Levado pela correnteza


Vida gay: da superfície a partes bem profundas em um relacionamento

Hábitos. São eles que nos governam e, as vezes, com tanta autonomia que o nosso cérebro faz o mínimo esforço para executá-los.

Os hábitos ficam gravados em uma parte do cérebro do tamanho de uma bola de golfe, os gânglios basais. Em maior ou menor grau, são mais fáceis ou mais difíceis de mudar, dependendo do hábito e das crenças de cada pessoa.

Por falar em hábitos, foi a terceira vez que parei de fumar em 23 anos. E agora, mais do que apenas força de vontade – que é um lance subjetivo de mentalização, emoção e foi elemento propulsor para eu parar de fumar as outras duas vezes – eu compreendi e senti o hábito. E mais: eu passei a estranhar o cigarro. Ele saiu daquele lugar afetivo que me gerava uma dependência emocional. Era um relacionamento viciado. Ele tinha um lugar cativo dentro de mim e, não sei bem quando ou de que forma, ele perdeu essa importância. Com essa experiência recente, posso dizer que só mudar o hábito não foi suficiente para deixar de fumar. O querer é a tal da força de vontade que despejei nas duas vezes anteriores, mas que não foram suficientes para evitar o retorno. Eu precisei deixar de acreditar na importância que ele tinha para mim para, finalmente, não ter mais vontade de fumar. Ainda não me dou por satisfeito pois entendo que o tempo vai determinar minha libertação do cigarro. Estou há apenas um mês sem vontade. Mas o que dá para afirmar agora é que parar de fumar desta vez está bastante diferente.

Os hábitos e vícios comportamentais funcionam todos da mesma maneira dentro da gente. A diferença é que a relação “bandida” com o cigarro torna a ideia do hábito algo bastante didático. Mas vamos aos relacionamentos afetivos:

Hábitos, muitos, também há quando estamos namorando por meses ou anos. De repente, em dias, não há mais devido a um rompimento. Um grupo de dezenas ou centenas de hábitos que compunham rotinas de um casal deixam de existir e, na maioria dos casos de namoros ou casamentos que terminam, a ausência e a falta reais não são propriamente da pessoa, mas dos inúmeros hábitos que aquela figura (namorado, marido, parceiro, brother) representava. Com aquela figura realizava-se dezenas ou centenas de hábitos que promoviam algum sentido de prazer, completude, passatempo, felicidade, crescimento mútuo, autoconhecimento e, na hipótese que justifica boa parte dos rompimentos, a comodidade e a conveniência.

E as vezes, só o fato de ser um amigo cuja amizade foi muito intensa e contínua, a ausência ou perda bate da mesma forma. Essa ideia, da mecânica dos hábitos, tira um pouco do romantismo das relações, eu sei. Mas do ponto de vista biológico e científico, que também recai no ser humano, assim funcionam os hábitos.

Antes de dar conta de que tais hábitos terão de ser substituídos ou transformados, para que a gente continue em frente, abertos para o amor, passamos pela dura e processual fase de luto, que nada mais nada menos é que a aceitação de que A PESSOA não tem mais esse papel de ser “A”. Ela, representativamente, “morre”.

É neste tempo de luto que moram todas as facilidades e, ao mesmo tempo, as complexidades. Podemos ser gays ou heterossexuais, homens ou mulheres de todas as idades. Depois que terminamos um relacionamento, normalmente seguimos em frente tocando outros aspectos da vida e dá para viver assim, mas se a gente levar conosco feridas abertas, traumas, desilusões e frustrações, é bastante difícil permitir-se viver um novo amor e estar inteiro para isso. No mundo moderno, a tendência é tentar preencher essas lacunas emocionais com outras ocupações até que, em um belo momento, caia a ficha. Para algumas pessoas, as mais sensíveis eu diria, o amor não vem quando as feridas ainda estão expostas. Outras até conseguem desenvolver algo, mas raramente chegarão a profundidade pois, quando começa a se aprofundar, as feridas se aproximam.

A fase de luto serve para viver e curar as feridas. Logo, na literalidade, se traumas e feridas continuam, é porque o luto não acabou.

Lembrando que ferida aberta, quem cura mesmo, é só o indivíduo. Esqueça os terceiros, livros de autoajuda ou um Blog como o Minha Vida Gay. A pessoa precisa estar disposta a soltar o passado, afrouxar os nós, perdoar, ser grato e seguir em frente. Esses exercícios são individuais. Um blog como o MVG serve, no máximo, para trazer um pouco de consciência àquele que segue a vida com a ferida aberta e sugere ideias e referências para o que fazer com isso.

É na instância do luto – que pode durar dias, meses ou anos – que resolveremos o quanto o amor poderá se manifestar novamente.

Quando nosso sinal estará aberto de novo? O texto de hoje é sobre isso, o quanto de abertura há dentro do peito para viver francamente uma relação; para a entrega e para o amor. O quanto temperamos, jogando as emoções e as atitudes de um lado ao outro, deixando um pretendente no banho-maria. O quanto o clichê “se joga” se faz valer. São essas atitudes e outras mais.

Isso é tão relativo, na realidade. Depende de personalidade, de experiência, de querer. Sem culpa ou maldade, na grande maioria das vezes as pessoas buscam resolver suas dores passadas em novos romances. Quando as relações são curtas e rasas, até dá para fazer assim. Mas e quando uma relação dura anos ou são profundas, criam-se os maiores projetos e expectativas, formam-se a rede de hábitos e o namoro termina? O ideal e as expectativas se fragmentam em diversos pedaços e a pessoa se sente quebrar junto. Essa é uma tendência. Tem vezes que um “tiro” desses leva um pouco da gente embora. Essa é a sensação simbólica. É como se parte de nós mesmos acabasse. E vou dizer: o homem, seja gay ou heterossexual, lida com a maior dureza esse tipo de situação. Dói muito e não há mal algum em ser assim. Mas como homens, tendemos a odiar e brigar contra estas dores. Não todos nós, mas alguns.

Depois que o chão desaba, precisamos reconfigurar a vida, dar um giro de 360 graus ou próximo disso para recomeçar. Nos entregamos ao individualismo, ao trabalho, aos amigos próprios e a pessoas novas que não terão contato direto com o passado ou com as personagens que de alguma forma fizeram parte da história que nos partiu. Em casos mais extremos, aos porres, as drogas e ao sexo sem proteção.

As vezes, uma paixão platônica, quando assumida e não correspondida, pode ser suficiente para tamanha transformação. Em se tratando de homens ou jovens gays, não vejo como algo impossível. Parte do nosso coração se torna gelado e, ao contrário de filmes, estou sugerindo disso na vida real. Na vida real de alguns homens.

Frios e duros, deixamos de acreditar, em algum nível, no amor colocando o amor no status de burrice ou ingenuidade. Queremos esquecer a ideia de vínculos. Buscamos viver outras experiências, buscamos conhecer outras pessoas e outras motivações mas sempre com a rigidez de uma carapaça que não permitirá ir muito a fundo, de chegar nas partes ainda feridas. Aquelas feridas que, nós mesmos, resolvemos não olhar e não cuidar.

Uma parte das novas vivências são realmente absorvidas no presente e outras partes, na verdade, trazem algum tipo de memória daquilo que foi. E assim a vida segue e algumas lembranças ficam. Trataremos de alguns fatos e situações do presente, sem aparente relação nenhuma com história vividas, como se tivessem conexão com alguma memória. Está aí a manifestação do que não foi superado, uma lembrança, um sentimento que vem à tona, uma postura estranha ou desconexa que teve um contexto antes e se manifesta sem jeito agora. Te acham estranho ou louco. Surtado e, provavelmente, vai passar batido aos outros. Mas não para você.

O desprendimento juvenil se esvai ou se aplica em tudo, menos quando trata-se de relacionamento. Relacionamento ficou reservado para o muito sério, para o muito rigoroso, para o muito sensível, para o “venha a mim pois eu não irei tanto a você”. O ego está ainda ferido. Tendemos a optar pela falta de compromisso, de relações mais improváveis do que as prováveis para, justamente, não haver riscos de viver ou reviver determinadas situações, de chegar no nível das feridas. Só que é claro, podemos achar mas não temos todo esse controle. O negócio, então, é desconfiar das pessoas em primeira instância. Está aí a natural manifestação do coração-gelado.


Em meio a um contexto tão diferente, depois de ter vivido um punhado de novas experiências e ter reestabelecido um padrão de vida aparentemente renovado, acaba que não controlamos para todo sempre o estado de superficialidade e topamos inadivertidamente com alguém. O intento de cura vira e mexe se manifesta sem a gente se dar conta. Eis um provável fato.

Este alguém, supostamente, traz uma proposta tranquila, fora das neuras e manias comuns (no caso, de pessoas gays) que rapidamente apareceriam em nosso radar. Supõe-se enfim uma troca natural, amadurecida, sem paranoias. Todos se sentem a vontade e a relação começa a se desenvolver suavemente, começa a fluir e a atingir um nível de conexão como não se via desde antes o coração gelar. Abaixa-se temporariamente as guardas. Vem o abraço, o beijo, o sexo, a vontade de ver de novo, de estar junto, ver de novo, estar junto e ver de novo… uma química  – fora do controle – se estabelece. E o aparente controle que existia até então sai de cena e vem, na sequência, o incômodo.

O tempo passa e para a surpresa, aquela pessoa começa a despertar dentro da gente sentimentos estranhos misturados com a vontade de estar junto a toda hora:

Ciúme, nunca tive… por que estou tendo agora? Não era pra ter ciúme…“.

“O que é essa vontade de controle e de posse?”.

“Inveja… que estranho. O jeito dele e as coisas que ele faz me dão certa inveja”.

“A sua maneira me irrita, as coisas que ele fala me incomoda!”.

“Ai que sensação estranha de que ele vai me abadonar a qualquer momento!”.

Há anos não se sentia emoções assim por alguém. Há anos uma química não bateu tão forte. Há anos não houve tanto envolvimento. Há anos não se vivia a vulnerabilidade. E, detalhe, somos gays.

Quando damos conta, estamos imersos a uma química muito intensa e meio que entregue para outra pessoa. Estamos colados, nos vendo todos os dias e, ao mesmo tempo, vivendo um turbilhão de emoções, desejos, raiva, afeto, medo, inveja, desconfiança, felicidade, bom humor, estranheza… “da última vez que gostei assim, a relação se perdeu. Eu me afoguei na própria relação e perdi meu eixo quando terminou” – e pronto: a camada gélida quer engrossar. Sem controle, as feridas voltam-se para a superfície, começam a boiar e, igualmente sem querer, projetamos na nova pessoa as frustrações. A química faz destas coisas. Impossível explicar porque, impossível dizer com quem, mas por trás dela está o amor querendo, de alguma maneira, saltar.

E o medo de reviver todas as histórias? Passar pelos mesmos apuros e apertos, dores e sofrimentos?

Infelizmente a culpa, traumas, sentimentos não resolvidos e situações não superadas enganam e podem, sim, confundir o coração. Nem sempre seguir em frente com o sinal aberto é fácil. Na verdade, seguir em frente sem interferências do passado exige bastante atenção, cuidado e muita gente prefere deixar para depois.

Somos e seremos melhores pessoas quando individuais, autônomos e independentes. Mas isso não elimina nem exclui possíveis relações que nos ofereçam profundidade e que nos provoquem sensações intensas, sem controle, prazerosas ou incômodas, boas e ruins durante nossos percursos. Não temos controle dos encontros. As vezes, são químicas que nos despertam sentimentos estranhos, que nos deixam vulneráveis. Que colocam em conteste valores atuais. São essas relações, cheias de envolvimento e profundidade, que nos farão pessoas melhores para seguir na vida mas que ao mesmo tempo nos tirarão de muitos pontos de conforto, de segurança ou de tranquilidade. São elas que vão sinalizar a importância de cicatrizar feridas, deixar para trás definitivamente o que passou e dar chance, de novo, para o amor.

São elas que vão nos fazer lembrar da importância deste sentimento, mesmo que ele não floresça – de fato – nestes próprios encontros.

Suspire, respira e siga. Isso também faz parte da vida.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s