Então… sou gay


Sou gay. Essa pequena frase é tão homonormativa

Fala-se muito em “heteronormativo” ao se atribuir modos, hábitos e cultura ao que é comum aos heterossexuais. E quem pronuncia ou escreve esta palavra – heteronormativo – normalmente é o gay com algum engajamento sócio-político. Inclusive, na loucura do maniqueísmo dos últimos anos, já até li sobre o “gay heteronormativo”, como sendo um tipo “mau caráter”. De louco todo mundo tem um pouco e anda se cavando loucuras para alcançar o cúmulo da razão. A verdade no final é que os heterossexuais mesmo, poucos ou pouquíssimos devem saber do que este termo se trata.

Ao meu ver, heteronormativo, não deixa de ser mais uma das milhares de caixinhas de contextualização e identificação de que o ser humano carece em criar para delinear e contornar suas ficções, fantasias e, consequentemente, se identificar ou não. Estamos falando de agrupamentos por hábitos e afinidades. Os rótulos, normalmente, têm essa antiga e questionável função sócio-cultural de marcar hábitos, maneiras e formas como ponto de referência de identificação. É um tipo de “farol” ou “pilar” para nos aproximar ou afastar e, sim, pela sua essência, acaba igualmente segregando em algum aspecto (ou muitos). Em se tratando de um ponto de referência para os seres humanos, alguns podem realmente se orientar por ele e querer seguir. Outros, vão acabar por, simbolicamente, pichar ou tacar tomates. Humanos, ainda funcionamos assim.

De tal maneira, a homonormatividade ou o homonormativo são ficções igualmente criadas para servir de ponto de referência e contextualizar nós gays ou outros interessados sobre alguns modos, hábitos, cultura e formas – no caso – que são (hipoteticamente) comuns entre os homossexuais. Será que há uma cultura comum aos gays?

Pessoalmente, não gosto da natureza do conceito, deste sentido de encaixotar e nos fixar a modelos, dizendo que “nesta caixinha” ocorrem grandes verdades. Alguns seres humanos sentem a necessidade de se fixar a isso e vivem muito bem dos rótulos. Outros não e, na minha opinião, precisamos construir um senso comum de liberdade para naturalizar qualquer modo. Entendo que não exista um tipo gay ou homossexual determinante, por mais que alguns sintam a necessidade de autoafirmar (outros de contrariar e, ainda, mais um tanto passem a margem destas possibilidades e debates).

Mas eu não posso negar que há um aspecto sócio-cultural comum a quem é homossexual ou gay e que, numa grande proporção ou pequena, vai ocorrer a todos (ou quase todos) que são gays ou homossexuais.

Contar que é, assuntar, dizer, assumir ou comentar:

ENTÃO… SOU GAY. Cedo ou tarde faremos isso a alguém de alguma forma, de algum jeito. Norma incômoda e provavelmente desconfortável. Ou não. Mas, praticamente, norma.

Heterossexuais jamais discorrem entre si, em nenhum momento, que são heterossexuais para uma conexão social. Heterossexuais não precisam lembrar ou avisar que são heterossexuais. Aos homossexuais ou gays, seja a expressão de gênero que cada um carregar, do mais feminimo possível ao mais masculino provável, homem ou mulher, a colocação “SOU GAY” virá em alguma circunstância para que o indivíduo possa materializar – nem que seja apenas com um único outro indivíduo ou de viés – esta realidade. Até mesmo em salas ou grupos virtuais destinados ao público, cedo ou tarde irão questionar algo do tipo: “Gay? Bissexual? Curioso?”.

Isso é homonormativo. Entre gays e de gays para heterossexuais.

Estamos ainda um pouco longe do tempo em que os pais, todos eles e do mundo inteiro, criarão seus filhos a despeito de sua orientações e afinidade de gênero. Em outras palavras, a possibilidade de ter que contar, assuntar, dizer, assumir ou comentar só deixaria de existir quando a sociedade em geral, instituições, grupos, famílias – todos – deixassem de qualificar, segregar ou diferenciar quando os filhos e as pessoas fossem heterossexuais ou homossexuais e passassem a tratar orientações diversas, afeições por gênero, entre outros, sem condições ou condicionamentos.

“Filhos podem ser homossexuais ou heterossexuais e suas expressões de gênero podem transitar com liberdade e autonomia” – que libertário! Mas está longe de ser assim.

Simbolicamente, muitas igrejas, templos, pensadores e pensamentos, representantes e valores precisariam “queimar” ou ir ao chão para que não fizesse mais sentido distinguir gays de heterossexuais.

Isso ainda não existe e, possivelmente, a sociedade moderna, tal qual a conhecemos hoje, teria que percorrer mais 2000 anos para que este estado de absorção da diversidade sexual e de gênero de estabelecesse. É mais possível que esta sociedade, da maneira que é mundialmente hoje, acabe antes. A propósito: será que você carrega algo como 2000 anos para mudar a rota da sua história sexual? (…)

É inevitável. Você pode ser um gay de 60 anos, um gay de 30 anos, de 40 anos, ou um gay de 16 anos. Pode ter até 14 anos e a gente imaginar que as mais novas gerações estão isentas desta normatividade. Em algum momento (ou em muitos momentos) você interagiu ou vai interagir socialmente tendo que afirmar sua orientação em algum contexto, mesmo que seja algo indireto ou subentendido. Haverá diálogos educativos com terceiros, autoafirmativos, engraçados, impositivos e/ou incômodos. Haverá aceitação, indiferença ou rejeição. Haverá desconfiança pois alguns passam pela situação “dos outros nunca desconfiarem ou daquele mulher ou menina estarem a fim”. Ou, igualmente, sua naturalidade de expressão vai te isentar de certo “peso” de ter que dizer: “ENTÃO… SOU GAY” porque as pessoas já percebem pelas formas que você se expressa.

Você vai optar a agir de maneira direta ou indireta e, provavelmente, tais maneiras estão condicionadas ao quanto você está pronto ou preparado para lidar com a rejeição ou uma possível crise de imagem. Viverá, assim, uma curta, média ou longa briga-interior entre seu consciente e inconsciente. Para o outro, as vezes, você até terá comportamentos meio estranhos ou “loucos”. Mas o fato é que essa briga-interior nos faz assim, meio “dementes” na forma. As vezes e não a todos. Mas as vezes.

A sequência dos inúmeros (ou poucos) e possíveis julgamentos, comentários diretos ou indiretos virão em algum grau, mas – neste contexto, aqui e agora – é possível dizer que mais importante do que os julgamentos e comentários alheios é a prévia percepção do que você, leitor deste texto, tem sobre sua própria homossexualidade (ou o fato de ser gay) e como ainda percebe o julgamento e comentários de terceiros, quartos ou quintos.

Você pode ter 21 anos ou 65. Para estes tipos de assunto, me parece que idade não influencia. E para falar a verdade, quanto mais velho, mais afeito você deve ser aos rótulos porque, antigamente, as tribos e grupos fechados eram muito mais comuns.

Sou gay. O que tenho feito com isso?

Você pára para pensar sobre isso ou pensar é “chato” ou incômodo? Quando você prefere deixar fluir, está realmente avançando para resolver estas questões de maneira fluida ou, na verdade, no “deixar fluir” está deixando o assunto para depois?

Entendo que seja incômodo ou desconfortável estar condicionado a algo que, quem não é gay, não faz ideia do que é passar por. Mas o quanto você tem deixado escapar oportunidades relacionais ou de experiências de vida, voltando sempre para o mesmo lugar comum e monótono, que hora te acomoda/acolhe e hora te deprime? Estranho paradoxo ter no mesmo lugar o acolhimento e a depressão…

Ser gay ou homossexual compromete sua posição no trabalho? Ser gay ou homossexual compromete seus status perante seu ciclo social, familiar e de amigos consideráveis? Ser gay ou homossexual compromete seu vínculo com familiares e parentes?

O quanto você quer acreditar que compromete? Ser gay ou homossexual choca com seus próprios valores? Ser gay ou homossexual gera algum desconforto ou insegurança em você quando está tentando se relacionar com outro do mesmo sexo?

Você consegue viver sem barreiras, preferencialmente com um companheiro de seu interesse, sem lembrar que é gay e sem pensar no que os outros vão pensar?

O quanto você teve que bloquear um relacionamento afetivo com outro do mesmo sexo (ou o quanto te “abandonaram” no meio da relação) porque parte de você queria e a outra parte travava? O quanto você, no final, não tomou uma ou mais botas por ter tais bloqueios que o fizeram voltar para o mesmo lugar confortável-deprimente?

Sua relação durou semanas? Meses? Passou de um ano? O quanto você não criou de dezenas ou centenas de hábitos, toc’s e manias comportamentais, achando (na sua cabeça) que o “disfarce-hétero” funciona para afastar ao máximo as pessoas que não podem saber? Quem disse que não podem saber?

Enfim… abaixe a guarda, respire e preste atenção: a irresponsabilidade não é ser gay, mas talvez seja a maneira que você tem se tratado. Será que não está na hora de você ser mais flexível com você mesmo? Pegar mais leve?

Creio que nos tempos de hoje não há príncipe nem relações encantadas que quebrariam estes “feitiços”. A vida real não é tão romântica deste jeito e você é mais autor do que gostaria. No final, talvez você esteja postergando uma responsabilidade que é somente sua. Conhece a palavra procrastinar?

Assim, meus queridos leitores, apesar de eu particularmente não gostar destes rótulos e caixinhas e este post vir com certo tom de provocação ou movimento (sempre vem), se há algo que é homonormativo e comum a todos os gays e homossexuais que gostariam de viver uma vida sem impedimentos (porque os que não se incomodam com estes impedimentos ou não querem resolver, não entenderão os propósitos deste post), é exatamente este fato: em algum nível, direta ou indiretamente, teremos que expressar o fato de sermos homossexuais ou gays.

Acostumem-se quem puder. Faz parte da vida gay.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

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