Eu, você e os aplicativos de pegação gay


Grindr, Hornet, Scruff e os padrões de hábito de todos os dias (ou lá vai a Chapeuzinho Vermelho atravessar a trilha do Lobo Mau)

Pessoalmente não posso reclamar muito dos “aplicativos de pegação gay”. Conheci meus últimos três namorados por eles (Hornet ou Grindr) e se não foram namoros super duradouros, não foi por responsabilidade dos aplicativos que as histórias acabaram.

O marco de minha iniciação ao uso de aplicativos foi o fim do namoro com o ex-Beto. O Grindr gerava certa polêmica na época em que comecei a namorar com ele. Entre 2009 e 2010 cheguei a baixar para espiar, mas parecia um deserto com alguns “camarões”, fora o forte preconceito pela novidade: ninguém queria botar muita fé no formato “encontro por aplicativo”. Daí veio o namoro e deixei o assunto para depois. Minha fase de euforia pela novidade de Grindr, Hornet e Scruff veio em 2013 somente, quando realmente passei a utilizá-los.

Hoje me parecem tão normatizados na vida de homens que fazem sexo com outros homens (HSH) e gays que pode ser quase difícil extrair assuntos interessantes sobre eles, os apps. Virou “arroz-com-feijão” do cotidiano de muitos caras solteiros (alguns casados e outros casais) e o chamariz imediato, sim, é a aparência física ou algum fetiche igualmente físico. Mas eu tento, neste exercício elaborativo que é o Minha Vida Gay, trazer pontos curiosos de ferramentas que fazem parte da cultura de relacionamentos.

A bem da verdade é que, sempre que retorno aos aplicativos, consigo extrair alguma graça na maneira que nós – seres humanos que gostam de outros seres humanos do mesmo sexo – fazemos para ter algum tipo de atenção ou aceitação. Vamos as minhas constatações pessoais atualizadas em 30/08/2017:

  • Manda nudes. De 11 meses para cá, tempo que estive namorando, um comportamento novo (quase) mandatório se estabeleceu: “manda nudes!”. Que saco. Acho tão estranho um cara de 40 anos, de outra geração, ter que entrar neste tipo de compulsão coletiva. Me recuso! Tiro sarro, mas não mando nudes. A exemplo da juventude lá no Japão, que está fazendo cada vez menos sexo, me preocupa esta onda de “manda nudes” fabricar mais punheteiros do que fazedores de sexo real (risos). A princípio, é engraçado pensar que jovens tem colecionado fotos de caras como se fossem figurinhas;
  • Falar sério só por mensagem de celular. Já fiz fortes adaptações comportamentais, no sentido de que – ao me envolver com rapazes de 25 a 3o e poucos anos – o hábito de debates e discussões tête-a-tête concedeu espaço para DRs e discussões por WhatsApp. Taí um registro/parênteses importante: a minha geração (quem tem acima dos 36 anos, vai me entender) parece muito mais habilidosa a debates, conversas e discussões cara-a-cara. Essa coisa de “terminar por WhatsApp”, “brigar por WhatsApp”, “contar a traição por WhatsApp” (ou tomar atitudes mais sérias com uma pessoa por meio de aplicativos e emudecer numa conversa pessoal) é coisa do jovem (gay ou não). O rito de nudes pode ser um duvidoso e simbólico “progresso” neste sentido: além das pessoas terminarem por Whats, masturbam-se por Whats também, postergando encontros reais. Se a vida relacional fora das telinhas vai se tornar um diferencial daqui a alguns anos, eu serei um dos maiores peritos no assunto (risos);
  • Os moradores do armário. O Grindr está virando um antro de moradores do armário que nos aplicativos de pegação viram os maiores “comedores das galáxias” (risos). Além dos velhos “camarões” (gostosos de corpo sem cabeça, na maioria hétero-homo-enrustidos que há anos são a tradição nos aplicativos), o número de homens que não se prestam a nem colocar foto aumentou no último ano, na mesma proporção que o Hornet virou uma rede social mais divertidinha. Enquanto um alimenta os perfis dos “machos”, o outro flexibiliza ao gay que tem menos barreiras para dar as caras; e pensar que o tempo tem passado e o homem com tesão em homem tem ainda que se camuflar! Não adianta nada a sociedade abraçar a causa se a mentalidade do indivíduo continua embrulhada;
  • Crush! Definitivamente, um quarentão como eu é fetiche para adolescentes de 18 anos. Nunca este perfil pintou com tanto interesse. Curioso um gay como eu mexer com o imaginário deste tipo de jovem gay ou homossexual. Não imaginava: bastou trocar a descrição de 39 anos por 40. Plim! Passe de mágica e virei crush da meninada (risos);
  • Corpo e cara fazem diferença. É duro dizer e os que não conseguem entrar na cultura da estética tendem a sofrer, eu sei. Aplicativos são grandes cardápios e, neste contexto, natural que os pratos mais apetitosos chamem mais a atenção. Mas reforço, como já assuntei em outros posts sobre aplicativos para pegação gay: o homem é sexualizado e deseja a beleza do outro homem. A “culpa” não é dos aplicativos mas das necessidades, cultura e hábitos (e até do machismo internalizado) de quem é homem. Estamos todos inclusos neste pacote, gays, homossexuais ou héteros, por mais que alguns idealizem cenários românticos e bucólicos (risos). A verdade é que ninguém dispensaria um cara atraente, seja lá o tipo de beleza física que atraia;
  • Passatempo. Entra ano, sai ano, eu namoro, depois termino e vou sempre encontrar algumas pessoas reclamando destes hábitos de aplicativos, dizendo que os apps enlatam nossos comportamentos, que são monótonos e etc. Mas outro fato, ao mesmo tempo, é que os aplicativos para o público homo-gay resolvem a maior parte dos problemas de contato com outros semelhantes. A qualidade e o nível de nossos hábitos, discursos e cuidados uns aos outros podem ser duvidosos e discutíveis, mas faz um pouco mais de uma década que podemos exercer com mais autonomia essa nossa homossexualidade em comum. Sou do tempo em que na minha juventude não tinha aplicativo e as proximidades do mesmo. Contatos, assim como hoje, eram impraticáveis. Antes ter que lidar e reconhecer que neste universo homossexual há do “animalesco e puta ao comportado-de-boa”, do que não ter como interagir;
  • Aquele lá mudou de foto, mas continua lá. Entra ano, sai ano, eu namoro, depois termino e vou sempre encontrar aquela meia dúzia que está sempre por lá, nos aplicativos. Eu não duvido que, para algumas pessoas – embora minoria – os apps virem parte integrante da maneira que estas se relacionam. Longe do juízo de valor, no momento em que sei que há homens que vão todas as semanas a saunas ou outros que irão com alta frequência na The Week, por exemplo. Rotinas são rotinas, hábitos são hábitos e a gente costuma mudar somente quando faz sentido ou quando nos libertamos deste tipo de vício comportamental. Tem gente que não se livra da mania nem quando namora e – aplicativos – viram motivos de términos. Mas vá bem: isso tem a ver com mentalidade e maturidade de um indivíduo. É super prazeroso ser desejado por aquele(s) que desejamo(s) no plural. Uma hora aprende-se ou aprende-se;
  • Narcisistas e compulsivos. O Narcisismo não é um fenômeno que envolve apenas o público gay. Mas ninguém duvida que existem muitos gays narcisistas que passam todos os dias recebendo inúmeras cantadas pelos apps, das mais grotescas a mais fofas e são dessas atitudes que seus egos se alimentam. Mudam fotos, poses e enquadramentos para, constantemente, fazerem “sucesso” entre tantos outros perfis. Na mesma proporção, existem os compulsivos por sexo. Estes, normalmente, fazem parte dos perfis “camarão” ou daqueles que ficam ocultos, sem foto de perfil, na espreita para mandarem mensagem a seu “objeto de desejo”. Investem intensamente no “sexo já”, “fast-foda” e no discurso “sem frescura”. A natureza enrustida, normalmente, subentende pessoas “explodindo de tesão”. Claro que entre a fantasia por trás da tela e a prática há um fosso do tamanho das expectativas e fantasias que se criam entre as pessoas;
  • Os insistentes VS. Se eu não respondi, você teve uma resposta. Há um perfil interessante que não consegui compreender até agora e que continua nos aplicativos desde que o Grindr era um deserto. São aqueles que mandam “Oi, tudo bem?” mais de uma vez por dia e todos os dias, mesmo quando – logo na primeira mensagem – você nunca respondeu. Estes insistentes são a simetria oposta daqueles que deixam escrito no perfil: “Se eu não respondi, você teve uma resposta”. Os primeiros, não sei se fazem por toc, por distração ou por baixa autoestima. Talvez um pouco de tudo. Mas os segundos, eu sei, fazem para dizer que “são muito assediados” e se acham “o máximo” por darem um fora a aqueles que não respondem (risos);
  • 4:20. A banda Legião Urbana continua a representar e traduzir demandas de uma mesma faixa de idade de todas as gerações, assim como para alguns o uso de maconha (4:20, 4!20, etc.) as vezes qualifica uma relação, ou seja, pessoas ainda se relacionam por usar ou não a cannabis e usam o tema como “sinaleiro” para aproximar outros usuários. Um de meus ex-namorados – as vezes – soltava desta pérola de que não tinha como namorar alguém que não consumisse maconha (risos);
  • Vamos ser práticos? Bom, como eu clico em aplicativos desde 2013 e, antes disso, já tinha fuçado um pouco, posso afirmar que as pessoas estão mais encorajadas a criar contatos – realmente – por proximidade. Não faz muito tempo que era importante ter pelo menos alguns quilômetros de distância. Se você tentava puxar conversa com usuários muito próximos, quase nunca respondiam. Este comportamento tem mudado: nos últimos tempos, antes mesmo de meu último namoro, havia percebido um tipo de “encorajamento” dos usários. Gente em uma distância de algumas centenas de metros buscando papo. Sexo e/ou afeto vinculados à modernidade? Crescimento populacional? Preguiça para sair do bairro? Gays cada vez mais resolvidos? Talvez, um pouco de tudo isso dentre outras percepções que virão com o tempo.

Particularmente, sou um entusiasta dos “aplicativos de pegação gay”, talvez pelo simples e claro motivo de saber – de exercício próprio – como era manter contato com outros gays, homossexuais ou curiosos via conexão discada na madrugada (de custo mais baixo) e pela sala de bate-papo do UOL. Quem viveu certa pré-história, talvez tenha razões suficientes para festejar a luz da modernidade. Sei também que, na mesma medida que há pessoas que se integram a tais meios, quase como se os aplicativos fizessem parte do ser, outros são simetricamente opostos: são reativos e acham estes sistemas uma perdição. No mais, há uma maioria de homossexuais que não estão nem em um ponto nem em outro. Estão na natural descoberta de prazeres, felicidades e – as vezes – boas surpresas nesta coisa que é a arte de relacionar (fácil só em nossa imaginação!). E na real dá trabalho porque as pessoas funcionam diferente do que entendemos como “normal” ou que atenda nossas exatas expectativas. Difícil é saber lidar com as “loucuras” alheias, não é? Estamos acostumados com as nossas, apenas.

Difícil, mas ao meu ver, longe de ser ruim.

2 comentários Adicione o seu

  1. Carlos disse:

    Esqueceu de mencionar o Tinder, que apesar de ter que mostrar a cara tapa, embora ainda tenha perfis ocultos e enrustidos nesse app, tem se tornado um avanço, vejo muito gays homossexuais e até enrustidos usando ele. Gosto do app e dessa dinâmica do “Match”. Único problema do tinder é a demora pra pessoa responder, ou até nunca responder.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado por complementar o post, Carlos! :)

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