Primeira pessoa


Solteiro, o Minha Vida Gay assume mais a primeira pessoa

Creio que os leitores que me acompanham a mais tempo já tenham percebido isso: eu solteiro, o Blog Minha Vida Gay assume um perfil mais em primeira pessoa no qual há relatos mais abertamente pessoais. Embora esteja mudando essa conduta, estou com uma predisposição hoje.

Quero voltar a falar um pouco mais do Lucas, “personagem da minha vida real” que venho trazendo aqui há 4 anos.

Lucas é Lucas mesmo e não é um pseudônimo.

Já o tratei aqui como “bissexual” e dediquei mais de um post a ele, não por amor ou paixão propriamente, mas pelas nuances da relação entre nós que soam como boa referência. A mim, é uma memória registrada no Blog que tem contornos novos a cada encontro.

O conheço desde os seus 21 anos, hoje tem 25 e algo que ficou bastante claro entre nós – desde o primeiro contato – era as suas condições e as minhas. Ao contrário de como funcionam algumas pessoas quando o assunto é sentimento, entre eu e o Lucas o que é sentido e o que é colocado em prática são coincidentes. Pelo menos, a gente tem se entendido por esse tempo sem estranhar comportamentos. Papo aberto e posicionamento claro. Para Gêmeos e Áries, em teoria, o ato de se comunicar verbalmente não é problema.

Quando o conheci, fazia alguns meses que eu havia terminado com o ex-Beto, daquele longo namoro de quase 4 anos. Estou falando de 2013. Lucas poderia assumir o perfil do “gay heteronormativo”, como citado no texto anterior. Mas só poderia pois, desde o primeiro contato, com um diálogo franco e esclarecido – a nossa vibe – entendi que ele era um menino, na ocasião, que vivia e vive um universo social e comportamental bastante voltado a um convívio entre heterossexuais de classe média-alta paulista, de hábitos, cultura, lazeres e prazeres comuns ao dito “heteronormativo”. Mas, se um dia o chamei de “bissexual”, pessoalmente ou por aqui, entendo agora com mais clareza que ele é um heterossexual que tem desejos homossexuais. Mas não é gay e nem bissexual (quem quiser entender melhor estes conceitos, lancem as dúvidas nos comentários – rs).

Notem, queridos leitores, que mantenho contatos pontuais (nos vimos umas 15 vezes talvez) durante estes 4 anos e a cada encontro, com bastante diálogo e atualizações de vida íntima, fui notando e ele também, mudanças, adaptações e insights por parte dele sobre essa “mistura” de se afeiçoar ao que é heteronormativo incluindo tesão e afetividade por meninas e, ao mesmo tempo, ter envolvimentos afetivos e sexuais por homens. Claro que eu, dos 35/36 anos para agora, também mudei.

Lucas faz parte daquele grupo de homens que fazem sexo com outros homens, que tem contato com gays e que, se o gay não se atentar e cuidar, corre o risco de cair na paixão pelo idealizado de homem. O fato é que, algumas vezes, já aconteceu com ele e foi natural o debate entre ele e outros caras: “você é um gay mal resolvido” (por parte dos caras) ou “não insista, não vou me expor com você para além do que já acontece” (por parte dele). Entre essas e outras, dos caras que o Lucas conheceu nestes 4 anos, não manteve contato com ninguém. Curiosamente – ele afirma isso e hoje eu acredito – sou o único com algum vínculo e que, quando termino um namoro, a gente – cedo ou tarde – acaba se trombado.

Neste encontro, nus na cama depois do sexo, veio um novo diálogo, a partir de mim: “estou numa fase fácil de me apaixonar”.

Ele: “então se apaixona por mim (risos)”.

Eu: “você sabe que se eu realmente me apaixonar por você, quem vai se dar mal sou eu”.

Ele: “sim, eu seu (…)”.

Entendo que essa paixão latente e possível por ele nunca tenha acontecido da minha parte pelo exato motivo apresentado no começo do post: sempre ficaram claras as condições de Lucas e as minhas condições. Verbalizada, olho no olho, “assinada em baixo”, desde nosso primeiro encontro. Desculpem meus ex-namorados que se prestam a ler o Minha Vida Gay, mas embora o sexo com o Lucas seja a melhor de todas as transas que tive até o momento (há um calor e um energia de paixão únicos) – todas as vezes que nos propomos a tal – além da química na cama, há esse compreendimento de limites emocionais entre nós.

***

O fato da transa com ele ser “a melhor da minha vida” e durar em torno de 3 horas (costuma ser assim), deixa claro para mim que sexo não determina meus mais completos relacionamentos. Ainda mais hoje com 40 anos (risos). Me parece importante saber onde estão as importâncias de uma relação, incluindo o sexo. Sempre temos uma experiência longa, intensa e ardente em quatro paredes. Mas toda conexão se retém apenas no quarto e se dissimula ao sair de casa. Para quem é gay, como eu, há uma falta, ou seja, sexo ardente apenas não me completa.

***

A caminho de deixá-lo de volta, no meu carro, ele lançou outra ideia (fruto das mesmas reflexões de sempre, do que é isso que ele sente por caras e do que é esse envolvimento intenso ao que é heteronormativo): “Eu acho que vou ficar sozinho sempre”.

Fiquei em silêncio e tal afirmação me remeteu a colocações semelhantes dos meus dois últimos namorados, no caso, gays. Em algum nível do meu inconsciente, eu compactuo com esta ideia de solidão expressa no tom do Lucas, que até me faz sentido, no momento em que virei – nos últimos anos – um “engajado fervoroso” da completude na solidão. De qualquer forma, o sentido de solidão de Lucas me parece estar em outro lugar do sentido de solidão de meus ex. O primeiro, de fato, nem chega a arriscar quebras dos modelos heteronormativos. Não concebe a ideia de ir a um restaurante na minha cia, não gosta da Rua Augusta e prefere surfar na praia com os “brothers” nos finais de semana. Deixa isto claro desde sempre. Meus ex, pelo contrário, iniciaram – mesmo que discretamente – movimentos sociais nos quais, em ambientes públicos, pudemos ser ou formar casal. Mas, ao mesmo tempo, não pude conhecer um ou outro amigo como namorado. Ou até pude, dis-cre-ta-men-te. Convivi com outras limitações que, na prática, tira muito da naturalidade.

***

Me peguei pensando agora em que ponto não é mais saudável e fluido me relacionar com o Lucas que deixou os limites bastante claros ou com meus ex que hora avançavam, hora recuavam mediante inseguranças e fantasias sobre o próprio fato de serem gays e de que forma o entorno reagiria (…). Essa coisa de ser “meio gay” ou um gay em fase de desenvolvimento, dependendo de um parceiro para dar uns saltinhos, as vezes é suficientemente desgastante.

***

Eu e Lucas, são 4 anos que mantemos contato e, desta vez, de todas outras vezes que ele jurou me colocar em um patamar diferenciado das pessoas que ele tem na vida, eu não achei um mero xaveco de um jovem bonitão querendo uma foda longa e apaixonada. Meu contexto, as emoções do momento, minhas últimas experiências e o Lucas, nessa versão de 25 anos, me fizeram cair a ficha de que já são 4 anos que se passaram. Falar em amor talvez seja muito forte, mas um querer bem incondicional talvez seja possível. Será a tal da “brodagem” vinculada ao rótulo g0y? Vai saber… o fato é que é bom entre nós.

Da minha parte como gay e homossexual, para ter durado assim e para que o sentido de cumplicidade tenha criado raízes, posso dizer que (1) eu não o idealizei como uma representação perfeita de homem embora racionalmente eu também perceba assim, (2) meus julgamentos preconceituosos – por ele não ser “nem lá, nem cá” – não foram maiores do que a curiosidade de conhecer o ser humano e (3) temos essa exata vibe que tento expressar por aqui, daquelas coisas que são pessoais e intransferíveis. Tem limites definidos que não se brincam.

Algum sentimento ou pensamento poderia dizer assim: “mas vocês se tratam de maneira conveniente, como se fossem um estepe do outro”. Tal afirmação, do ponto de vista de resoluções de sentimentos e sexualidade está quase certa, não fosse apenas um motivo que põe por terra a ideia: a atribuição e a retribuição em nossos encontros são equivalentes. Ninguém se sente usado, tampouco com a “ressaca moral” no dia seguinte de ter feito o que costumamos fazer. Atribuição e retribuição equivalentes, as vezes, faltam nos mais “perfeitos” relacionamentos.

Temos sido leais e o tempo tem traduzido assim. Precisou mesmo de tempo para materializar o sentido de lealdade.

Talvez, ao Lucas, a cada encontro durante os anos, germine e se estabeleça novas ideias sobre a sua hossexualidade. A mim é notável. E para mim, o mais importante nesta relação – cujos contornos e formas aparentam ser tão dissonantes – é que sempre houve respeito, a não idealização e um posicionamento bem definido de limites. Me encontrar com o Lucas quando estou solteiro é dar luz a minha individualidade. Na real, eu tenho muito dele dentro de mim. E reconheci agora que ele me ajuda a acelerar minhas superações, não por “ser gato” ou “um homão” para suprir os desejos do meu ego somente, mas pelo fato de me fazer lembrar de partes de quem sou e que as vezes eu abandono quando entro em determinadas experiências.

Logo depois dele sugerir sua solidão, complementou: “você notou como a gente se dá bem? A gente se dá bem sempre”.

Eu: “sim, Lucas… mas porque a gente não tem a frequência. Deixa vir a frequência para ver o que acontece (risos)…”.

Ele: “é, tem razão. Tem um brother meu que vem todo final de semana em casa. As vezes eu quero dormir e ele tá lá, me enchendo. Eu digo a ele que um fica olhando pra cara do outro igual dois mongos porque nem tem mais assunto”.

De fato, poderiam ser quaisquer perfis ou tipos de parceiros. Relacionamentos duradouros sempre serão jogos de paciência e concessão, afinidades em teste e vivências mistas em conjunto, para mim acima da química-apaixonada-de-cama.

Gosto muito de você, Lucas. Mas acho que em time que está ganhando não se mexe. :)

Será que um dia vamos ressignificar nossa relação e assumir de fato um papel pleno de casal gay? Você aguenta esta ideia de Casal Gay?! Hoje me parece tão improvável (…).

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