Lá vem a chuva


Acabou mais um namoro e os dias choram por mim

Não sei bem quando irei publicar este post, se é que vou publicar, mas hoje é 16/08/2017 – uma quarta-feira – e este texto tem um teor diretamente íntimo e pessoal, fato cada vez mais raro por aqui. É a minha vida gay, bem focado no tema. A mim, gay só faz mais sentido hoje quando eu lembro que me relaciono com homens. No caso, hoje estou lembrando bastante que sou gay e tudo que isso representa. É assim de vez em quando e natural que seja, quando termino um namoro.

Dia chuvoso e frio de uma frente fria que chegou ontem, terça, e que, segundo a previsão, vai até quinta da semana que vem. Há alguns anos o inverno se despede elegendo, tardiamente, uma semana do mês de agosto. Estamos nesta estação no Brasil que – tipicamente em São Paulo – anda mais quente e seco do que os invernos por aqui de quando eu era menino.

Mas o post de hoje, bem pessoal, não é para pautar a minha infância, embora tenha uma ludicidade infantil e ariana. Quero falar sobre a chuva que, para mim tem uma forte simbologia de limpeza, descarrego e purificação e esteve presente em diversos momentos semelhantes. Sou filho de Ogum protegido por Iansã e é desta poderosa santa que estou também me referindo. Embora não tenha ocorrido tempestades nestes últimos dois dias, é Iansã que se encarrega das chuvas para exatamente isso: limpeza, descarrego e purificação.

Existe certa mística nas linhas deste post pois é de simbologias que eu me refiro: a maioria das vezes que findei um relacionamento (dos 9 namoros que considerei representativos) em 8 deles havia dessa água. Chuva, tempestade ou garoa no dia seguinte e – sim – Iansã de alguma maneira fazia sua presença para dar cores, tonalidades e movimentos para meu contexto.

Dependendo do olhar do leitor, o teor é de melancolia. Dependendo do olhar do leitor, é a sensação do ar leve e úmido, o cheiro da chuva e a temperatura amena. Dependendo do meu olhar, um pouco de tudo isso e há um prazer suave desta vez, com um pensamento silencioso na mente: não pode ser mera coincidência que todas as vezes que terminei um namoro veio a chuva para marcar.

Já pensei algumas vezes que, quando meus namoros findam, alguns anjos ficam tristes e choram. Algo meio egocêntrico e romântico que, para um ariano, faz todo sentido. Já pensei também na própria Iansã querendo dizer para mim que o relacionamento que terminou veio exatamente para isso: limpar, descarregar e purificar para minhas novas jornadas a frente. Para a minha evolução pessoal. Nada mais justo do que seguir os caminhos da vida sem impurezas.

Para quem namorou de oito meses a quase quatro anos, posso afirmar hoje que a duração de tempo é relativa. Influentes são as trocas, o quanto a relação mexe com a gente e o quanto as experiências são marcantes durante o tempo vivido. Um Ariano com ascendente em Áries dificilmente deixaria uma história sem movimento. A dinâmica da paixão costuma ser parte integrante; pode assustar ou incomodar (e não se conta antes).

Eu não sei direito o que quer dizer isso, dessas chuvas pautando meus términos, e não sei se o leitor acredita, embora não é o tipo de coisa que eu precise de aprovação. O Minha Vida Gay, cada vez mais raramente, é meu canto de desabafo para um lado emocional que é bastante presente no meu cotidiano. Engana-se quem acha ou imagina que sou mais racional que emocional e cá está uma exceção de conteúdo no qual sou eu falando comigo.

O que eu sei neste meu momento: nessas horas há uma permissão para eu não ser nem microempresário, nem Coach, nem um cara de 40 anos com as horas de vôo acumuladas. Sou um gay, um ser humano aberto a essas sensações. Estou bastante focado, agora, no que foi meu namoro, nas impressões sobre a pessoa que convivi por quase 11 meses; nas sensações do término e na beleza da coincidência com a chuva.

Limpeza, descarrego e purificação.

É como se esses pensamentos e sensações fossem exaltados pela criança que sempre esteve aqui dentro. Que se entristece – claro – por uma bela relação que termina, mas que segue com um tipo de satisfação de etapa cumprida:

“Neste último namoro fui um pouco mais humano em relação a tudo que foi antes. Dei o melhor de mim. Me arrependi de algumas coisas mas soube me perdoar e perdoá-lo. Tentei. Ouvi. Me senti vulnerável. Conversei. Conversei mais um pouco. Ouvi. Perdi o controle. Pedi desculpas. Me predispus a entrega. Ouvi. Descobri novidades. Cresci. Assustei. Amei”.

Gostei um pouco mais de mim neste relacionamento. Gostei do Flávio se relacionando, abandonando maus hábitos, revivendo outros e se entregando ao novo. Esse é a primeira certeza durante estas chuvas: um jeito novo de me relacionar se iniciou. Ainda há uma natural sensação de esperança, de que tudo vai se ajeitar e – como num passe de mágica – a gente se acerte, reajuste os ponteiros e ponha em prática algumas ideias compartilhadas. Esta aí um dos sentimentos naturais do luto.

Limpeza, descarrego e purificação. Que estas mesmas águas representem sempre estes compassos da minha vida. Existem bons sentimentos apesar do contexto que nunca é bom. Não sei se é Iansã ou se são espíritos protetores que estão a minha volta e que me ajudam assim. Provavelmente seja eu. Mas sei que é essa brisa úmida que toca o meu rosto e traz o acolhimento que me abençoa e abre meus caminhos.

A ele tenho a gratidão com uma profundidade há anos não alcançada. É amor. É fé. É exerício de espiritualidade. Para o amor, não precisa necessariamente ter a pessoa. Acredite quem puder! Essa, talvez, seja a segunda certeza durante estas chuvas.

Eu não preciso de muito para amar e agradeço por ser assim. Em tempos como esses, talvez seja algo para eu dar valor todos os dias. Relacionamentos, a mim, são poderosos e não me fazem nem superior nem inferior a ninguém. Mas me empodera de algo que, talvez, eu tenha conseguido expressar nessas linhas.


Sem a assinatura de Coach desta vez. Hoje, aqui é o Flávio.

PS1: A partir daqui é domingo, 20/08/2017 e comecei a colocar em prática essa “nova” onda de ser solteiro de novo. 11 meses depois, conectar os aplicativos enche a mente de duas verdades… três na verdade:

  1. só fica sozinho quem quiser. A gente pode dar o nome “aplicativo de pegação gay” e querer fazer valer a ideia de que as pessoas nos apps só querem sexo. Mas nunca esteve tão fácil ter companhia com alguém novo. As vezes, até aqueles 40 minutos de troca de elogios e interesses pelo chat, já cumprem um papel de passatempo;
  2. 11 meses se passaram e mais da metade das pessoas do aplicativo são novas. Comentei algo a um amigo que – incidentalmente – acabou também de terminar um namoro e que coincidentemente me procurou e tem feito bastante cia para mim nestes dias: “pelos aplicativos, a gente também vai notando que o mundo está ficando tão, mas tão populoso, com tantas fisionomias diferentes e gostos múltiplos que o valor agregado e a importância do próprio ser humano está se enfraquecendo. Não é à toa que estamos numa onda de tantos conflitos. Além da gente se valorizar menos hoje por sermos muitos, estamos cansados de nós mesmos”. Claro que o teor desta ideia tem um toque de melancolia pelo término, mas se formos analisar de forma fria, está tão fácil conhecer e ter algum interesse, que a ideia de se aprofundar em um relacionamento com apenas uma única pessoa tem dividido espaço com a ideia de ficar com muitas, de maneira que a gente não precise priorizar uma profundidade, mas uma variedade. Quem diria, eu, o “namorador-mor” das longas relações, sentir e entender a coisa assim, nem que seja por um breve instante;
  3. vi meu ex nos aplicativos. A princípio veio um gelo na alma, talvez pelo fato de ser a primeira vez de ver um ex online no app, de namoro recentemente terminado, e pelo fato de ter óbvios sentimentos por ele ainda. Deixei as sensações virem, não entrei numa neura nem numa paranoia e simplesmente permiti as emoções sobre o fato fluírem. Racionalmente, a primeira coisa que qualquer um faria era bloquear (algo que me parece que ele tomou a frente e já fez). Mas no final, as sensações vieram, fluíram e o que ficou foi uma curiosa emoção: “que bom que ele está lá, em suas investidas. Estou com a sensação maior de que eu posso mesmo tocar minha vida como alguém solteiro porque, realmente, ele está empenhado em virar (ou já virou) a página” – muito a ver com a ideia a qual lancei em linhas anteriores, de um importante desapego ou de que os sentimentos que tenho por ele independe de tê-lo. Claro que sentir e conduzir assim tem um aparente bônus, mas tem seu ônus: talvez, se durante a relação eu tivesse os comportamentos mais clássicos de ciúme e posse, a gente ainda estivesse juntos. Ou não.

Boa semana, queridos leitores. Do lado daqui, faça mais chuva ou sol em São Paulo, a sensação é da vida que segue! Seja pela ludicidade e romantismo que me possuíram na quarta-feira ou pelos elementos práticos de sábado e domingo, a vida está aí, em movimento. A despeito das críticas e julgamentos de quando me exponho assim, a busca é pela completude. Não deixem de ir atrás da sua. É necessário coragem!

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