionais que querem justificar o sozinho pelo acompanhado e vice-versa;

21 – o maniqueísmo é a comprovação de que o ser humano está mais próximo do ancestral do Sapiens do que da evolução dele;

22 – apesar de ter melhorado bastante, ainda peco por, as vezes, me doar demais em meus namoros e me sentir sufocado pelo mesmo motivo;

23 – parafraseando Rita Lee, "sou um ex-hipponga com um pé no imperialismo";

24 – não faz um ano que aprendi a gostar de ler. Gostar mesmo;

25 – Deus pode ser representado por uma grande copa de árvore. As raízes representam as diferentes crenças e todas elas sustentam um único tronco que levam ao Próprio;

26 – sexo é importante. Mas hoje, não mais que uma boa conversa, um bom restaurante, uma boa leitura ou uma boa viagem. Ou seja, dá pra sentir o prazer do sexo com uma pessoa a quase todo momento!;

27 – o hábito de exercícios físicos e uma alimentação equilibrada (sem deixar de comer nada do que eu gosto) começou regularmente aos 34 anos e levarei como parte da minha vida por muitos anos a frente;

28 – dormir bem para mim é, no mínimo, durante 6 horas profundas e ininterruptas;

29 – amei algumas vezes. Paixão mesmo foram apenas duas;

30 – a morte é inevitável e ninguém quer se antecipar. Mas o pensamento sobre ela tem vindo, as vezes, quando estou com meus pais. Mais de 70 anos cada um, é algo que começa a fazer sentido;

31 – me sinto um excelente tio para sobrinhos a partir dos 2 anos. Terei mais dois, meninos, gêmeos idênticos e assim serão 3 para fechar a conta do meu irmão e de minha cunhada, sem saideira! Brinquei com a minha mãe: "um deles disse assim: tou indo é para ser filho do Flávio!". Minha mãe disse: "nossa, faz sentido. Não tinha pensado nisso…" – e se emocionou;

32 – em 40 anos consegui criar as melhores e mais memoráveis histórias me relacionando. Não foram propriamente os lugares nem as situações que me ajudaram a fazer as histórias. Foram as pessoas;

33 – criar uma conexão autêntica com a solidão (distante do celular e de redes sociais, é bom lembrar) é uma prática "transcendental" e contra-cultural que todos deveriam desenvolver;

34 – não excluo pessoas das redes sociais por diferenças, pensamentos divergentes ou comportamentos antagônicos. Não sei bem porque ainda, mas acho que quem faz isso tem uma personalidade enfraquecida. Posso estar equivocado…;

35 – faz 11 meses que descobri que quero "amarrar meu burro". Me dei conta que antes disso, nos últimos 4 anos, eu estava vivendo um momento muito maior de uma relação "me, myself and I" do que qualquer outra coisa. Valeu bastante a pena, mas agora algo mudou. Como essa nova onda vai desenrolar, só Deus sabe. Me dou o direito de não levantar nem uma ruga de preocupação sobre isso;

36 – antigamente eu tinha muitos amigos. Se hoje eu conto nos dedos é porque coloquei todos eles no mesmo pacote do item 3;

37 – o caminho mais sustentável para se tornar uma pessoa segura aos 40 é enfrentando um pouco dos medos todos os anos. Do contrário você poderá se manter um adulto infantilizado, o que está tudo bem também desde que você se sinta feliz assim. Não era o meu caso;

38 – Existe uma diferença tênue e determinante para a qualidade da sua vida: ser uma pessoa boa ou uma pessoa boazinha. Não existe aqui o juízo moral, mas a clareza de que ser de um jeito ou de outro é mais de opção do que uma condição. A escolha trará vantagens e desvantagens, o jeito que for;

39 – Viajar é um dos melhores investimentos da vida;

40 – Mas algumas viagens interiores são fundamentais para a alma, a onde quer que eu vá.


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Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

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